Paternalismo*

02/02/2019

“Hoje, olhamos para a Lei Seca com curiosidade arqueológica. Um erro. O espírito da Lei Seca, ao contrário da própria lei, sobreviveu nas nossas democracias. O nome desse espírito? Paternalismo.

A grande diferença é que as justificações paternalistas abandonaram a “moralidade pública” e optaram agora pela “saúde pública”.

Mudança cosmética, não mais.

Christopher Snowdon entende por “paternalismo” a tendência das democracias ocidentais de produzirem legislação para protegerem as pessoas delas próprias. (…)

Para o paternalismo, a função do poder é coagir as pessoas a escolherem certos caminhos “para o seu próprio bem”.

(…) o único motivo que legitima o Estado a interferir na liberdade de alguém é para evitar danos a terceiros.

Salvar a alma (ou a saúde) do indivíduo não basta.

Exceto para quem tem uma concepção fascista do poder —e “fascista” no sentido preciso do termo. Mussolini, por exemplo, defendia que a liberdade fascista era superior à liberdade das democracias burguesas porque o Estado fascista cuidava de cada indivíduo.

Pois bem: “cuidar do indivíduo” é o mantra moderno. Em nome de quê? Da saúde, claro. Para repetir o clichê, haverá coisa mais importante do que a saúde? (…)

Para certos indivíduos, o prazer pode ser mais importante do que os dois anos extras de velhice funcional.
Donde, que legitimidade tem o Estado para determinar qual o valor mais importante para a minha vida, sobretudo quando a minha conduta não causa dano a terceiros?

Por outro lado, se aceitarmos que a saúde e a longevidade suplantam qualquer outra consideração subjetiva, (…) o Estado (…) deveria proibir também qualquer atividade humana que pusesse em risco a minha sobrevivência.

Mas o paternalismo não é apenas uma violação grosseira da minha autonomia.

O paternalismo médico incorre numa violação deontológica severa: propõe-se “curar” uma população sem o consentimento dela.

Eu sou livre para aceitar ou recusar certos tratamentos médicos. Mas não sou livre quando o Estado decide que tipo de comidas, bebidas ou divertimentos eu posso consumir.

A tirania do bem não deixa de ser uma forma de tirania.

No século 19, confrontado com a possibilidade de se proibir o comércio do álcool, John Stuart Mill afirmava: as pessoas não são crianças nem selvagens. São pessoas e devem ser respeitadas como tal —seres imperfeitos, às vezes viciosos, mas senhores do seu destino. (…)

Ironicamente, a ambição humana de produzir um mundo perfeito é tão forte como os vícios que o paternalismo persegue sem descanso.

*João Pereira Coutinho, @folhasp

Gillette: o melhor para o homem (e a mulher…)

21/01/2019

Mal anda o mundo em que um anúncio, bom, ainda por cima, que diz basicamente não à violência, ao abuso, à prepotência da força bruta sobre a liberdade individual, gera controvérsia, polémica, ódios generalizados e desgostos em barda.

O mundo anda polarizado e não é de hoje.

Especialmente em relação ao tema homens e mulheres. Há muito desconhecimento, muita agressão mútua, muita vitimização, muita defesa e ninguém ouve ninguém.

Anda tudo em modo reativo, tipo cão de Pavlov. 

A questão é, obviamente, muito mais profunda do que uma mera e eterna guerra dos sexos. É do masculino (poder) e do feminino (amor) que se trata. Esse está em homens e mulheres. E é esse equilíbrio que é necessário. Primeiro em cada um de nós e depois nos nossos relacionamentos, sejam de que tipo forem.

Movimentos como o #metoo não ajudaram muito

O que começou como um alerta para tomadas de consciência maiores, tornou-se numa tentativa de domínio das mulheres sobre os homens. Homem nenhum aceita isso. E há imensas mulheres que também o recusam. Sem necessariamente serem machistas, apenas não querem perpetuar a vitimização. O que as afasta ainda mais das suas congéneres.

Vamos parar de dividir o mundo entre bons, os que concordam connosco, e maus, os outros.

A coisa chegou a um ponto em que teve de aparecer um manifesto, encabeçado pela Catherine Deneuve entre outras personalidades, para travar uma onda de gente que se aproveitou de um movimento válido e necessário para expiar a neurose, não se coibindo de acabar com a vida de uma série de gente inocente.

Para lembrar que ambos têm de aprender a coabitar.

Os tempos foram ingratos para as mulheres? Foram. Uma merda. A cultura dominante foi abusiva. No entanto, foi o que foi e não dá para apagá-la da História da Humanidade. Mas também não dá para compensar, cometendo o mesmo erro. É um guerra que não tem fim e todos perdemos.

O que dá é para tentar equilibrar. Ajustar. Corrigir a rota e seguir em frente.

Queria deixar isso claro aqui: nós continuamos a querer os nossos homens masculinos. Mais masculinos do que nós mesmas, por favor. Pela parte que me toca, e a muitas mulheres, nós não queremos dominar-vos, que percam um milímetro da vossa masculinidade.

O nosso objetivo primeiro e último é de aproximação, de equilíbrio, de amena convivência. Não de domínio, subjugação.

Essa agressividade toda, essa coisa de controlo, de poder, isso vocês deixam para o desporto. A arte. Não para o relacionamento. Ou para a resolução de conflitos. Relacionamento nenhum vinga sem a presença do feminino.

O feminino equilibra a força bruta. Dá uma temperada na cabeça, impede o radicalismo da lógica, do intelecto, dá-lhe humanidade com a emoção e o sentimento.

Essa coisa da masculinidade entre os pares, equilibrem-na com o feminino. No fundo, no fundo, vocês sabem que muitas vezes é só infantil. Insegurança, coisa de adolescente que tem de provar que é macho.

Já o feminino precisa por sua vez de equilibrar emoções transbordantes com a razão e a lógica.

No fundo, no fundo, ambos temos muito trabalhinho pela frente e, curiosamente, estamos na mesma batalha: fazer as pazes com o feminino. Aceitá-lo, em vez de o temer. Incluí-lo, em vez de tentar anulá-lo, castrá-lo.

Temperança, meu povo, temperança…

E, em precisando de inspiração, é pôr os olhos no Jamie Fraser. O herói de Outlander, magistralmente interpretado por Sam Heughan, é o caminho da evolução do arquétipo do masculino. Não ter medo do que sente.

De o viver e de o expressar.

O gajo mais sexy que conheço usa saias. E andam vocês aí preocupados com a vossa masculinidade e com medo das mulheres. Ponham os olhos no Jamie Fraser, senhores. E nada temam, homens deste mundo.

No fundo, do que todos temos medo não é das mulheres nem dos homens. É do feminino, do que sentimos, porque isso faz uma confusão danada à cabeça, que é impotente perante a força do Amor, a única que nos leva para um lugar mais próximo de nós. Nos conecta, nos vincula e nos une, verdadeiramente.

É a harpa (feminino) que nos une, não a espada (masculino).

Projeto Olimpus

19/01/2019
Aos bravos Tristões e às Isoldas louras e morenas, muito grata estou por esta viagem épica, conduzida com a mestria a que o timoneiro Nuno Pinto já nos habituou. 
 
Está completa a trilogia: Jornada do Herói, Masculino, Eros e Psiquê, Feminino, e Tristão e Isolda, o casamento dos dois.
Que é como quem diz, a integração dos princípios masculino e feminino em homens e mulheres, a que o Jung deu o nome de animus e anima, arquétipos fundamentais da nossa psique por serem os que estão na base das nossas relações amorosas. Consumadas no amor romântico e no seu imenso potencial transformador.
Prova superada
Para quem não percebeu a profundidade da viagem de hoje e não se apontou, mais virá. Com ousadia, diferenciação, especificação, apropriação do arquétipo correspondente, numa dança em que faremos as pazes com o passado, danzaremos o presente e abraçaremos o futuro, de mãos dadas com os deuses, na condição que nos permite relacionarmo-nos e conectarmo-nos, a de humanos.
 
Dos deuses queremos inspiração, a nossa vida viveremos simbolicamente, nas aulas de Biodanza, e lá fora, alinhados, sem que a cabeça tome o coração ao ponto de o estrangular, nem que este e suas emoções tomem a cabeça ao ponto de a anular. 
 
Projeto Olimpus aguarda-vos. Vamos viver histórias, vamos danzar mitos, vamos integrar os deuses, vamos ser heróis. Que é como quem diz, protagonistas das nossas próprias vidas.
Muito e muito obrigada.
Um beijo especial ao Nuno, pela confiança, a parceria incrível, o caminho que estamos a trilhar juntos.
 
De mãos dadas convosco, seus lindos.

Tristão e Isolda – A alma*

18/01/2019

Para Jung, a alma não é uma figura de estilo, é uma realidade psicológica, um órgão da psique que vive no nosso inconsciente, mas que afeta profundamente as nossas vidas. A nossa alma é a parte do inconsciente que está fora do ego, da vista, mas que medeia o inconsciente em relação ao ego. É recetor e transmissor. É o órgão que recebe as imagens do inconsciente e as transmite para o ego consciente. 

A alma manifesta-se a si mesma, e ao inconsciente, através de símbolos:

As imagens que circulam no inconsciente na forma de sonhos, visões, fantasias e todas as formas de imaginação. Perdemos o nosso senso de alma porque perdemos o respeito pelos símbolos.

A mente moderna está treinada para achar que os símbolos são ilusão.

Dizemos: “é só produto da imaginação”, não percebendo que todas as partes que nos faltam e pelas quais ansiamos há tanto tempo, a estrada perdida para o paraíso, vêm constantemente ao nosso encontro através da linguagem esquecida da alma: os símbolos e imagens que emanam dos sonhos e da imaginação.

Para os homens, o símbolo da alma é a imagem da mulher.

Se um homem tem consciência disso e sabe quando está a usar a imagem da mulher como símbolo da sua própria alma, pode aprender a relacionar-se com essa imagem e a viver a sua alma internamente. Quando perceber que essa imagem lhe pertence, deu o primeiro passo na direção da consciência no amor romântico.

*Robert A. Johnson, in: We (tradução minha)

Um mito, uma danza: Tristão e Isolda, 18 de janeiro, inscrição obrigatória por mail: biodanzanunopinto@gmail.com

Tristão e Isolda – Masculino e Feminino*

18/01/2019

O princípio feminino num homem é acima de tudo um princípio de relação; mas a anima transfere um homem para um tipo especial de relação: personifica a capacidade de um homem de se relacionar com o seu eu interno, o domínio interno da sua própria psique e do inconsciente. Curiosamente, afasta-o da relação humana, tal como afasta Tristão da sua lealdade humana para com o seu tio, do seu sentido de dever e de obrigação.

Num determinado nível da nossa evolução, a nossa relação com a nossa alma, e com o nosso mundo humano e pessoal, encontram-se num conflito mortal.

Conflito este conflito que é o ponto crucial da consciência. 

As mulheres têm uma estrutura psicológica equivalente, à qual Jung chamou Animus.

O Animus é a alma nas mulheres, tal como a anima é a alma num homem.

O animus personifica-se comumente como a força masculina e aparece nos sonhos das mulheres como figura masculina. As mulheres relacionam-se com o seu animus de forma diferente da que os homens se relacionam com a sua anima, mas há uma coisa que homens e mulheres têm em comum: o amor romântico consiste sempre na projeção da imagem da alma. Quando uma mulher se apaixona, é o seu animus que vê projetado no homem mortal à sua frente. Quando um homem bebe a poção do amor, é a sua anima, a sua alma, que vê sobreposta numa mulher.

*Robert A. Johnson, in: We (tradução minha)

Um mito, uma danza: Tristão e Isolda, 18 de janeiro, inscrição obrigatória por mail: biodanzanunopinto@gmail.com

Tristão e Isolda – o amor romântico e a espiritualidade*

18/01/2019

O amor romântico tem estado sempre indissociavelmente ligado à aspiração espiritual. É tão óbvio que parece desnecessário dizê-lo. Ainda assim, todos nós desviamos o olhar e perdemos o óbvio.

É uma verdade demasiado próxima para que a consigamos ver.

Apenas precisamos de olhar para as histórias de amor, a poesia, as músicas que vêm do Romantismo, e percebemos que o homem apaixonado fez da mulher um símbolo de algo universal, algo íntimo, eterno e transcendente. O que ele vê na mulher fá-lo sentir que finalmente se percebeu, que vê todo o sentido da vida. Vê uma realidade especial revelada nela, sente-se completo, enobrecido, aperfeiçoado, espiritualizado, elevado, transformado num homem novo, melhor, completo.

Os grandes poetas românticos não o escondem, proclamam-no.

Os trovadores e os cavaleiros de Tristão proclamaram-no abertamente. Ao contrário de nós, que nos achamos tão sofisticados, eles tinham plena consciência do que procuravam no amor romântico. Optaram por deixar de ver a mulher como mulher e em vez disso fizeram dela um símbolo do eterno feminino, da alma, do amor divino, da nobreza espiritual, da completude.

*Robert A. Johnson, in: We (tradução minha)

Um mito, uma danza: Tristão e Isolda, 18 de janeiro, inscrição obrigatória por mail: biodanzanunopinto@gmail.com

Tristão e Isolda – o Amor Romântico enquanto força psicológica*

17/01/2019

O amor romântico tenta experienciar o “mundo exterior” (…) faz-nos sentir inteiros psicologicamente, preenchidos na totalidade e em contacto com o sentido da vida.

É um sistema de energia que surge do das profundezas do inconsciente, desconhecido e inexplorado, das partes de nós que não vemos, não entendemos e impossíveis de ser reduzidas ao senso comum. 

Apodera-se da nossa vontade, toma-nos a cabeça, vira as nossas vidas ao contrário, reorganiza a nossa lealdade. É esta qualidade de estar fora de controlo que o amor romântico tem que nos dá a pista mais profunda para a sua verdadeira natureza.

Por isso, o ego masculino ocidental tem tanta dificuldade em lidar com o amor romântico. Por estar, por definição, fora do controlo.

Está fora do controlo porque secreta e inconscientemente é o que queremos dele, que seja extasiante.

Enquanto força psicológica, é o veículo pelo qual algo nos é devolvido, algo que foi atirado para fora da nossa cultura e das nossas vidas há muito tempo. A natureza humana tem recursos. Arranjamos maneira, mesmo inconscientemente, de nos agarrar ao que precisamos.

*Robert A. Johnson, in: We (tradução minha)

Um mito, uma danza: Tristão e Isolda, 18 de janeiro, inscrição obrigatória por mail: biodanzanunopinto@gmail.com

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