Artist’s Date 1/365 – Parque

01/01/2017

Tem um coreto, um parque infantil com crianças a andar de baloiço, árvores e relva. É um parque. Com um pavilhão desportivo, bancos de jardim, sem carros, um piso para andar de patins, onde uma miúda, seguindo as orientações dos pais, ciranda para trás e para a frente, sem se desviar da rota previamente traçada. É um parque.

O barulho dos carros na marginal é constante. Do outro lado, o mar quase se incompatibiliza com o verde que se espera de um parque. Não há o isolamento da Floresta Negra, a imensidão do Central Park, a paz do Green Park, a multiplicidade de etnias do Golden Gate Park, o silêncio do Ibirapuera, mas é um parque. Além disso, park, em inglês, pode bem significar jardim. Tem um chafariz, um quiosque de gelados e há até um lago com patos. É decididamente um parque. De cidade, a minha zona de conforto, como convém a quem dá os primeiros passos numa atividade que demoveria qualquer introvertido.

Parque campa

É um parque

Insisto em dizer-me, repetindo a frase como num mantra, que me acompanha desde que saí de casa, fugindo de um outro, desconhecido e que me desperta a maior das curiosidades, quanto mais não seja pelo nome altamente sugestivo: dos Poetas. Que deveria estar fechado, por ser domingo e o primeiro dia do ano.

O chão está pejado das folhas amarelas de um outono que acaba de acabar. Algumas árvores já estão nuas e o frio que me gela os ossos no banco que escolho para me sentar a escrever não deixa margem para dúvidas: é inverno. Constato que me esqueci da caneta e desisto. Descrente que seria incapaz de ficar simplesmente a observar o movimento, pego no Sound of Paper e termino o capítulo. Preparo-me para começar a ler o seguinte e ocorre-me que talvez esteja a fazer batota, a fugir do date. Levanto-me e resolvo percorrê-lo, ao parque.

Onde há morte, há vida.

parque arco

Com a cabeça levantada, ainda inebriada pelas cores vivas dos prédios atrás das parcas folhas que resistem nos galhos, olho em volta. Fotografo tudo, tal é a confiança que tenho na minha memória. Não deixo de reparar nas flores, poucas, que resistem à estação. É a primeira coisa que me salta à vista. Os meus olhos procuram a cor, sempre. Desenhado na relva, está um retângulo enorme, com flores que despontam, apesar do inverno. Têm cor de morte, o recorte parece o de uma campa. Agradeço a pulsão de vida que recebo imediatamente. Naquela campa de terra nascem flores. Onde há morte, há vida.

Parque

A entrada é delimitada por um arco que, reparo agora, tem uma bóia de salvação ao centro.

A possibilidade que encerra uma raiz sólida que se dispersa em troncos assim que irrompe a terra diz-me que não há limite para o número de braços que a natureza me deu.

Mais adiante, o alcatrão do chão, dividido ao meio por onde desponta um fio de relva, que a natureza arranja sempre, sempre maneira de se manifestar, faça o homem o que quiser, e que é a prova viva de que enquanto estivermos vivos, há esperança, e verde, ainda por cima.

Está tudo certo.

*Artist’s Date – Go to a Park

  • Tiago 02/01/2017 at 19:39

    Lindo parque. Adoro poder andar por lugares assim sozinho.

    • Isa 02/01/2017 at 23:31

      <3 Feliz Dia Mundial do introvertido pra nós ;)

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