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Livre

Paixões e obsessões

19/07/2017

As paixões são sofridas e prazerosas, criativas e dolorosas. São saciáveis e divertidas, obsessivas e tranquilizadoras. As paixões preenchem, libertam, aliviam. São introspetivas e extrovertidas. As paixões devolvem-nos vida, entusiasmo, vigor. As obsessões são sofridas, incontroláveis, descontroladas, talvez até psicóticas, autónomas, ansiosas. São vazias, compulsivas, insaciáveis, aparentemente seguras, intermináveis, vorazes. São prazerosas no sentido autodestrutivo do prazer. É possível desviar a sua atenção, embora não pareça, por conta do caráter compulsivo.

obsessões

Make it an obsession

O nível de perturbação de cada uma define o tempo que dura. Mas as paixões, por serem mais prazerosas do que autodestrutivas, podem durar mais.

As obsessões podem querer acabar com as paixões que por sua vez podem virar obsessões, se o objeto da paixão não corresponde. As obsessões raramente se tornam paixões.

Ambas são possessões. E funcionam à revelia da consciência.

A obsessão parte de um pressuposto de carência. A paixão de encantamento.

Quero mais do que me dá prazer. Quero tudo quanto puder por não saber quando posso voltar a ter.

Ambas são urgentes, impacientes, devoradoras e não permanentes.

O Estado da Arte

18/07/2017

Usar o famigerado mercado para justificar a aposta numa coisa e não noutra nunca me convenceu. O mercado não é uma entidade superior que determina o que as pessoas querem e não querem, gostam e não gostam. Escrevi sobre isso de forma bem poética num dos ensaios do Message in a Bottle. Mas apresentar como solução o financiamento da arte, da cultura, pelo Governo, também não.

É a diferença entre dar o peixe e ensinar a pescar. No primeiro caso, somos dependentes e nunca aprendemos a sustentar-nos. Somos, portanto, controláveis. No segundo, independentes, autónomos.

Artista nenhum quer esmolas

Quer expressar-se, passar uma mensagem e ser entendido e visto na sua unicidade. Que é exatamente o que a arte provoca em quem a consome. E se há coisa que a caracteriza é precisamente a liberdade do artista para a criação. Se não for livre, não é arte, é uma encomenda que poderá sê-lo, mas é em primeira mão uma encomenda. E tudo bem também.arte

Quando falamos de filmes, de música e de literatura, talvez seja difícil, por não ser eventualmente quantificável a não ser pelo objeto, o filme, o disco (ou a faixa), o livro. A questão é que não é o objeto que vende, é o seu conteúdo. Não é quantificável porque é o que nos provoca e não o que consegue fazer, como um detergente para a roupa ou um eletrodoméstico, onde incluo telefones, computadores e tabletes. Também não é visível, como uma jóia ou umas calças da marca x e uns sapatos da marca y (que custam três vezes mais o preço de um bilhete para um concerto). Não nos embebeda nem nos inebria, mas provoca o mesmo efeito, ou melhor, e sem ressaca.

Atribuir um valor à criação pelo que nos provoca, nos transforma, nos acorda, nos mexe.

E agir de acordo, pagando. É a única forma de conseguir que alguém continue a criar é pagando pela criação, o conteúdo. E assumir a nossa própria falta de coragem ou talento, parando de projetar a nossa amargura nos outros apenas por serem malucos e abnegados o suficiente para insistir em criar.

Enfiar na cabeça de uma vez por todas que um trabalho feito em casa é um trabalho; um trabalho intelectual e/ou criativo é um trabalho; leva tempo como os outros, usamos neurónios como os outros, mais imaginação e criatividade do que os trabalhos das 9 às 5, só não vestimos fatinhos janotas e não apanhamos com horas e horas de trânsito. São opções. Todo o investimento em materiais e emoções é do criativo. O trabalho é solitário, pessoal e intransmissível. Não há colega que se contrate para fazer as nossas férias ou nos substituir quando estamos doentes. O processo criativo é violento. “Music is about feeling”.

Se eu quero um Miguel Angelo, um Botticelli não me serve.

A qualidade e a especificidade, a particularidade, tudo se paga.

Talvez se se parar de esmifrar as pessoas com salários de merda e impostos altíssimos, possamos ver um bocadinho além da necessidade, do material, do ter, e passarem a preocupar-se um bocadinho mais com o ser. E se responsabilizasse nesse sentido, investindo de acordo.

E talvez se se apostasse nas pessoas em vez de nos aproveitarmos delas quando já são conhecidas esse tal de mercado piasse de outra maneira, mais fino.

É por isso que este vídeo é tão bom. O Luís Figueiredo, de um jeito objetivo, explica algumas coisas. A moça do vídeo trata do resto. Obrigada aos dois e ao Salvador, que proporcionou isto tudo.

Reforma e filhos*

17/07/2017

Na reforma temos dinheiro, todo o tempo do mundo para fazermos o que nos apetece, e ainda assim sentimo-nos vazios. Quando os filhos vão à vida deles, ficamos com todo o tempo do mundo para curtir, a nossa vida e o nosso consorte, e ainda assim ficamos deprimidos.propósito

A função que desempenhamos e que faz que contribuamos ativamente para a comunidade acaba, e com ela o nosso valor, que associamos ao papel social que representamos e que muitas vezes se prende exclusivamente com a nossa profissão.

Ou função biológica.

A obrigação, o encargo, a responsabilidade por um ou mais seres humanos que gerámos e pusemos no mundo acaba quando estes arranjam a vida deles, os filhos deles, os seus trabalhos, as suas funções, as suas responsabilidades.

Falta propósito

Mesmo que haja dinheiro para prazeres como viajar, comer e beber, ler e ouvir música. Ou que até descubramos o que nos faz vibrar, o que viemos cá fazer e que contributo queremos deixar. Ler Mais…

Tipo Sentimento

13/07/2017

Quando Salvador Sobral ganhou o festival, não faltou quem comentasse os gestos, os tiques, os trejeitos com que coreografava a música que interpretava. Numa entrevista de uma beleza indescritível, Salvador respondeu a esses comentários dizendo que havia descoberto que o corpo lhe dava coisas, lhe provocava sensações. Era essa a razão pela qual a sua performance em palco é tão diferente. E ele não está nem aí para o que os outros pensam dela.  sentimento

Sendo do tipo Sentimento, toda a vida me senti coagida a racionalizar emoções para poder validá-las.

Apesar de ser de um país manifestamente Sentimento, herdei o racionalismo dos gregos e sou fruto de uma cultura patriarcal. Para ajudar, sou a única menina entre três irmãos.

O masculino sempre imperou e o feminino nunca chegou a mandar lembranças.

Os sentimentos e as emoções foram sendo relegados para segundo plano, o que quer dizer que fui abafando a minha natureza. Nunca me tornei outra pessoa, ninguém se torna outra pessoa, mas quem era de verdade estava soterrado debaixo de intelectualidade, conhecimento, razão e lógica. Ainda que estas nunca, nunca se sobrepusessem ao sentimento. Podia até usá-las, mas no fundo, no fundo nunca me sentia bem ao fazê-lo, ao não dar prioridade ao Sentimento. Que por sua vez também me frustrava, por não achar maneira de não sofrer. O que conscientemente imperava era o intelecto, o cérebro, tudo o resto, incluindo o corpo, estava a serviço deste e quanto menos atrapalhasse melhor. Ler Mais…

Resiliência

11/07/2017

Diz-se aos intervenientes num relacionamento em crise para voltarem ao início e pensarem por que motivo escolheram aquela pessoa para passar os dias, as noites e a vida.

Vale para tudo

Andava incomodada com a minha performance na corrida. Desde que parei por causa do calor, na verdade, desde que comecei a correr meia hora, que a coisa andava a incomodar-me. Por me custar imenso, na maioria das vezes não ir até ao fim, que me irrita mais que tudo, pelo nível de cansaço com que ficava, o coração a bater demais. E intrigada por nunca mais ter chegado ao nirvana da corrida, aquele estado de comunhão com o todo. E a única vez que aguentei na boa foi enquanto delineava um texto inteiro na cabeça. Ou seja, distraía-me do esforço.

As pernas aguentam, o resto não.

Vai daí, voltei ao início. Ao que me fez adorar correr. A aplicaçãozinha que me diz: anda, corre, anda. Como começa por um minuto a correr dois a andar, uso esse minuto para sprintar. E os dois minutos a andar para recuperar. Testo o coração e não morro de tédio. Porque quando começo a embalar, ela diz-me para recomeçar a andar.resiliência

É à mesma meia hora, fora a meia hora que caminho todos os dias para ir e vir da praia, mas mais gradual e dia sim dia não. Quando comecei, corria todos os dias. E tive de parar ao fim de uns meses, com os tendões todos doridos e os joelhos a pedir clemência.

O ego quer tudo, mas o corpo é que sabe.

Ontem foi o primeiro dia e senti-me lindamente. Se não podes vencer o teu monstro interno, aprende a driblá-lo.

Mexe muito com a cabeça e a confiança o que não conseguimos fazer. Acorda o monstro autodestrutivo em nós, o que nos diz que não somos capazes, não vale a pena, o melhor é comer porcarias, fumar, beber copos até á morte e adotar um estilo de vida de morte lenta e dolorosa.

No pasaran

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