Zerar

17/08/2017

Haveria de ser possível zerar. Fazer de cada etapa tábua rasa para começar de cabeça limpa. zerar

Não se trataria de apagar memórias, como no filme do Jim Carrey e da Kate Winslet, mas de zerar o cérebro no sentido em que essas memórias seriam apenas memórias, factos, sem emoções que condicionassem as etapas e as pessoas seguintes.

Para que pudéssemos ficar ou partir para uma atividade, um relacionamento, uma viagem, um projeto sem condicionantes, pré-avisos, estojos de primeiros socorros, ligaduras ou compressas. Pensos para bolhas, remédios para o fígado, efervescentes para o estômago. Sequer aspirinas.

Escudos, adagas, armaduras ou capacetes.

Para que uma demora fosse apenas uma circunstância, um impedimento, e não um plano maquiavélico de tortura. Para que um: “não posso” fosse apenas um não posso. E não uma rejeição, um abandono, uma fuga, uma cobardia. Para que um elogio fosse apenas um elogio, e não uma forma subtil e manipulatória de obter qualquer coisa que não daríamos de bom grado e de forma genuína. Sem desconfiança, segundas intenções, tentativa e erro, reflexo de Pavlov, condicionamento, precaução, medo, proteção.

Pára-arranca, avança, recua.

Para que seja apenas o que é e não uma projeção do que queríamos ou temíamos que fosse. Para que pudéssemos acreditar sem temer, ir sem tropeçar ou cair. Agir e falar da cabeça e do coração e não do medo, sem o travão do risco de ficar mal na foto.

Para que pudéssemos ser nós, cada um com o seu cada um e que os cada uns de cada um a si pertencessem em exclusivo, para que conseguíssemos lidar com eles com algum distanciamento, frieza, até. De modo a que não nos tolhessem para que a única reação adequada seja possível, um abraço que tudo contenha.

Haveria de ser possível zerar. E querermos ver-nos sem binóculos…

Terapia

09/08/2017

Eu, que há dois anos não chegava perto de um forno; que apregoava para quem quisesse ouvir que uma das melhores invenções do mundo tinha sido a comida congelada; que dizia alto e bom som que a evolução das espécies passava decididamente pela possibilidade de comprar comida feita. Que ia buscá-la ao tasco.

Que um dia percebi que não havia amor

E perguntei-me o que raio andava a usar de combustível para viver. Em que mãos imundas e infectas andava eu a pôr a minha nutrição, a minha vida, basicamente.

Vi a luz. E não quero outra coisa. Comida feita por mim, nada processado, o mais orgânico possível, como deve ser. Sem fundamentalismos.

Não apanhei os morangos nem as framboesas mas fiz tudo de raiz, compota inclusive.
Artist’s Date 219/365 – Pick Strawberries (Hoje)

Nem um grãozinho de açúcar sequer. Gluten Free, obviamente.

Artist’s Date 220/365 – Decorate a cake (amanhã)

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