A gentileza dos estranhos…

02/11/2019
Para lembrar que podemos sempre contar com a gentileza dos estranhos…
 
Tinha acabado de ler um comentário direto na alma, que me comoveu até aos ossos. E, como tem acontecido amiúde, as lágrimas corriam-me soltas pela cara abaixo.
Aqui ainda não havia acontecido, tinha de ser em público…
 
Nesse momento, estava num bistrô, de costas para a rua e de frente para o espaço. Raro em mim, mas de outra forma ficava muito exposta ao frio. Além de que me dá um certo nervoso ter gente atrás de mim.
Escolho sempre os lugares onde posso encostar-me e observar.

O que parecia o gerente, um charme, por sinal, veio do balcão até mim perguntar se estava tudo bem. Teria certamente reparado que levava de vez em quando a mão à lombar, pois perguntou-me se estava com dores nas costas. Falámos um pouco sobre isso, também ele padece do mesmo mal…

Edimburgo, Escócia, Out. 2019. 

Entretanto, tinha entrado um mocinho que se havia sentado, não na mesa ao lado da minha mas na seguinte. Ganhou logo pontos.
O que eu amo gente com noção de espaço pessoal…
O gerente tira-lhe qualquer coisa da camisola e, perante o olhar meio surpreso do rapaz, disse: a partir do momento em que entram por aquela porta, estão sob os meus cuidados. Ela com as dores nas costas, tu com não sei o quê na camisola. A espontaneidade dele fez-me rir às gargalhadas, talvez um pouco exageradas, mas o suficiente para misturar essas lágrimas com as outras e assim as disfarçar.
 
O rapaz, que por sinal era bem giro, pergunta-me se quero analgésicos.
Perante a minha cara de espanto, esclarece-me: ando com eles porque estou de ressaca. Talvez possas tirar dois. Depois de garantir que não lhe fariam falta, aceitei. E ainda falámos um bom bocado. Perguntou-me se me sentia melhor, respondi que na verdade sim, as dores, que nunca chegam a passar completamente, parecia que tinham desaparecido. Ele distraiu-me, da dor física e de alma, foi o que lhe disse. Ao que ele concordou: sim, temos de distrair a cabeça.
No dia anterior havia sido um segurança de um bar.

Que, não sabendo responder à minha pergunta, indicou-me um velhinho, porteiro de uns bares mais à frente, que era de Eddie e sabia tudo sobre a cidade.

Edimburgo, Escócia, 2019.

 
Velhinho esse de uma gentileza tal que veio comigo até à paragem de autocarro, estava um frio desgraçado e já tinha anoitecido, por isso optei por pedir indicações em vez de tentar descobrir por mim, e, depois de constatarmos que o meu autocarro não passava ali, explicou-me como poderia ir até à Prince St., onde certamente me safaria. Dizendo que era só subir a Victoria St. e virar à esquerda.
Protestei um pouco: a hill?
Ao que me respondeu: come on, you are a fit young lady, you can do it. São 10 minutos de caminhada e demoras menos tempo a chegar. (A alternativa era apanhar um autocarro e depois o meu). E eu fui, com a confiança de que precisava e um sorriso enorme, agradecendo a imensa gentileza.
 
Hoje, domingo, aquele dia estúpido em que não se faz grande coisa, está mais um dia de sol em Edimburgo. E eu saí para caminhar.
Sob outra luz, o mar da Escócia ganha outros tons.

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