A psicologia [analítica] e eu

20/03/2017

Cá vamos nós outra vez… Depois do Filipe Nunes Vicente, e de amiga psicóloga que, depois de ler o Eu e o S. Freud, me disse que sonhava com pacientes assim, foi o meu mestre de dança: tu que és psicóloga… Neguei prontamente. Explicando que não estava para ser acusada de me afirmar como algo que não sou. Tão simplesmente porque não sou licenciada em psicologia.

No dia em que fez um ano que o meu pai se foi embora para sempre, havia sido a mulher de um colega dele, psicóloga, a chamar-me: cara colega. Sabendo, ao contrário do meu querido mestre de dança, que eu não era licenciada na área.

psicologia

Na semana passada, um amigo do meu pai estava impressionadíssimo como eu tinha acertado o motivo pelo qual uma conhecida dele que morava em Londres não mais se imaginava a morar aqui. Conhecida essa que, provavelmente, apenas intui, não tem disso consciência. Acontece-me com frequência, desde sempre.

Sou boa nisso, sempre fui. Até mesmo antes de sequer saber da existência de Jung. Com a Psicologia, só aprimorei o que já era meu. Uma intuição fortíssima que se direciona para esta área. Talvez por ser das coisas que mais me fascina e desperta a curiosidade nesta vida: a cabeça das pessoas, como funciona, o porquê deste comportamento, daquela escolha, daquela vida.

Achava que era por causa da minha conversa, por explicar muita coisa com a psicologia. É mais forte do que eu, quando dou por mim, já foi. Quero fazê-lo o mínimo possível, pelo menos em conversas informais, embora me procurem muitas vezes para isso. Prefiro guardar esse tipo de abordagem para o atendimento, o aconselhamento, com hora e dia marcados. Mas estou cada vez mais convencida de que é natural em mim, faz mesmo parte da minha identidade, é verdadeiramente meu…

E preciso de o assumir com toda a propriedade e honra que tal nobre ciência me merece.

E que vale muito mais do que a falta do que fazer dos polícias da vida alheia.

Estudei psicologia analítica em São Paulo, sim, na SBPA e na Católica. Não nego a paixão, o talento, até o dom para a coisa, mas seria, quando muito, terapeuta.

A psicologia [analítica, a única que me convence], para além de uma paixão, um interesse, um dom e um talento, é a forma como explico o mundo. As pessoas, as suas atitudes, as culturas, as sociedades, as famílias, os povos.

A psicologia tem para mim essa função.

Sanou-me e esclareceu-me todas as dúvidas existenciais com que me debati a vida inteira. E não eram poucas. Deu-me sentido à vida, mostrou-me o propósito da minha existência, salvou-me do caos. Precisamente por dar estrutura e suporte racional e intelectual ao que já intuía, sabia, com todas as minhas células.

Interessa-me mais ajudar pessoas a descobrir o que está por detrás das suas angústias e a ampará-las para que decidam o que podem fazer com isso, do que propriamente fazer diagnósticos, mais dados ao fatalismo. São redutores.

A profundidade de cada um de nós é muito maior do que o que um simples diagnóstico pode apontar. Até do que uma sombra…

Dificilmente me licenciaria, já não tenho idade nem paciência para encarar 4 anos de licenciatura, apanhar com teorias que não me interessam minimamente, matérias para encher chouriços, turmas cheias de miúdos, frequências e o diabo. Já dei para esse peditório quando tinha boa idade para isso. O máximo que faria, para além do que já fiz, seria uma pós-graduação em Psicologia Analítica na Suíça ou em Nova Iorque. O que também duvido. Parece que, finalmente, encontrei o meu lugar. Não me apetece mais vaguear por esse mundo, muito menos à deriva.

De resto, já acumulei conhecimento suficiente na área, mais do que supus e do que o que há disponível por aí. Não negando a investigação contínua – dos 50 quilos de livros que trouxe de São Paulo ainda há alguns por ler e a book depository está à distância de um clique – está na hora isso sim de sedimentar, de passar conhecimento adiante, de lhe dar uso prático, de colher o que investi durante todo este tempo, sete anos, para ser mais precisa.

Se calhar soo um bocado bruta quando afirmo categoricamente que não sou psicóloga. É o preço que pago por ser honesta, rigorosa. Detesto confusões. E gente sem noção, que se apropria de títulos, palavras, conceitos, ideias, indevidamente. Se imiscui na área de trabalho alheia sem que tenha competências para tal, apenas uma enorme cara de pau e muita falta de humildade. Neste caso, o que me sobra em honestidade, falta-me em ego, o que é lamentável, mas é o que temos. Prefiro assim.

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