Fantasia

21/09/2018

Uma das atividades preferidas de um introvertido é a incrível capacidade que tem de sonhar acordado. Somos capazes de passar horas nisto… A fantasia é, assim, quase uma realidade para nós. Mesmo sabendo que não somos caso único, a imaginação de um introvertido, principalmente um INFP*, é suficiente para viver uma vida inteira quase sem nos mexermos.

O bom da fantasia é ser perfeita 

O cenário é por nós construído e por isso sem falhas. Talvez imaginemos uma discussãozinha ou outra, para dar um certo frisson. Mas tudo não passa, no fundo, de uma boa desculpa para um make up sex extraordinário, íntimo, dedicado, explosivo. De uma forma de nos tornarmos mais nós e, claro, mais incríveis…

A fantasia, no fundo, protege-nos de viver. Esconde-nos do mundo, evita que nos exponhamos. Nos revelemos perante o outro e, por inerência, nós mesmos.

O problema é quando a fantasia nos conduz para o lado oposto.

E se transforma em medo, pavor, levando-nos para o conhecido vórtice. A espiral recessiva que nos suga para o abismo e só pára quando nos paralisa.

Ou, pior, quando enceta diálogos insanos e contraproducentes, que não nos levam a lugar algum a não ser à inação. Nos casos mais graves, à agressão.

O que acontece sempre que duas forças opostas se digladiam na nossa cabeça, a que precisa de fazer alguma coisa e a que tem medo que tudo corra mal. E, por isso, já parte para a agressão antes mesmo de saber se é preciso… Não necessariamente agressão física, mas muitas vezes verbal. Normalmente, sem motivo algum, apenas para esconder o facto de nos sentirmos culpados por alguma coisa, nomeadamente, por não sermos perfeitos.

E nos recusarmos a lidar com isso.

A confusão de vozes pode ser tal que nos deixa completamente cegos para o exterior. Nomeadamente para o facto de sequer haver motivos para tal. Pois, na grande maioria das vezes, esses motivos são criados por nós, por nossa iniciativa, e espoletam no outro a reação pela qual esperávamos, dando-nos assim razão.

Eu sabia…

A única forma de sairmos da prisão que é a nossa cabeça é partilharmo-nos com alguém em quem confiamos quase cegamente. Que não nos irá trair, expor, usar as nossas vulnerabilidades contra nós. Até que aprendamos que não estamos sós. E que as nossas vulnerabilidades não são maiores nem menores do que as dos outros. Que ninguém é perfeito, que o que há é gente sem noção e com uma persona gigante que esconde vulnerabilidades imensas.

A grande vantagem de nos partilharmos é podermos ver-nos e à situação que nos atormenta com outros olhos, de outra perspetiva, mais racional, porque mais emocionalmente distante do problema. Muitas vezes com olhos de adulto… E, com isso, nos libertarmos da culpa, do medo, do que quer que seja que esteja a alimentar o monstro persecutório que mora na nossa cabeça, silenciando-o mais uma vez…

*Se quiser saber o seu tipo psicológico, escreva para: contacto@isabelduartesoares.com

Calçola

19/09/2018

Rendi-me às evidências e comprei uma dúzia do que os brasileiros chamariam calçola… E a que eu chamo: boxers de mulher. Parece que o nome oficial no site de uma loja de lingerie é culotte… 

O Brasil contribuiu em muito para que fizesse as pazes com o meu corpo e o aceitasse tal como é. Por isso, adotei o estilo local, calções curtos, partes de baixo reduzidas, mas não muito, ainda me resta alguma noção, e segui feliz.

No Rio, chegaram a dizer a uma amiga: biquini de coroa não tem não…

Quando cheguei, achava, naturalmente, os biquinis enormes. Como diria o meu irmão mais velho, autênticas barracas de praia. O mesmo aconteceu com tudo o resto que envolve a cobertura das partes pudendas da cidadã de bem.

O problema era marcarem-me os vestidos e as leggings quando ia dançar. Era inestético e impedia a circulação.

E, na praia, indiferente ao tempo e às carnes que me abundam, felizmente, mulher sem curvas é mulher aprisionada, decidi optar por uma coisinha mais reduzida, que me bronzeasse o mais possível, para disfarçar as imperfeições de um corpo que outrora haveria feito os delírios de pintores e poetas.

Está aí Afrodite que não me deixa mentir: barriguinha e coxão.

Fiz o mesmo em relação ao resto, adquirindo uma quantidade razoável dessas que se enfiam onde não devem, num desconforto insano. Quatro anos de tortura auto-infligida…

No outro dia, dei o grito do Ipiranga.

Dirigi-me ao sítio do costume e mandei ver. E descobri-me feliz com o que faz do meu rabo um monumento. Ao mesmo tempo que parece que não tenho nada vestido. Sem precisar o tempo todo de ter de me ajustar a uma coisa que não me cabe. Mais ou menos como tentar enfiar o Rossio na Betesga…

A revolução é feminina, como diz a minha poeta preferida.

Se houve um tempo em que a revolução se fez pela retirada de sutiãs, a da nova era pode bem começar por aí.

E a minha já começou. Pela calçola. Sem amarras nem prisões. E com rendinha no topo da cintura descida, sexy as f*ck…

De gola alta não dá não….

Para ajudar, no outro dia vi uma série que só tem uma temporada – se as séries de que gosto não podiam ser como a Anatomia de Grey que tem 700 temporadas de 30 episódios cada – em que o marido de uma Atena típica dizia que queria ver a mulher de calçola e t-shirt a limpar uma mesa, porque tal visão lhe dava tesão…

Fiz um verso sem querer, só pode ser bom sinal…

Os livros são para rodar

18/09/2018

Exceção feita aos livros de psicologia, de literatura que é de facto literatura, e dicionários, os livros são para rodar. Principalmente se não vamos lê-los mais do que uma vez. Consultar depois. Ou mesmo se não vamos lê-los de todo. Acontece muito.

Bem sei que ficam lindos nas estantes, dão-nos um ar culto, intelectual, inteligente e respeitável. livros

E ainda assim…

Um destes dias, amiga de visita de SP, perguntava-me o que achava da Isabel Stilwell. Se já tinha lido os romances históricos. Respondi-lhe imediatamente que o meu pai, nos últimos anos, tinha lido alguns. Que os havia lá em casa e que ia trazer-lhe um para ela ver se gostava. Com o Real a 5 para 1, ainda que com uma mala quase vazia para poder comprar livros, achei que podia poupá-la a esse gasto. Dificilmente alguém lhes pegaria lá em casa e eu teria o maior gosto que dois dos livros do meu pai ficassem com alguém que lhes desse o devido valor. Mais por serem dele e deles ter gostado, do que propriamente pelo conteúdo.

A minha mãe ainda me perguntou: mas ela vai devolvê-los, não vai?

Disse que não. Que queria dar-lhos. E a minha mãe não se manifestou, perante o meu ar decidido.

Por isso, foi no meio da maior comoção dela, que lhos entreguei em mão, na esperança que se divirta, goste, e lhe enfeitem as estantes, quem sabe ao pé da Divina Comédia, do Dante, que granjeou um prémio de tradução ao tão saudoso Vasco Graça Moura. E que me garante que ela entende do negócio.

Quem compra a Divina Comédia sabe da poda.

Talvez fique um bocado triste se alguma vez encontrar os meus por aí… Significa que não foram suficientemente cativantes para que os retivessem. Mas penso melhor e acho que, quanto mais gente os ler, melhor. E se essa é a forma de chegarem mais longe, pois que rodem. Por quem lhes dê o devido valor.

Dificilmente me apego a coisas, o desapego é libertador. Abre espaço para o novo, mas, acima de tudo, para o que fará mais sentido na fase presente. O apego ao passado não passa de mera ilusão.

Bom ouvido

15/09/2018

Serve este interlúdio para um bom e velho auto-elogio.

A prova de que tenho bom ouvido: desde que o giraço me apresentou a Lianne la Havas, na sua versão de Little Prayer, que não ouço outra coisa.

Num dia desses, mandei-lhe um whats.

A dizer que, musicalmente, havia uma música dela que fazia lembrar imenso Tom Misch.

Acabo de descubrir que o remix é dele

As deusas e eu

06/09/2018

A primeira vez que preenchi o questionário sobre as deusas gregas, há uns oito anos, lembro-me que o resultado foi igual, ou seja, que os meus dois arquétipos preferenciais são Artémis, destacadíssima, e Perséfone.

Basicamente, mantém-se tudo. 

Variam as percentagens. Tenho muito mais de Afrodite hoje do que tinha há 8 anos. As duas deusas com quem menos me identifico também se mantêm: Deméter e Hera, pela mesma ordem. Apesar de as percentagens estarem um bocadinho acima. (Há 8 anos, tinha 7 de Deméter e 2 de Hera…) O que quer dizer que, psicologicamente, as características que correspondem a estas duas deusas estão mais integradas na minha consciência.

Um bocadinho, pelo menos…

Não me incomoda a manifesta diferença entre Artémis e todas as outras. Sempre foi o arquétipo com o qual mais e melhor me identifiquei. Muito menos me surpreende que os dois arquétipos que representam a juventude, Artémis e Perséfone, sejam os mais presentes em mim.

Síndroma Peter Pan never ends

Gosto do equilíbrio entre Atena e Afrodite. E mais ainda que Afrodite ganhe por dois a Atena. O que quer dizer que a minha predisposição para os relacionamentos, para o amor, para a vida vivida, é maior do que era. E que os livros, ainda que ocupem sempre um lugar cimeiro na minha vida, estão a ser preteridos em relação à experiência. Revelando uma apetência maior para a vivência da experiência do que para a fantasia.

De resto, nem tudo está perdido.

Há uma forma de equilibrar a presença dos arquétipos na nossa consciência. Pelo método associativo trazido para a psicologia por Carl Jung. O que pode revelar o que nos está a bloquear em relação àquele arquétipo e cujas características não estamos a desenvolver por as considerarmos “más”, desapropriadas, defeitos.

Não condizentes com a ideia que temos de nós.

Este questionário apenas peca por não incluir um dos arquétipos de que mais gosto, Héstia, por ser uma deusa pouco falada e quase nunca lembrada. Era a mais velha de seis irmãos e é caseira, na dela, introvertida e virgem. No sentido em que não precisa de um relacionamento, de um homem, para se sentir completa.

De resto, é um guia excelente de autoconhecimento e de esclarecimento de questões internas.

Se quiser saber quais os arquétipos mais e menos presentes em si, escreva-me para: contacto@isabelduartesoares.com

Setembro

05/09/2018

Ainda sou do tempo em que as aulas começavam em outubro. Por isso, setembro nunca me disse grande coisa. É um mês que nem é carne nem é peixe, é verão, mas também é outono, mais ou menos. Os dias são visivelmente mais pequenos, o que me deprime sempre imenso. Normalmente nem dou por ele, por me parecer menor do que os outros, apesar de ter os mesmos 30 dias. 

O tempo de estudante já lá vai há muito.

A última vez que o fiz, com calendários, aulas e obrigações, foi em São Paulo, onde o ano começa quando deve começar, em janeiro. E nem o magnífico texto do Joel me convenceu. Independentemente de o achar belíssimo e de me dar vontade de gostar de setembro só por causa dele.

Essa coisa da rentrée foi inventada pela comunicação social para justificar a silly season, as férias do pessoal. E aproveitar para mumificar o espectador mais um bocadinho.

Os meus recomeços são em janeiro.

Em outubro, na verdade, que é quando completo mais um ano de vida. Janeiro serve para renovar a esperança. Que cai logo por terra de tão comprido e frio é esse mês.

Mas agora que pratico uma atividade que se guia pelo ano letivo, mas com muito menos férias, graças a deus, acabo de descobrir uma forma de amar setembro.

Ontem, voltei às aulas de grupo regular de aprofundamento de Biodanza.

Apesar de ter um sentido de humor imenso e de ser engraçada, o que acontece de forma natural com as pessoas espontâneas e expressivas, sou uma pessoa séria. Não tenho a menor paciência para palhaçadas, brincadeiras, perdas de tempo.

Não vim a este mundo a passeio, já disse.

Também me faz impressão a dispersão, a ausência de foco. E desde que descobri o que vim aqui fazer, não perco muito tempo com o que ou quem não me acrescenta. É tempo que me falta para fazer o que realmente me faz sentido, me fala à alma, me descansa, me nutre, me alimenta, a todos os níveis.

Por tudo isso, e muito mais, não aguentava de saudades das minhas aulas de terça-feira. Um grupo pequeno, como eu gosto, comprometido, disponível. Com o melhor dos mestres. Que ontem nos conduziu, com a mestria de que só ele é capaz, por uma viagem pela sombra, em que me senti total como nunca antes havia experienciado. Estava toda, inteira, ali, com a plena consciência do meu corpo, das minhas emoções, dos meus pensamentos, era uma só, uma sensação que quase me tirou o fôlego.

Para, logo de seguida, me sentir e ver como uma fénix.

Foi indescritível, quase saí a bater as asas pela sala fora.

Todas as sensações são absolutamente nossas, apenas induzidas pela música e as consignas, a introdução verbal que é feita antes de cada dança.

Não poderia ter começado da melhor forma. Uma viagem ao numinoso, que passa necessariamente pelo contacto com a sombra. A prometer muito, num ano em que me proponho consumar, em vez de consumir.

Como é bom voltar a respirar…

Obrigada, Nuno, és o rei disto tudo.

Validação

31/08/2018

Procuramos validação externa, quando o que deveríamos fazer, para ter a certeza de que a decisão que tomamos é a mais acertada de acordo com a nossa personalidade e o que queremos para nós, é olhar para dentro.

Não descuro a importância dos mestres, dos sábios que vamos encontrando pelo caminho. E que são fundamentais para que assumamos com convicção as nossas valências. Os sábios, os mentores – pessoas em quem confiamos plenamente, com provas dadas nas suas áreas de expertise – refletem a projeção do nosso Self (Jung). validação

O nosso eu divino, total, o nosso Master eu, como gosto de lhe chamar.

Por isso, no mundo patriarcal e racional em que vivemos, é importante ir além do que sentimos.

E, quando somos reconhecidos pelos mestres, os sábios, a sua validação funciona como uma confirmação externa do nosso valor. De que o que sentimos não é coisa da nossa cabeça. Por ser vista por outro que não nós, sem manipulação ou qualquer intenção de obter vantagem.

No entanto, mesmo para as pessoas do tipo pensamento, muitas das suas decisões, ainda que baseadas na lógica, têm por base uma raiz emocional.

Tudo é emoção

A diferença dos tipo pensamento para os tipo sentimento é que estes últimos têm consciência da raiz emocional de todas as suas decisões. Encontram maior conforto interno se as basearem na forma como se sentem em relação a um tema ou situação.

Ainda assim, e muito por conta da nossa raiz grega, isto é, racional, e das exigências do coletivo ocidental, é frequente, mesmo para os tipo sentimento, que uma decisão baseada no que sentimos não seja suficiente para convencer o resto do mundo a aceitá-la.

Quem diz o resto do mundo diz, obviamente, o pessoal que mora na nossa cabeça.

Daí que a única forma de validarmos uma decisão, uma escolha, é verificar se se encaixa nos nossos três centros de decisão: pensamento, mental, emoção, coração, e instinto, corpo, aquela coisa não provável ou verificável, mas que, muitas vezes, tem mais poder do que o pensamento e a emoção juntas.

É a única forma de não ficarmos à mercê do julgamento alheio

E de não nos deixarmos iludir pela vontade. Que tem o poder de nos impedir de ver uma série de coisas. Ficando-se apenas pelo que acolhe uma decisão já tomada emocionalmente.

Por outro lado, é muito engraçado como tentamos convencer-nos tantas vezes de que uma relação com determinada pessoa é possível. Mesmo que as campainhas de alarme na nossa cabeça não parem de tocar. Argumentamos com o resto do pessoal que mora na nossa cabeça melhor do que um advogado americano de topo.

De resto, dependendo no nosso nível de ligação emocional a determinado tema, é interessante verificar, numa situação de tensão, para que lado pendemos. O patriarcal, masculino, racional, rigoroso, que quer proibir, impor regras, fazer cumprir leis à risca… O matriarcal, feminino, emocional, mais benevolente, voltado para o prazer, mais compassivo, empático, sensível.

Mesmo para os tipo sentimento, o patriarcal tem influência e muita na forma como reagimos a algo que nos perturba. Se bem que a decisão final seja quase sempre feminina, emocional, baseada na forma como o resultado final nos faz sentir.

Conheça o seu tipo psicológico, saiba mais.

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