Calçola

19/09/2018

Rendi-me às evidências e comprei uma dúzia do que os brasileiros chamariam calçola… E a que eu chamo: boxers de mulher. Parece que o nome oficial no site de uma loja de lingerie é culotte… 

O Brasil contribuiu em muito para que fizesse as pazes com o meu corpo e o aceitasse tal como é. Por isso, adotei o estilo local, calções curtos, partes de baixo reduzidas, mas não muito, ainda me resta alguma noção, e segui feliz.

No Rio, chegaram a dizer a uma amiga: biquini de coroa não tem não…

Quando cheguei, achava, naturalmente, os biquinis enormes. Como diria o meu irmão mais velho, autênticas barracas de praia. O mesmo aconteceu com tudo o resto que envolve a cobertura das partes pudendas da cidadã de bem.

O problema era marcarem-me os vestidos e as leggings quando ia dançar. Era inestético e impedia a circulação.

E, na praia, indiferente ao tempo e às carnes que me abundam, felizmente, mulher sem curvas é mulher aprisionada, decidi optar por uma coisinha mais reduzida, que me bronzeasse o mais possível, para disfarçar as imperfeições de um corpo que outrora haveria feito os delírios de pintores e poetas.

Está aí Afrodite que não me deixa mentir: barriguinha e coxão.

Fiz o mesmo em relação ao resto, adquirindo uma quantidade razoável dessas que se enfiam onde não devem, num desconforto insano. Quatro anos de tortura auto-infligida…

No outro dia, dei o grito do Ipiranga.

Dirigi-me ao sítio do costume e mandei ver. E descobri-me feliz com o que faz do meu rabo um monumento. Ao mesmo tempo que parece que não tenho nada vestido. Sem precisar o tempo todo de ter de me ajustar a uma coisa que não me cabe. Mais ou menos como tentar enfiar o Rossio na Betesga…

A revolução é feminina, como diz a minha poeta preferida.

Se houve um tempo em que a revolução se fez pela retirada de sutiãs, a da nova era pode bem começar por aí.

E a minha já começou. Pela calçola. Sem amarras nem prisões. E com rendinha no topo da cintura descida, sexy as f*ck…

De gola alta não dá não….

Para ajudar, no outro dia vi uma série que só tem uma temporada – se as séries de que gosto não podiam ser como a Anatomia de Grey que tem 700 temporadas de 30 episódios cada – em que o marido de uma Atena típica dizia que queria ver a mulher de calçola e t-shirt a limpar uma mesa, porque tal visão lhe dava tesão…

Fiz um verso sem querer, só pode ser bom sinal…

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