A morte

09/01/2019

Desde que o meu pai morreu, perdi o medo de muita coisa, inclusive da morte, o tema mais tabu da sociedade ocidental, juntamente com o do dinheiro. 

É a coisa mais natural do mundo.

Não sou como os antigos, não a cultuo, não me preparo, sequer penso nela e não me apetece morrer já. Mas digo com alguma frequência que não quero ficar aqui muito tempo. Lá para os 70, quero pôr-me a andar para outro mundo.

Odeio a ideia de dar trabalho, e despesa… De ser dependente, de me ver perder capacidades, físicas e acima de tudo psicológicas. Assusta-me muito mais a ideia de velhice do que da morte. De ficar abandonada num sítio qualquer, a perecer sozinha ou na companhia de estranhos. As pessoas nunca se calam e raramente dizem alguma coisa de jeito.

Mas, a cada vez que falo nisto, como a coisa mais natural do mundo, tenho sempre reações disparatadas, que não me permitem continuar o delírio.

Tenho um amigo, exatamente da minha idade, que quase me bate quando abordo o assunto.

Dizia no outro dia que não quereria quimioterapia, por exemplo. Mas também não quero dores. Opto pela morfina. Se é para estar doente, que seja com uma moca gigantesca, a ver se me esqueço.

E se tivesse de escolher, talvez Alzheimer.

Que é mau para quem fica, mas deve ser fixe para quem tem, viver num mundo próprio, só nos delírios mentais e em todo o manancial de memórias armazenadas no cérebro. Poderia dizer tudo o que me passasse pela cabeça…

Haveria de me rir imenso…

E, espero, fazer os outros rir também.

É das coisas que mais me fascina, o misterioso mundo da psique. Que escondemos de tudo e de todos e só numa situação dessas seria possível conhecer.

Aposto que o meu seria cheio de poesia…

Não tenho filhos. A maioria das pessoas, ao fim de uma semana, está de volta às suas vidas. É uma questão de sobrevivência. Por isso, é na boa.

A morte é uma libertação…

No Comments

Leave a Reply

error: Content is protected !!