Carta

24/04/2017

Meu anormal,

Pedi-te o endereço para te mandar um postal. Escolhi-te entre os meus amigos que moram longe para tal. Não te dignaste sequer a responder. O postal está escrito, à tua espera. Também te escrevi um livro, que também está em espera. Talvez nunca to mande, um dia destes farto-me, rasgo-o e deito-o fora. Não sem antes o queimar. Também não sei o que fazer com o livro. Se lhe dou uma volta e o transformo noutra coisa, se estou demasiado apegada à história, a conheço demais, para poder fazer dela algo diferente. Se o publico como está, sem me esforçar muito para encontrar uma editora.

Este é o segundo exercício criativo em que te uso. Era para ir a um parque e escrever lá uma carta. Matei vários coelhos de uma cajadada só. Há imenso tempo que queria ir ao Parque dos Poetas. De minha casa, a pé, claro, é um longo caminho. Escrevi duas cartas, dei um longo passeio e usei o meu iPod para passear. Estava a correr bem, até ter ido parar a um sítio com umas coisas escritas na pedra.

Pareciam lápides.

E a carta que comecei por escrever saiu quase a ferros. O que, já se sabe, não é bom sinal. As pedras devem ter mexido comigo e a primeira pessoa que me veio à cabeça quando me lembrei que tinha de escrever uma carta num parque foste tu, não sei se por influência das lápides…

Termino onde comecei, junto à água, cujo barulho me acalma imenso, ao contrário das vozes das pessoas, que me irritam. O parque é lindo, bem cuidado, mas não é isolado o suficiente para deixar de ouvir o comboio e os carros. Já para não falar nas pessoas, que falam muito. O parque cumpriu a função. E é lindo. Eu é que, já se sabe, preciso de silêncio.

Estás devidamente encerrado. E enterrado.

Até nunca mais.

Artist’s Date 113/365 – Go to a Park and Write a Letter

iPod

23/04/2017

Os mai novos nem devem saber o que é um walkman, valha-me deus… Sei que a filha de uns amigos, agora com 21 anos, viu uma vez uma foto do pai com um beep pendurado nas calças e perguntou, quase enojada: o que é isto? Saber o que são fotos impressas já é uma sorte…

Gosto de ser testemunha de dois tempos que parecem distar 100 anos um do outro. Tal é a barbaridade da velocidade da evolução da tecnologia.

ipod

Artist’s Date 112/365 – Use your walkman iPod to walk

O rapaz do talho

21/04/2017

Quero viver num mundo em que o rapaz do talho se sinta à vontade para me chamar linda quando lá vou aviar dois peitos de frango.

Só deus sabe o quanto me dá nos nervos que me interpelem, se metam na minha vida, me controlem. Me acordem do mundo mágico em que vivo na minha cabeça.

flirt

O rapaz do talho fê-lo. Para me dizer que os pneus do velho corsa 1.5TD estavam com os arames a ver-se. Fiquei pior que estragada, fui bruta com ele, que me pediu desculpa, imagine-se. Cheguei a casa dos meus pais e desanquei o meu velho e saudoso pai, que deus o tenha na sua santa paz e que tinha uma paciência infinita para me aguentar, porque o mecânico, a quem paga para não ter de se chatear, não foi capaz de ver os pneus do carro, deixando-me correr o risco de me matar na A5 e de acabar com a vida de quem estiver ao lado, por se me estourar um pneu a 120km/hora. Se pago a alguém para me tratar do carro não é para andar atrás da pessoa a ver o que faz ou deixa de fazer, para isso fico sossegada, poupo dinheiro e trato eu do assunto.

Devo a minha vida ao rapaz do talho. E ao meu pai, que, antes mesmo de se ir embora para sempre, me ofereceu 4 pneus completamente novos.

O flirt estimula a fantasia. Viva a Fantasia.

O rapaz do talho também me pergunta como estava a praia quando me vê voltar da corrida.

Quero viver num mundo em que o rapaz do talho que me salvou a vida por me avisar que os pneus do meu carro estavam prestes a estourar a qualquer momento possa permitir-se chamar-me linda, me sorrir e me acenar quando me vê passar. A quem eu possa mandar umas bocas porque fuma e eu não. E tenho uma inveja danada dessa condição.

Não se me cai o intelecto na lama porque o rapaz do talho, que ainda por cima é giro, só é pena faltarem-lhe uns dentes atrás e abusar do gel no cabelo, me chamar linda, me sorrir, me impedir de morrer na marginal.

Quero viver num mundo em que haja flirt, galanteio, sedução.

Não num mundo em que me abordem em relação ao preço das ações no Nasdaq ou à discussão quem é o pior líder, se o da Coreia do Norte se o Trump. Não há paciência para conversa de circunstância.

Longa vida ao rapaz do talho.

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