Cortinas

21/07/2017

A casa onde morei no Bairro Alto era mínima, num primeiro andar, mas tinha imensa luz, apesar de ser numa rua estreita e rodeada de prédios, baixos, é certo, por todos os lados. Não sei como aquilo era feito, sei que tinha sol a manhã inteira, luz o dia todo e que não se via nada para as casas dos vizinhos. Donde supus que o mesmo aconteceria ao contrário. Como tinha sido derrubada uma parede, a sala tinha imensas janelas, para duas ruas diferentes. Era bem antiga, daí que tinha as tradicionais portadas de madeira caso me apetecesse go wild na sala. Houve logo quem perguntasse se não ia pôr cortinas. Mas, ainda que obcecada com privacidade, foi coisa que nunca me passou pela cabeça.cortinas

Não curto cortinas

Nem reposteiros, nem cortinados. Até acho um detalhe bonito, mas não gosto do efeito, do peso, acho que devem apanhar imenso pó e na grande maioria das vezes estão sempre abertas, daí que não têm grande serventia.

Queria aproveitar a luz natural, era esse o principal motivo. E se nos primeiros tempos até fechava as portadas de noite, ao fim do primeiro mês deixei-me disso. Mas agora que penso no assunto, e depois da imagem que escolhi, talvez o que me leve a ter esta espécie de alergia a cortinas seja o querer saber o que se esconde por trás delas. Não para invadir a privacidade de ninguém, sou absolutamente contra. Mas para saber exatamente quem é o quê.

Já uma vez falei sobre cortinas e casas aqui, um dos textos de que mais gosto.

Artist’s Date 200/365 – Make Curtains

De patins não ando, já se sabe.

20/07/2017

Apesar de me atrair a liberdade que parece que se ganha em cima de uns patins. Mas quando cair é no chão duro. E não me apetece.

Lembrei-me da vez em que andei de ski aquático. Foi em Montargil, depois de já toda a gente ter experimentado e de eu ter vencido o medo de cair e de um ski me vazar um olho, me acertar na cabeça e me matar. Devia ter uns 18 anos.cair

E nunca mais me esqueço. Porque caí uma série de vezes e levantei-me outras tantas sem sequer pensar no assunto. Tentei e tentei e tentei. Não por persistência, teimosia, porque tinha de ser, porque quando cais, levantas-te. Foi pelo prazer que me dava andar em cima da água. A velocidade, de que tenho absoluto pavor, fui ganhando, com a idade, e nem o facto de estar absolutamente desprotegida me demoveu. Adorei a experiência e só me questionei sobre a minha insistência porque o meu irmão, que estava a assistir, me disse: fiquei admirado, achava que à primeira vez que caísses, atiravas com a pega para longe, largavas os skis e te vinhas embora.

Foi coisa que não me passou de todo pela cabeça.

A coisa é para nós quando, apesar das dificuldades, insistimos, sem esforço, porque há algo que se sobrepõe à dúvida. E não é forçado, pensar noutra coisa, vê-la de outro ponto de vista. Simplesmente, é o que prevalece apesar de não ser o óbvio, até de o contradizer.

Artist’s Date 199/365 – Go Rollerblading

Hilariante

19/07/2017

– A resposta do meu amigo Vasco ao meu nervosismo, quando imitava um tuaregue e o som com que acalmava os camelos.
– Ainda esse mesmo amigo a imitar um ator de uma novela qualquer, batendo na perna e dizendo: senta aqui, upalala.
– O meu irmão mais novo a contar que uma vez estava a jogar um jogo qualquer nas costas da cadeira de um passageiro num avião, em que batia freneticamente no ecrã até o homem se virar para trás furioso, devia estar a dormir, para o pôr na ordem e sem perceber quem era a besta que lhe batia nas costas daquela maneira e porquê.hilariante
– Imaginar como gente muito direitinha e muito compostinha transa. Um dos momentos em que mais me ri foi na construção de toda uma cena dessas na minha cabeça, em que para tudo se pedia licença e com tudo se lidava como se se estivesse a mexer em objetos a ferver ou assim.
– Muitos e muitos dos textos que escrevi, nomeadamente este.
– Tantos e tantos momentos com o meu pai
– Tantos e tantos com o meu irmão mais novo, que felizmente herdou do meu pai a boa disposição.
– Tantos e tantos com o meu BFF
– Todos os que implicam um duplo sentido, que permanece subtil. A graça está muitas vezes no que se subentende sem necessidade de se verbalizar.
– Quase todas as reações espontâneas, genuínas e não defensivas.

Artist’s Date 198/365 – List 10 hilarious moments

Paixões e obsessões

19/07/2017

As paixões são sofridas e prazerosas, criativas e dolorosas. São saciáveis e divertidas, obsessivas e tranquilizadoras. As paixões preenchem, libertam, aliviam. São introspetivas e extrovertidas. As paixões devolvem-nos vida, entusiasmo, vigor. As obsessões são sofridas, incontroláveis, descontroladas, talvez até psicóticas, autónomas, ansiosas. São vazias, compulsivas, insaciáveis, aparentemente seguras, intermináveis, vorazes. São prazerosas no sentido autodestrutivo do prazer. É possível desviar a sua atenção, embora não pareça, por conta do caráter compulsivo.

obsessões

Make it an obsession

O nível de perturbação de cada uma define o tempo que dura. Mas as paixões, por serem mais prazerosas do que autodestrutivas, podem durar mais.

As obsessões podem querer acabar com as paixões que por sua vez podem virar obsessões, se o objeto da paixão não corresponde. As obsessões raramente se tornam paixões.

Ambas são possessões. E funcionam à revelia da consciência.

A obsessão parte de um pressuposto de carência. A paixão de encantamento.

Quero mais do que me dá prazer. Quero tudo quanto puder por não saber quando posso voltar a ter.

Ambas são urgentes, impacientes, devoradoras e não permanentes.

O Estado da Arte

18/07/2017

Usar o famigerado mercado para justificar a aposta numa coisa e não noutra nunca me convenceu. O mercado não é uma entidade superior que determina o que as pessoas querem e não querem, gostam e não gostam. Escrevi sobre isso de forma bem poética num dos ensaios do Message in a Bottle. Mas apresentar como solução o financiamento da arte, da cultura, pelo Governo, também não.

É a diferença entre dar o peixe e ensinar a pescar. No primeiro caso, somos dependentes e nunca aprendemos a sustentar-nos. Somos, portanto, controláveis. No segundo, independentes, autónomos.

Artista nenhum quer esmolas

Quer expressar-se, passar uma mensagem e ser entendido e visto na sua unicidade. Que é exatamente o que a arte provoca em quem a consome. E se há coisa que a caracteriza é precisamente a liberdade do artista para a criação. Se não for livre, não é arte, é uma encomenda que poderá sê-lo, mas é em primeira mão uma encomenda. E tudo bem também.arte

Quando falamos de filmes, de música e de literatura, talvez seja difícil, por não ser eventualmente quantificável a não ser pelo objeto, o filme, o disco (ou a faixa), o livro. A questão é que não é o objeto que vende, é o seu conteúdo. Não é quantificável porque é o que nos provoca e não o que consegue fazer, como um detergente para a roupa ou um eletrodoméstico, onde incluo telefones, computadores e tabletes. Também não é visível, como uma jóia ou umas calças da marca x e uns sapatos da marca y (que custam três vezes mais o preço de um bilhete para um concerto). Não nos embebeda nem nos inebria, mas provoca o mesmo efeito, ou melhor, e sem ressaca.

Atribuir um valor à criação pelo que nos provoca, nos transforma, nos acorda, nos mexe.

E agir de acordo, pagando. É a única forma de conseguir que alguém continue a criar é pagando pela criação, o conteúdo. E assumir a nossa própria falta de coragem ou talento, parando de projetar a nossa amargura nos outros apenas por serem malucos e abnegados o suficiente para insistir em criar.

Enfiar na cabeça de uma vez por todas que um trabalho feito em casa é um trabalho; um trabalho intelectual e/ou criativo é um trabalho; leva tempo como os outros, usamos neurónios como os outros, mais imaginação e criatividade do que os trabalhos das 9 às 5, só não vestimos fatinhos janotas e não apanhamos com horas e horas de trânsito. São opções. Todo o investimento em materiais e emoções é do criativo. O trabalho é solitário, pessoal e intransmissível. Não há colega que se contrate para fazer as nossas férias ou nos substituir quando estamos doentes. O processo criativo é violento. “Music is about feeling”.

Se eu quero um Miguel Angelo, um Botticelli não me serve.

A qualidade e a especificidade, a particularidade, tudo se paga.

Talvez se se parar de esmifrar as pessoas com salários de merda e impostos altíssimos, possamos ver um bocadinho além da necessidade, do material, do ter, e passarem a preocupar-se um bocadinho mais com o ser. E se responsabilizasse nesse sentido, investindo de acordo.

E talvez se se apostasse nas pessoas em vez de nos aproveitarmos delas quando já são conhecidas esse tal de mercado piasse de outra maneira, mais fino.

É por isso que este vídeo é tão bom. O Luís Figueiredo, de um jeito objetivo, explica algumas coisas. A moça do vídeo trata do resto. Obrigada aos dois e ao Salvador, que proporcionou isto tudo.

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