Enraizamento

21/11/2017

A rotina está instalada e com gosto. É como comer a sopa toda por saber que no fim há sobremesa. A caminhada é a trote, até ao fim da praia, pelo paredão. Na volta, sento-me nas escadas, tiro ténis e meias e venho pela beira mar. O primeiro contacto com a água que já gela ligeiramente os ossos é um shot de vida, ainda que um choque.

Depois, vou-me habituando.

Deixo-a chegar aos joelhos, não fugindo das ondas que tentam apanhar-me por todos os lados, fazendo que abrande o ritmo que se quer rápido e incisivo, mas que vai amolecendo quanto maior é o contacto com a natureza. Tudo o que venho pensando durante a caminhada, que até me faz andar mais rápido, tal é o nervoso, começa a desaparecer quando ponho os pés na areia e vai-se completamente com o contacto com a água. É mágico. Antes mesmo de chegar ao fim da praia, paro, tiro os auriculares, e, com a água a ir e vir por cima dos meus pés, a sensação é indescritível, fecho os olhos e inspiro e expiro profundamente dez vezes. Ao fim da terceira, já se nota o efeito. Mas a magia acontece à dezena. enraizamento

Quando volto a abrir os olhos até vejo melhor

Subo e dirijo-me, já a um novo ritmo, sem qualquer peso nos ombros, ao bebedouro cuja água costumo usar para tirar a areia dos pés e poder voltar a calçar-me.

Todos os dias.

Mas hoje, quando lá cheguei, estavam dois homens da Câmara a cuidar do jardim em volta. Arrancavam ervas. Mais tranquilos seria difícil. O silêncio era absoluto e nenhum deles falava. Dei por mim a pensar que afinal jardinar não deve ser assim tão chato. Ao vê-los com as mãos na terra, e só de me lembrar o efeito que o contacto com a mesma tem em mim, dá-me uma paz absoluta, ocorreu-me que essa é a maior perda da conquista do intelecto e do seu uso para tudo.

A desconexão total.

Inebriada pelo cheiro do verde fresco, e da sensação imediata de conexão e pertença, lembrei-me do meu guia da Amazónia, um índio que me contava que quando ficava fora da floresta, durante o inverno, na civilização, com a mulher e os filhos, ficava muito doente. Rendendo-se ao óbvio e desistindo da cidade de vez.

Quanto problema de ansiedade, quanto isolamento, quanta chatice seria evitada com uma presença plena na natureza. E respetiva sensação inquestionável de enraizamento. O intelecto é bom para o ego e a persona. Mas a alma precisa de mais do que isso e é na natureza que encontra praticamente todas as respostas. Cura tudo, realmente…

Ego, Planetário, Aquário.

21/11/2017

Foi exatamente o que percebi há muito. Quando cheguei aos 7 km de corrida e me dei conta, por mim e por outras pessoas, que a corrida tinha perdido parte da piada. Ou melhor, que a obsessão mais quilómetros, menos tempo me tinha tirado o gozo, tornando-se evidente a pulsão do ego, muito mais do que uma pulsão por exercício físico, conexão, prazer.

E que quando o ego está satisfeito, desconsidera tudo o resto.

A minha prioridade sempre foi a satisfação da alma acima de qualquer coisa. Alma é totalidade, ego é esquizofrenia de poder, falsa sensação de segurança e de prazer. Voltar a caminhar deixou isso claro como água. E ego em demasia, inclusive, embrutece e emburrece as pessoas. (The footrace mentality is always de ego’s demand to be not just good, but also first and best).

Artist’s Date 322/365 -Make X-mas Ornaments

Estrelas que piscam no mar. Privilégios do caminhar.
Artist’s Date 321/365 – Go to a Planetarium

Artist’s Date 320/365 – Visit an Aquarium

Os livros não se escrevem depressa

18/11/2017

Os três primeiros capítulos do meu primeiro livro foram escritos em 2006. Quatro anos depois, ao relê-los, gostei tanto do formato que achei que poderia fazer daqueles primeiros textos um livro. Escrevi o quarto capítulo e, ao fim de mais uns três ou quatro, começou a dar-me a pressa. E dei por mim a forçar. O que nunca é bom. 

Há escritores mais metódicos do que outros. Com horas para começar e para acabar. Como se trabalhassem num escritório das nove às cinco. Eu sou mais intuitiva. O que não quer dizer necessariamente que seja caótica.

Sinto muitas vezes que o livro se escreve sozinho.

Os primeiros capítulos nascem espontaneamente, de uma vontade emocional de expressão e de uma necessidade psíquica de me dar continente. Ao fim de dois ou três textos com o mesmo bordão ou tema, crio o conceito a partir daí. Defino-o, e à ideia, que fica à deriva no meu cérebro, até que o texto começa a surgir. Compulsivamente. Como se soubesse que ou é assim ou morre. Não consigo prolongar as coisas indefinidamente. Cansa-me e dá-me nervoso. Por isso, só se esgota porque lhe ponho um fim, determino o número de capítulos, sou simbólica nisso, os números são-me importantes nesse particular, e a coisa torna-se quase obsessiva até lhe dar um término.

Os livros também não se forçam

Ontem, dei com uns quatro pergaminhos que não chegaram a figurar no livro. Fruto desse processo de auto-pressão, foram escritos a partir da persona, o que destoava do tom que queria dar-lhe. Dois eram apenas referências, um ao Você, do Tim Maia, outro apenas dizia que a psicanálise já havia afiançado que nós decidimos quando nos apaixonamos, fazendo referência a uma intenção minha de estudar documentário, com as devidas reticências. Os outros dois eram demasiado pessoais e íntimos. Um descrevia o potencial destinatário e o outro todas as minhas sombras, as que conhecia, pelo menos.

Se um dia chegar a Best Seller, ou antes mesmo de morrer, divulgo-os.

Piano

18/11/2017

O piano é o meu instrumento musical preferido. E tenho imensa pena de nunca me ter dedicado a aprender a tocá-lo. piano

Para evitar que o monstro acorde, para me concentrar, para me acalmar, para me focar, para me conectar. Piano. Tenho no Spotify uma playlist de 35 horas só de piano. Que alterno com a Stacy Kent sempre que a agitação do pessoal que mora na minha cabeça é tal que não consigo ouvir música com palavras, por, à mínima coisa, me desconcentrar. Por isso, em vez da música indiana, não tenho muita paciência, respondo à pergunta e ponho em prática a minha preferência.

Artist’s Date 319/365 – Go Hear Indian Music

Lisa Eldridge

17/11/2017

Uma das pessoas públicas femininas que mais me inspira é a Lisa Eldridge. Uma artista da make up que me foi “apresentada” por uma leitora, depois de perceber o meu drama com os pincéis e respetivos tamanhos e utilidades, entre outros.

A Lisa é a artista que mais e melhor maquilha celebridades, britânica, como não poderia deixar de ser. Publicou um livro que ainda não perdi a esperança de obter, mais pelo valor artístico e pela história da make up do que propriamente pelo tema em si. Somos mesmo nós que fazemos os temas, que já existem, é a nossa abordagem que faz a diferença. E mantém uma humildade e uma permanência nas redes sociais digna de nota e admiração. Por ser fiel a uma postura humanista e humanizada, ao continuar a chegar, todos os dias, a pessoas que não podem aceder aos seus serviços. Sem alarde, auto-promoção, disfarce, sem a usar em benefício do próprio ego.

O date de hoje é com ela. Ao que sei, não se dedicou à Kabuki makeup. Mas ensina a fazer smokey eyes matadores, para todos os gostos.

Artist’s Date 318/365 – Try Kabuki Makeup

error: Content is protected !!