Prémio – A vida no campo

14/07/2019

O Joel Neto ganhou um prémio com “A vida no campo”, o meu livro preferido de todos os que escreveu.

Senti-o como se fosse meu.

Não por algo que tivesse escrito, publicado. Mas por mim. Senti-me validada, reconhecida e premiada pelo que acredito, pelos meus valores mais sagrados. Por quem sou. No fundo e à superfície.

O que este livro fez por mim e comigo está ainda longe de se extinguir. Apesar de já ter escrito um sem número de palavras sobre ele, aqui publicadas. Li-o todos os domingos no DN e fiz questão de o comprar e o ler todo de seguida. De gravar um vídeo com a minha entrada preferida, de vestido vermelho e 3 meses depois de o meu pai ter morrido. Em luto profundo, no pico da introversão. 

Três anos depois, salva-me outra vez.

Têm sido tempos difíceis, estes. Em que questiono tudo. Não que tenha dúvidas em relação ao facto de precisar de significado para viver, essa é a minha natureza e não existo de outra maneira. Mesmo conhecendo o sentido da vida e o processo de individuação. Mesmo sabendo que é coisa para me ocupar o resto da existência, que, espero, não se prolongue além da sanidade e da mobilidade. Mesmo assim…

Não consigo deixar de me perguntar: para quê…

Poderia ser autocomiseração, talvez seja um bocadinho, incapacidade de lidar com a realidade, odeio-a, com os cabelos brancos, com um corpo que não controlo e uma cabeça que me atormenta dia e noite. Poderia ser isto e tudo o resto, que evito expor.

São incontáveis as vezes que copiosas lágrimas me brotam dos olhos e me escorregam cara abaixo, sem que consiga contê-las, muito menos entender-lhes os motivos. Acho sempre que já chorei tudo o que tinha para chorar em relação a este tema. E surpreendo-me todas as vezes.

Até o Joel ter ganho um prémio. Com A Vida no Campo.

Quando lhe deixei cinco mensagens no whatsapp, uma delas de áudio, só deixo mensagens de áudio a brasileiros, mal conseguia falar de tanta emoção. Mas ele tinha de me ouvir de viva voz.

O prémio do Joel é a vitória do Self. Não está tudo perdido…

“A vida no campo” deu uma peça de teatro de uma coragem inaudita. E o segundo volume saiu este ano: A vida no campo: os anos da maturidade. Que me encantou e comoveu, como da primeira vez. Com direito a dedicatória única e irrepetível. Não poderia estar mais grata pelas palavras de incentivo. Mesmo que tenha desistido de tentar mudar o mundo. Coibindo-me inclusive de dizer o que penso dele, neste momento.

Ler A vida no campo é voltar ao que interessa. Sempre e outra vez.

Não poderia estar mais feliz por, num mundo superficial, consumista, vazio de sentido e demasiado preocupado com poder e estatuto, likes e seguidores, carente de conexão e cheio de gente oca, chata, reclamona, crítica, sem noção, narcisista, autocentrada, carente de referências e de valores, de norte e de sul, a humanização, a simplicidade, a humildade, a vulnerabilidade, a conexão com o que importa de verdade, a coragem, a ousadia, a audácia, ser validada, distinguida e premiada, de forma unanime, pelo júri.

É preciso ser um tipo especial de escritor para o conseguir.

Parabéns, Joel, mais uma vez. Este reconhecimento tem para mim um gostinho especial. E não só por tê-lo sido entre pares… Embora isso seja supremo. Orgulho não chega para o qualificar. Só comoção. Copiosa comoção…

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