Ajuda aos atrofiados

29/01/2020

No outro dia estava no Music Box, à espera que a moça me pedisse os talões dos casacos, com duas miúdas à minha frente que não saíam dali. Se há profissão para que teria jeito era para ajudar atrofiados, nomeadamente, fazê-los sair da frente de gente que está à espera.

Há uma característica comum nesta gente, não quererem saber de quem está atrás, à espera, que tem pressa, que odeia sentir-se controlado. Que tem horários.

Chama-se narcisismo.

As minhas necessidades têm de ser satisfeitas, no tempo que eu determino, e toda a gente tem de se sujeitar às minhas indecisões, ao meu tempo, a mim, porque eu sou especial e mais ninguém no mundo interessa.

Os exemplos são inúmeros:

Gente que fica encostada a bares a beber quando há dezenas de pessoas a querer pedir um copo. E mesas para onde podem ir, paredes às quais se podem encostar.

Está servido, deixe que outros possam fazê-lo.

Se está num espaço público, à espera para ser atendido, não fique até ao fim para decidir o que quer. Pense antes. Afinal, já teve tempo suficiente para tal. Da mesma forma, não espere que o caixa de supermercado acabe de passar TODAS as compras para poder procurar a carteira, abri-la e pagar. Ou seja quem for que estiver a vender-lhe qualquer coisa.

Já sabe que tem de pagar, prepare o pagamento antes.

Não entre em diálogos intermináveis com as pessoas que estão a trabalhar e a atender público. Faça as perguntas que tiver de fazer, obtenha esclarecimentos e vá à sua vida.

Se precisar de falar com alguém, consulte um psicólogo ou um terapeuta.

Ou vá beber uns copos ou um café com um amigo. Confesse-se a um padre, vá para uma montanha e grite do alto dos seus pulmões.

Se há pessoa que compreende a sensação de solidão e de isolamento, sou eu. Mas não é por isso que me imponho aos outros e os obrigo a aguentarem-me. Portanto, não atrapalhe a vida alheia e muito menos se imponha aos outros.

Gente que anda em escadas rolantes, em passeios estreitos, em centros comerciais, em dupla, aos magotes, numa fila horizontal, ocupando todo o espaço disponível.

Devagar, muito devagar.

Gente que anda em escadas rolantes e para na fila da esquerda. Gente que anda em qualquer escada e não se encosta à direita.

Quando descer ou subir escadas, ou andar na rua, siga as regras normais do trânsito: encoste-se à direita e não atrapalhe a vida dos outros. O mesmo serve para quem conduz devagar ou tem veículos que não aguentam subidas sem perder velocidade. Encoste-se à direita. Encostar-se à direita não lhe dá o direito de andar a 60 na autoestrada.

Se quer andar a 60 opte por estradas nacionais.

Gente que não vai sair na paragem seguinte e fica ao pé da porta nos transportes públicos, impedindo toda a gente de entrar.

Vão para o corredor.

Gente que quer entrar em transportes públicos quando há gente a querer sair, não fiquem em frente à porta, ponham-se de lado, deixem as pessoas sair e só então entrem.

Até porque há mais espaço.

Não sei o que foi feito das vossas aulas de física, mas relembro: duas massas diferentes não podem ocupar o mesmo espaço. É preciso haver espaços vazios para que possam ser preenchidos. Como tal, não tentem entrar num espaço que já está cheio, de preferência quando este o está porque vocês não permitam que se esvazie antes de entrarem.

No trânsito, igual.

As filas de trânsito são insuportáveis. Cada segundo desnecessário a mais na estrada é uma unha roída, um cabelo branco, um impropério, um insulto, um potencial ataque cardíaco de tanta fúria.

Quer passear, vá para o campo.

Ande a pé. A estrada é para andar o mais rápido e seguro que conseguir. Se tem medo da chuva, vá a pé. Se tem medo de conduzir, se sofre de ansiedade, ande de transportes públicos. Durante uma trovoada, uma chuva torrencial, circule devagar. Caso contrário, desde que mantenha a distância devida do carro da frente, e mantenha-a SEMPRE, ande a uma velocidade compatível com a estrada onde se encontra.

E respetivas condições.

Por falar em distância, respeite o espaço pessoal, carregue mochilas e malas à sua frente. E guarda-chuvas. Evite dar com eles nos outros. Se viaja de pé, não obrigue quem está sentado a levar com QUALQUER parte do seu corpo.

No trânsito, na estrada, sempre que estiver com um volante nas mãos, e quiser mudar de direção, faça pisca. E olhe antes de mudar de direção. Fazer pisca não lhe dá o direito de se pôr à frente dos outros, principalmente se estes vão a uma velocidade que não lhes permite travar a tempo ou não têm uma faixa por onde fugir.

Seja civilizado.

Entenda, os introvertidos precisam de distância física dos outros, mesmo dos que com quem mantêm relacionamentos íntimos. Mesmo quando está frio, sempre. Respeite isso. Se há cadeiras vazias, deixe uma cadeira de intervalo entre a pessoa do lado. Caso contrário, evite tocar-nos. Com malas, casacos, qualquer parte do seu corpo.

Isso é invasivo, quando não solicitado ou expressamente permitido.

O espaço externo, a não ser a natureza, é sempre motivo de grande stress para um introvertido. Nós somos sensíveis a tudo. Ouvimos a mínima coisa, o mínimo barulho.

Sentimos todos os cheiros.

Com uma magnitude que não vos passa pela cabeça. Gente, barulho, vozes, luzes, movimentos bruscos. Espaços fechados e com muita gente, principalmente com tetos baixos, são um inferno.

Imagine que lhe enfiam uma panela na cabeça e batem nela com um ferro, ininterruptamente. É assim que os introvertidos se sentem o tempo quase todo.

Não fale alto, não fale de todo se o espaço o exige. Em salas de cinema, teatro, as pessoas vão para ver o espetáculo, não para o ouvir a si. Não fale ao telefone aos berros. Vá lá para fora. Nós não queremos saber das suas conversas.

Se não sabe comportar-se no espaço público, pela sua saúde e pela saúde de todos, fique em casa.

Ou vá para a selva, o deserto, a pqp…

Parece que os últimos exemplos não se relacionam com os primeiros ou sequer com o tema. Mas relacionam. Por mais que adorássemos, lamentavelmente, não conseguimos permanecer sempre em casa, sempre sozinhos. A vida não o permite.  A necessidade é extrema e a vontade é de voltar para espaços tranquilos o quanto antes. Por isso, queremos despachar-nos o mais rápido possível. Não torne a nossa vida ainda mais difícil do que já é.

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