Deixar de ser afirmativa é o próximo passo

26/08/2016

Lembro-me de levar uma quase rabecada tua quando te disse que estava a devorar o primo Basílio. Disseste-me que Eça era para se ler sem pressa, apreciando cada palavra, cada construção frásica. Não desta forma, de uma maneira quase tão literária quanto a dele, uma mensagem que lamento profundamente não ter guardado. Foi há mais de dez anos, a minha impulsividade estava no auge, a vontade de saber o que ia acontecer, o que eu queria era chegar ao clímax da história, acordava o monstro voraz que há em mim, era mais forte do que eu.

Um destes dias, falavam-me de uma escritora italiana que anda aí na berra. Tive a audácia de dizer que havia pegado num dos livros, folheado e posto de volta no escaparate, pejado de outros exemplares da mesma autora, nas novidades, um chamariz de fazer inveja. E nem foi por estar na moda e eu ser avessa a tal, mas por ter lido três frases e não me ter cativado. Já lá vai o tempo em que precisava de chegar ao fim das coisas, de sofrer, para saber que não valia a pena. Acho que estou cada vez mais parecida contigo nesse aspeto. Uma das presentes tratou de me avisar que uma professora de literatura estava a gostar o que, imagino, seria suficiente para garantir a qualidade. Poupei-a a teorias psicológicas várias sobre os motivos que nos levam a gostar de alguma coisa, a ficar viciada nela, ou fixada, e nem sequer dei continuidade à conversa. Já lá vai o tempo em que me preocupava em me defender a toda a hora, em salvar a face, em garantir que era inteligente. Muito menos a informei sobre o que para mim seria um bom livro.

Não sei se é da idade, se de eu própria me dedicar à nobre arte da literatura, e me empenhar em cada vírgula que não sei usar, em cada substantivo que prefiro, no lugar de um qualquer advérbio, já para não falar na parcimónia com que pretendo usar adjetivos e na tentativa inglória de evitar repetições, sem prejuízo da fluidez, do ritmo, da poesia. Do meu próprio esforço, portanto. Se é da paixão pelo métier, pela beleza de uma boa prosa, pelo efeito que produz em mim. Mas gosto cada vez mais da sensação de maravilhamento, é quase só isso que procuro num livro, e, ainda que continue uma leitora voraz e com uma personalidade mais impulsiva do que seria de esperar de alguém de quase provecta idade, um livro que não seja menos que brilhante na costura das palavras, por melhor que seja o enredo ou o conteúdo, não me conquista, não me agarra, não me fará perder o meu tempo, muito menos o sono.

É pelo próprio tempo que escasseia, as distrações que são mais que muitas. Não por capricho, admiração, reconhecimento, sequer neurose, mas por amor à arte, por reverência à palavra e ao seu poder. Há poucas coisas que me deixam mais rendida do que a sensação de deslumbramento perante um conteúdo profundo e poético, escrito de forma acessível e clara. Consegue inclusive o milagre de me fazer desacelerar e de me travar, falta-me a palavra em português para descrever esse estádio. E um livro não menos que bem escrito é uma tristeza, uma desilusão, um desapontamento, quase uma traição.

Nem o tempo em que me mantive afastada da ficção, por conta de outros interesses, e foi algum, me adulterou o crivo, pelo contrário, parece que o apurou. Habituei-me a ler boa literatura, bem traduzida, verdadeiras obras-primas das palavras. A idade só afinou o gosto. Talvez esteja na hora de ler o único Hermann Hesse que me falta.

A saudade, essa puta.

24/08/2016

A saudade é uma puta que te apanha desprevenido e, sorrateira, aproveita todas as brechas. Entra-te pela cabeça e esconde-se nos recantos mais escuros para te surpreender quando menos esperas. A saudade é uma puta, que te consola e te ilude, te machuca e te fere, quase te mata. Te faz rir às gargalhadas e chorar às convulsões. A saudade é uma puta que ali fica, a olhar para ti, certa de que te venceu, de que vais render-te, pedir misericórdia, perdão. A saudade é uma puta, que te atira para o chão, te deixa estendido, prostrado, inerte, letárgico. A saudade é um direto nos queixos, um entorpecente muscular, um pontapé nos rins, um mace nos olhos. A saudade é matreira, cobarde, desigual. A guerra contra a saudade é uma batalha perdida, a saudade ganha sempre, essa puta. A saudade é um zumbido no ouvido, uma moinha abdominal, uma pontada nas costas, uma falha nas juntas, um ardor na pele. A saudade é uma janela que chia, o vento que faz bater as portas, o cão que ladra sem parar, o incauto que desata a martelar ao domingo, a britadeira das obras do andar de cima. É o alarme do carro do vizinho a rasgar a madrugada, assim que, finalmente, conseguiste adormecer. A saudade é a mosca na tua sopa, é o jingle que não te sai da cabeça, é a roupa que te aperta. A saudade é o teu bolo preferido a sorrir para ti na montra da pastelaria. A saudade é o filme que queres ver e não podes, o livro de que te esqueceste em casa, num dia de esperas várias. A saudade é o que não podes ter, ver, tocar, sentir, cheirar. A saudade é inatingível, é a presença de uma ausência. A saudade é uma puta, que te aconchega sem te tocar. A saudade é o desejo insatisfeito, o quase, o aquém, a ânsia pelo que nunca vem. A saudade é o quarto lugar. A saudade é uma puta, que te arrasta pela lama, num dia de chuva. A saudade é o verão no inverno e o inverno no verão. A saudade é a valorização do que não tens. É o abraço que não aconchega, o beijo que não se sente, as notícias que não vêm, o amor que não se concretiza, o afeto que não acolhe. É a ausência de uma mão num corpo frio. A saudade é uma puta, amarga, insatisfeita, cínica, sádica, dura, impenetrável, irredutível, fatal. É isso que ela é, essa puta.

Case Closed

22/08/2016

Talvez já o tenha dito, o terceiro, nem sei se este não será o quarto, sai sempre mais repetitivo do que os anteriores, talvez nunca seja demais reforçar. O piorzinho do foco na neurose não é nem a chatice em que tornamos a própria vida, a infelicidade e a frustração permanentes, a tristeza que daí advém. O pior é ficar a pensar em vez de fechar os olhos, cerrar os punhos e os dentes e ir, com tudo, o que temos e não temos, honestamente. É não dar oportunidade de perceber se temos ou não capacidade para lidar com o que for, para impor os limites necessários, para ver se é mesmo assim. É tentar ir descerrando os punhos e os dentes à medida que podemos, conseguimos, nos permitimos. É a pressão, o atrofiar do cérebro e do coração.

É a martirização, a fustigação, o cilício mental. É o quanto isso nos condiciona, nos cega para tudo o resto, inclusive para a possibilidade de nos vermos de outro ângulo, de outra perspetiva. É a ferida se tornar verdade absoluta, deus nos livre. É a falta de abertura para a vida que sobra, que está à nossa espera, do lado de fora da janela. É a ausência de liberdade para ir mais além, da origem, inclusive.

Ficar na ferida é permanecer na condição de vítima, é deixar que te controle, dite quem és, é ter a leviandade de achar que conseguimos curá-la, quando o objetivo é viver apesar dela, com ela, deixando que exista, aceitando-a como parte de quem somos, sem que necessariamente nos defina. É ir além. Usando-a para conquistar, em vez de nos servirmos dela para nos encostarmos. Até que não mais nos faça falta, possamos seguir em frente, no amor, e não na raiva, na frustração, na vergonha, no medo.

O simbolismo de todas as coisas

21/08/2016

Gosto da ideia de dar um prazo de validade à neurose, à projeção, para ser mais exata.

Um dia destes, lamentava ter de me despedir da canga, aqui chama-se páreo, escreve-se assim mas diz-se paréo, vai saber de onde vem tal nome, que tinha trazido da Amazónia, por ter um rasgão no meio e já não me ser de grande serventia. Para os incautos, é apenas um bocado de pano, não para mim. Além de ser diferente dos demais, é amazonense. Pode ter sido feito noutro lugar, se calhar foi, por um baiano ou um gaúcho, mas foi na Amazónia que o comprei. Não acontece com tudo, apenas com algumas coisas de que gosto mais. E na grande maioria das vezes, tem pouco a ver com a materialidade da coisa, e mais com o que a mesma representa, simboliza.

amazonia

Cada coisa tem atrelada a si o símbolo de quem somos no momento, o que projetamos no objeto e assumimos para nós.

Às vezes, acontece achar uma boa ideia comprar isto ou aquilo e depois nunca usar e me perguntar o que raio tinha na cabeça quando comprei. Talvez tenha visto noutra pessoa, achado que lhe ficava bem, o objeto representar um ideal qualquer, ou apenas uma projeção, ver naquele objeto, naquela pessoa, o símbolo, ou a afirmação, de qualquer coisa que tenho em mim e ainda não sei, e adquirir, no impulso. Ou por simbolizar uma parte de quem já fui e agora não preciso mais de ser, ou de a expressar publicamente. E nem me ter apercebido de que não me identifico mais com aquele tipo de coisa.

Na grande maioria das vezes, descarto com facilidade, outras não. Quando acontece, já as coisas estão a desfazer-se e eu insisto em permanecer agarrada a elas, como se temesse perder o símbolo em mim que aquele objeto representa. Como se o que fosse nosso alguma vez nos pudesse fugir, como se pudéssemos algum dia escapar do que é nosso. É como se os objetos ditassem que está na hora de pararmos de nos agarrar a tal símbolo, conquista, como se não fosse nosso e concentrássemos toda a nossa força para com ele permanecer. Por já se ter firmado na consciência e de lá não voltar a sair, por já não ser preciso, por estar devidamente integrado, por novos desafios psíquicos estarem à nossa espera ao virar da esquina.

Dou dois anos para resolver a maioria das coisas da cabeça. Para conhecer profundamente alguém, pelo menos até à parte em que dá para decidir ficar ou partir. Para libertar, deixar ir, ou agarrar, com convicção, não como quem depende.

Dois anos depois de ter chegado do Brasil, a minha canga da Amazónia rasga-se, abandono um biquíni inteiro e uma parte de baixo, um vestido que adorava e me fez muito feliz e umas havaianas de médio salto que quase nunca usei, em Cabo Verde. Os biquínis porque estavam velhos, o vestido por não me servir e as havaianas porque me apeteceu deixá-las para alguém que lhes dê mais uso, estavam quase novas.

O simbolismo de cada coisa guardo para mim, a neurose e a projeção que representam idem, fico apenas com a curiosidade em relação ao que virá depois. Também isso é novidade, na grande maioria do tempo, tenho é cagaço em relação a quem virá para o leme da consciência. Não agora, não mais, não desta vez, pelo menos. O que quer dizer que me sinto suficientemente segura para aguentar o que vier e, em princípio, que a neurose de controlo faz cada vez mais parte de outros tempos. Não sei se será a maior, mas é certamente uma das mais saudáveis conquistas.

Os Jogos sem ti

16/08/2016

Ainda me ocorre perguntar porque é que os barreiristas não varrem as barreiras na corrida dos 110m, nunca chegaste a esclarecer-me se eles perdem pontos ou se o que importa mesmo é chegar em primeiro. Já não há falsas partidas, porque o atleta é automaticamente desclassificado, não sei se nos últimos Jogos era assim, não os vi contigo e por isso não apanhei com 16 horas de Atletismo seguidas. No outro dia, dei por mim com a TV ligada no hipismo, sem som, e ainda assim. Havias de ficar orgulhoso. Como vês, superei o trauma de ter a TV ligada, aos berros, no segundo canal, onde estava sempre a dar hipismo, em dias de calor infernal, no tempo em que os verões eram intermináveis.

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