Harry, Nietzsche e Puer Aeternus*.

02/03/2018

Deparando-se com os seus dilemas, de uma forma que não dá mais para fugir, Harry, de Woody Allen, vive um tormento. Sofre de bloqueio de escritor e desespera, o que o leva a ter comportamentos auto-destrutivos. Ao ouvi-lo, um admirador da sua obra responde que Harry diverte imenso as pessoas com o que escreve. Harry corrobora, dizendo que a única coisa que tem é a imaginação, mas que talvez não saiba como viver na vida real. O facto de a arte ser a única forma possível de lidarmos com os nossos demónios é uma tentação muito grande.

No caso concreto, não está a resultar.

É quando lhe dizem que é preciso fazer as pazes com os demónios dele, pois só assim a inspiração necessária para continuar a escrever virá, que Harry consegue finalmente sorrir. Vai daí, resolve contar a história que o atormentava, esquecendo-se por momentos da sua vida pessoal, que lhe causava tanto tormento. Não por questões morais, mas por solidão. Harry teve a compensação devida, o seu trabalho foi reconhecido, os personagens aos quais deu vida receberam-no para uma homenagem na escola que o havia expulso na infância, incentivando-o desta forma a continuar. Perante o dilema: renunciar ao que tinha de mais precioso em troca de uma “vida normal”, escolheu o que tinha de mais precioso: a criação. arquetipo

Quando Nietzsche chorou,

chegou a um médico, por indicação de uma mulher por quem se apaixonou, mas que não o correspondeu, médico esse que acabou mais por ser ajudado do que por ajudar. Nesse processo, todas as frases que Nietzsche usou fizeram um eco imenso na minha consciência, nomeadamente o que disse sobre controlo. Nietzsche ajudou o médico ao ponto de este reconsiderar toda a sua postura em relação à vida familiar, mudando radicalmente de atitude, valorizando tudo o que tinha, mulher e filhos incluídos.

No caso de Nietzsche, havia algo mais forte que o impeliu, depois do trabalho feito com o médico, a apanhar um combóio que o levou não sei para onde, experiência da qual saiu Zaratustra, uma das suas mais famosas obras. Nietzsche acabou por morrer louco, depois de toda uma vida de uma genialidade incrível, fruto de uma consciência bem acima da média, que, mesmo indo contra o espírito da época, vingou, nas obras que deixou. Zaratustra só viu a luz do dia porque alguém encontrou o manuscrito e o publicou. Nietzsche não viveu o suficiente para gozar os louros do seu magnífico legado.

Cada um de nós tem um arquétipo para chamar de seu,

ou vários, na verdade, mas há sempre um que predomina, muitas vezes pela vida fora. Houve uma editora que teve a excelente ideia de publicar várias conferências da Von Franz sobre “O problema [do arquétipo] do Puer Aeternus”, que é como quem diz, o arquétipo da [eterna] juventude, que se constela em todos os artistas. O arquétipo que melhor nos assenta, como todos os outros, para todas as outras pessoas, é a nossa fortuna e a nossa ruína, por implicar sempre uma polaridade. Por um lado, satisfaz-nos, identificamo-nos com ele, é quem nos dá vida, alegria de viver, sentido de existência, por outro lado, não é estanque, muito menos um modo de vida eterno, por mais confortável que se nos afigure.

No caso do arquétipo do Puer Aeternus, a grande valia é a criatividade,

a liberdade, a alegria de uma vida sem minudências que nos tornem chatos, macambúzios, frustrados, infelizes. Para um Puer Aeternus, a pior coisa que lhe pode acontecer é tornar-se adulto, porque o que tem de mais precioso, a sua criatividade, a sua arte, fica dessa forma comprometida. Uma vida sem criatividade é uma vida que não vale a pena ser vivida… Por outro lado, todas as vantagens que um arquétipo da juventude traz pressupõem uma ausência.

Há algo fundamental que falta na vida de um Puer Aeternus. Pouco importa o complexo que foi ativado na sequência da vivência ou não de um arquétipo, mas os conteúdos do mesmo, o que nos leva a abraçar o arquétipo.  O meio, por assim dizer, proporciona uma sensação maravilhosa, não há nada melhor do que criar, mas o fim último da vivência de um arquétipo, partindo do princípio de que pressupõe sempre uma busca, é inatingível.

Se por um lado não há vida sem criação, que nos alimenta a alma, por outro, o fim último que buscamos com a criação e na vida é inatingível. E vai chegar uma hora em que algo se vai interpor, ou a morte, por incapacidade de viver sem criar, ou uma vida sem graça, junto das massas, que fazem de nós todos iguais, excluindo assim a unicidade de cada um, que é o que leva à criação original, autêntica.

Ainda não cheguei à parte em que a Von Franz dá a solução, visto que é junguiana e portanto defende a união dos opostos, não a escolha de um em detrimento de outro. Maneiras que tudo isto me preocupa imenso…

*3 Jun. 2014 [Ainda em São Paulo, 15 dias antes de voltar]. Oldies but goodies.

  • Eros 02/03/2018 at 13:29

    Caramba… Excelente pedaço de boa leitura!

    • Isa 02/03/2018 at 14:44

      <3 sempre, por aqui, sempre :) moléstia à parte :D

  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 04/03/2018 at 23:02

    Belíssimo texto!
    Os génios, caso de Nietzshe, são sempre solitários. Senão não eram génios… A banalidade, em todas as suas formas, que por vezes tanto nos desagrada, é o que ‘safa’ o homem comum, com o tempo fatiado em horários – uma chatice se tivermos em conta que isto dos relógios foi uma diabólica invenção que nem sequer corresponde a uma realidade universal -, o receio de não ‘conseguir’ seja o que for que os outros conseguem e que ele suspeita que também esperam dele, as várias entretengas que o libertam do incómodo que é pensar para lá do óbvio.
    Um meu primo- irmão muito querido, homem internacionalmente bem sucedido na vida, filho de mãe americana e pai português, que anos após o divorcio dos pais foi definitivamente viver para New York onde a mãe residia e por lá casou com uma americana e criou descendência, falava da imensa felicidade do ‘american way of life’ através de uma narrativa que me deixava que pensar.
    Levantava-se pelas seis da manhã – todos os dias à mesma hora, contando com as imensas filas de transito, almoçava rapidamente um snack no escritório , saia às quatro horas para outra fila de horas a caminho de casa, chegava exausto e irritado pelo tempo que tinha perdido, sentava-se num sofá – estilo do “Tudo em Família” mas em versão de luxo -, ligava o televisor, percorria com o comando uma centena de canais, adormecia e só acordava para ir para a cama.
    Deste interessante quotidiano saía ele para almoços com políticos e advogados – estava sempre a por alguém em tribunal -, para viagens de negócios que umas vezes corriam bem outras nem tanto, para preocupações com a Bolsa.
    Pelo meio, até ao dia em que a mulher se fartou deste alegre viver e foi morar para Boston, fazia aualmente umas férias pelos melhores hotéis de vários países com que tinha negócios ou uns jantares comemorativos daquelas datas que os americanos tanto apreciam.
    Morreu, com grande pena minha, sem se ter sequer dado conta do desasossego em que vivia. Os ‘outros’ eram mandriões (os portugueses tiravam-no do sério!), ‘loosers’, inúteis, etc… Nunca se deu sequer conta de que os tais ‘outros’ estavam vivos!
    Van Gogh, Nietzshe e outros – com que, aliás, tinha tomado conhecimento nos colégios onde estudou antes de ir para os States – para ele só tinham recebido da vida o que mereciam, ou seja, NADA.
    Van Gogh, devido às cotações atingidas em Bolsa, talvez lhe merecesse alguma atenção…
    Foram estes paradigmas que nos ficaram do pós- Segunda Guerra do sec. XX. E é para conseguir este tipo de sucesso que o mundo anda atarefado, agora com a ajuda das tecnologias que, diz-se, vão fazer sobrar imenso tempo para aquelas coisas que nos querem impingir, também através das ditas tecnologias.
    Tenho uma secreta fé que isto vai acabar por regredir.Aristóteles repudiava as máquinas porque não via o que se poderia dar a fazer aos ‘escravos’ – que, na circunstância, somos nós, -, os chineses já tinham descoberto a máquina a vapor dois mil anos antes da revoluçãoindustrial e continuaram persistindo no trabalho manual cuidadoso, artístico como é timbre dos orientais. As ‘lojas dos chineses’ são para ocidental ver e comprar. Penso eu que não percebo nada disto…

    • Isa 05/03/2018 at 11:07

      Queria ver o que seria o mundo sem arte, sem trabalho criativo. mesmo para o seu primo, que chegava a casa e via tb, não arte, mas conteúdos criados por alguém…

      E Sim, os génios morem loucos, no caso de Nietzsche, por excesso de consciência, acontece muito. A solidão de quem sabe demais.

    error: Content is protected !!