À vela

04/01/2018

De todas as vidas que não vivi, da que mais sinto nostalgia é a que me permitiria existir à vela. Não o faria sozinha. Aos vinte e poucos anos, conheceria um solitário que ganharia a vida num veleiro. Poderia participar e colaborar, adoro aprender, fascinam-me os lemes e as bússolas, não gosto de ser um peso morto e tenho boas pernas. vela

Mas não dispensaria a escrita e a leitura.

Na fantasia, tudo é possível, imaginação e criatividade não nos faltam. E é preciso ser-se muito introvertido para aguentar viver de e num barco. A questão da necessidade de tempo de solidão não se poria. Talvez a de espaço…

Também não sei como aguentaria as tormentas, os ventos fortes, a ondulação furiosa. Mas as adversidades aproximam as pessoas. E eu haveria de querer insistir nesta ideia peregrina de procurar intimidade.

Mesmo na vida à vela

Com a tecnologia de que dispomos, a informação recebida ao segundo, o controlo neurótico de todos os movimentos, poder-nos-íamos poupar a alguns riscos. Tendo a inteligência de corrigir a rota, a humildade para aproveitar ventos e marés, respeitando as horas apropriadas para a navegação, usando a ondulação a nosso favor.

Para que conseguíssemos chegar ao destino que pré-determinámos. Com a abertura e a sapiência suficientes para ver o que está disponível para ser vivido, mesmo que se não nos apresente da forma que esperamos, queríamos ou gostaríamos. Confiando nessa sabedoria universal, a que conhece as condições atmosféricas, os atos de Deus, a nossa vontade e o nosso propósito maior. Fazendo a nossa parte.

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