Precisamos de falar sobre o TOC

15/09/2016

Padeço de uma espécie de TOC que tem a ver com coisas vazias, ou a meio. Em grandes quantidades, de coisas quase vazias. É frequente dar por mim na casa de banho das outras pessoas acometida de uma vontade súbita de deitar frascos quase vazios de coisas várias fora. Ou nas cozinhas, pacotes quase vazios de coisas que já não vão dar para fazer nada a ocupar espaços em armários deixam-me enlouquecida de fornicoques. E a controlar-me como gente grande para não começar a desfazer-me das coisas alheias. Já bem me basta apagar luzes onde não está gente (gesto automático que herdei do meu rico paizinho que até nas divisões da casa onde havia gente ele apagava luzes, nomeadamente na casa de banho…) Eu faço isto, na casa dos outros… Não há educação que resista ao TOC, TOC tem poder.

Como faço parte da geração que foi aterrorizada na infância com a frase matadora: os meninos na Etiópia passam fome e tu aí a levar meia hora para comer meia dúzia de grãos de arroz, não sais da mesa enquanto não comeres tudo o que tens à frente, porque há meninos na Etiópia que passam fome, registei neste cérebro delirante que não haveria lugar a desperdícios na minha vida, e deitar coisas boas fora é como quem me mata. Ou más, já cheias de comunidades fúngicas, por ter comprado quantidades às quais não tenho como dar vazão em tempo útil.toc

A eliminação do glúten da minha vida coincidiu com o meu início na cozinha, o que aconteceu há um ano e meio, isso mesmo, já depois dos 40, nunca é tarde para abraçar a causa da criatividade, meus ricos filhos. Coincidiu também com o lançamento do site de uma amiga, precisamente sobre cozinha saudável, que incluía a eliminação do glúten, porque ela é intolerante. Foi lá que descobri que não precisava de me privar de nada de que gostava, bolos, panquecas, crepes e scones. Vai daí, era uma receita por semana. Comprava os ingredientes e cá vai disto. Havia receitas mais elaboradas do que outras, que exigiam ingredientes específicos que nunca mais voltava a usar, porque era tipo 30g de uma coisa quando os pacotes vêm com 400g. E as farinhas ficavam ali a acumular-se, a ocupar espaço em frascos, que ocupavam espaço em armários, e a dar-me cabo dos nervos.

Uns meses depois, nomeadamente seis, a fúria dos bolos passou-me, muito por ter engordado, apesar de ter parado de consumir glúten. A minha teoria era: para não comer bolos na rua, faço em casa, acabando comigo a comer três fatias de bolo por dia, o que jamais aconteceria se não o tivesse ali à minha frente a rir-se para mim, por acabar e a correr o risco de se estragar, com tantos meninos a passar fome na Etiópia. Vai daí, parei de fazer bolos, panquecas, crepes e tudo o que levasse farinha, exceto scones de aveia, por serem facílimos de fazer e por também não comer pão. Todos os outros restos de farinhas, de pão, inclusive, ali ficaram. Juntamente com quilos de açúcar, que não uso em absolutamente nada. Há um bom bocado de um pacote de polvilho doce que está ali há ano e meio, num frasco de vidro.

No outro dia, comprei tahine para fazer húmus, que acabei por deitar todo fora por não fazer a mínima ideia de como ou com o que o comer. O frasco da tahine ainda ali está, no frigorífico, a meio, e a irritar-me a cada vez que lá vou. Do de doce de morango já consegui livrar-me, é daqueles altos que tem um pouco no fundo ao qual não consigo chegar porque não tenho uma colher suficientemente comprida para o efeito, e comprar uma por causa de um bocado ridículo de doce parece-me um pouco esquizofrénico demais. Até porque comprei outro frasco, desta vez de boca grande, não há de sobrar nem uma gota… Nem que tenha de atulhar esta casa de flocos de aveia. Afinal, frascos para tal não me faltam…

As coisas vão-se consumindo e os frascos vão ficando grandes demais para os conteúdos. Ontem deu-me um ataque e resolvi acabar com as farinhas todas que houvesse. Em vez de aveia, que já não tinha – porque o pacote de flocos de aveia vem aos 400g de cada vez e a receita só leva 250g… – usei-as, de arroz integral, de trigo sarraceno e de coco. Os scones não ficaram nada maus, só me sabem bem com doce de morango, e eu despachei três ou quatro frascos de uma vez, de farinhas, não de doce de morango… Hoje de manhã, ainda mudei o sal para um frasco menor.

Posso sofrer de TOC*, mais ou menos agudo, mas por aquela doença que leva as pessoas a acumular todo o tipo de tralha e a viver atoladas em todo o tipo de lixo, não poderão nunca internar-me.

*Com sinais de notificações, de mensagens, de e-mails por ler também sofro um bocadinho, gosto dos meus ecrãs limpinhos… Quanto às coisas por acabar e quase no fim, podemos também contar com canetas, lápis, cadernos… É uma cena que eu tenho com acabar coisas…

*Imagem dos lápis do meu sobrinho mais velho, que decididamente está longe de sair à tia.

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