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Livre

Mais humanismo por favor

18/09/2017

Um dia destes estive a ver este documentário sobre o George Michael no qual se falou, entre outros assuntos, da condenação por ato sexual ilícito numa casa de banho pública, na sequência de um esquema montado e nojento para o apanhar.

À época, o Sun, esse lixo que se denomina jornal, fez uma chamada de capa sobre o caso, com este título. humanismo

Criativamente, um estouro. Nada a apontar, tudo a elogiar. Tenho até alguma inveja. Adoro trocas de palavras, melodia e poesia na escrita, qualquer que seja. Os textos exclusivamente técnicos, sem sal, frios, cheios de credibilidade validada por estudos, prendem-me apenas um milésimo de segundo.

Sou mais sentimento do que pensamento

O problema é a absoluta ausência de humanismo.

Ao longo do filme, vários foram os entrevistados que testemunharam sobre a vida de George Michael. Entre os quais uma jornalista loura de quem não lembro o nome nem a publicação para onde trabalha, que não deu duas para a caixa, numa altivez verdadeiramente repugnante. Para além de se arrogar o direito de determinar o que uma pessoa pode e não pode esperar do comportamento de um jornalista. Justificando basicamente que se pode tudo porque aos 18 anos, quando estava no início de carreira, o cantor procurava a imprensa para se promover e divulgar o seu trabalho.

Jamais para falar da vida privada

Aproveitando-se de forma abjeta da inocência de alguém para justificar o ganha pão que se resume a chafurdar na vida íntima dos seus pares.

O limite do jornalismo deveria ser condizente com o princípio básico do humanismo. Dever de informar não é direito de chafurdar, de invadir, de profanar a intimidade.

A primazia do humano em detrimento da vaidade

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Exclusividade e intimidade

16/09/2017

Estive a rever o Her e chego à conclusão de que, para haver intimidade, queremos alguém que nos ouça, e não nos julgue, e que sejamos especiais, individualmente e em dupla. Sensação essa que vem da exclusividade. Quando a SO diz que está apaixonada por mais 641 pessoas é o princípio do fim. exclusividade

A exclusividade faz-nos sentir especiais

É o que nos permite abrirmo-nos à vulnerabilidade e partilhar o que nos é mais precioso. Sem medo. Conectando-nos intimamente. Essa é a premissa para um relacionamento.

Sem exclusividade dificilmente há intimidade. Sem intimidade, dificilmente há relacionamento digno desse nome.

Tesão

11/09/2017

Não se contem, sente-se. Não se escolhe, acontece. Mais forte do que um tufão, mais leve do que uma pena. É aquela parada, aquele silêncio súbito, aquele olhar fixo, preso no do outro, à espera de se soltar. É arroz com feijão, química explosiva, prazer sem culpa. Tesão é vida.tesão

É inquestionável, indubitável, insofismável.

Porque havemos de questionar a emoção da tesão se passamos batido pelo prazer do palato? Porque havemos de resistir ao prazer emocional se usamos e abusamos do prazer que nos nutre o estômago e nos mata a sede?

A cabeça atrapalha, mas só um pouquinho. O resto do mundo pára.

Tesão é tesão

Não tem explicação. Mais forte do que a razão, taco a taco com o coração, clara como água e intensa como fogo, que arde e se vê. É paixão que se vive e se sente. É impulso incontrolável, desejo a chispar nos olhos. Pernas a tremer e barriga a pulsar.

“É a pressa de chegar pra não chegar tarde”

É a compulsão pelo prazer e a retração do êxtase. É antecipação e consumação. Antes, durante e depois. Tudo ou tudo. Não tem tempo, espaço nem hora marcada. Para começar nem para acabar. Só vontade, e enquanto houver vontade…

Tesão é instinto, sobrevivência, função. É êxtase e delírio. É poder e redenção, submissão e rendição. É imprevisível e espontânea, conexão e fusão. Sensação e pulsação.

*Por falar em necessidades e desejos

Hitch

08/09/2017

Toda a gente em Hollywood está ressentida comigo. Faço-os ganhar milhões de dólares. E todos os anos me sento naqueles jantares de entrega de prémios, à espera que alguém diga: ‘O senhor é bom’. Têm um prazer sádico em negar-me esse pequeno momento. Alfred Hitchcock, no filme com o mesmo título. Filme esse que termina com a lembrança de que o mais famoso realizador do género e de outros nunca ganhou um Oscar. Validação

Razão tem Woody Allen

que não vai às cerimónias de entrega de prémios nem os aceita. Se acreditar que a Academia tem o poder de lhe validar a obra, também tem de acreditar a cada vez que essa validação não se verifica.

Tento convencer-me…

E lembro-me sempre dos reconhecimentos pós-mortem, dos prémios carreira, que a Academia frequentemente atribui a génios a quem não se dá ao trabalho de reconhecer em vida, criativa ou biológica. E do quão irritantes às vezes soam. No que teria sido aquele artista com mais apoios. Também pode dar-se o caso de se estragar todo com tanto mimo, pensa a patriarcal que há em mim…

E talvez seja isso que define o verdadeiro artista, o criativo nato. O continuar, persistir, independentemente da dureza do processo. E do desfecho.

Recomeços

06/09/2017

No hemisfério norte temos a possibilidade de ter três recomeços por ano civil.

Quando morei no Brasil, gostava e fazia-me sentido que o ano escolar acabasse e começasse no mesmo momento que o ano civil. Às vezes padeço de um ligeiro TOC e gosto da vida arrumadinha. Ajuda-me a fechar ciclos e a abrir outros. É emocionalmente funcional e psiquicamente aconselhável. recomeços

Vivo bem no caos, mas apenas temporariamente.

Preciso de estrutura, um poiso, uma base. Não me dou bem na volatilidade.

Um dia destes dei por mim a gostar dessa possibilidade. A de poder recomeçar três vezes por ano. Em janeiro, setembro e outubro, mês que marca o meu novo ano pessoal.

Janeiro não me faz sentido nenhum, é um mês horrível, frio, enorme, de ressaca das festas, em que não apetece fazer grande coisa. É-me artificial a sensação de que tudo pode ser diferente só porque mudamos um número no fim de uma data.

Nunca me fizeram sentido festas de fim de ano, celebrar porque sim. É sempre um tormento pensar no que fazer, aquela obrigação de ter de fazer alguma coisa, ser olhada de lado porque me apetece ficar em casa. Está sempre um frio de lascar, seria lógico recolher ao lar, mas a esquizofrenia dita que temos de nos divertir, praticamente nus, e de ser felizes, mesmo que não nos apeteça. Também não me ocorre planear o ano nessa altura, muito menos fazer balanços. Não me lembro do que fiz na semana passada, sei lá eu o que aconteceu há dez meses…

Setembro dá-me normalmente uma espécie de melancolia pelo fim do verão, por saber que num salto o ano acaba, me aproximar da data de final do meu ano particular. Muito por ficar mais velha, por me despedir de um ano, por não saber o que o novo me reserva.

Este está a ser diferente. Mesmo sem a possibilidade de começos,

mas com a esperança de bons recomeços.

Na verdade, não queria usar a palavra recomeço, mas agora não encontro uma mais precisa. Que ilustre esta sensação que agora tenho. A de começo, mas não a partir de uma tábua rasa. Nem de recomeço, por me sentir de certa forma diferente, não mais me reconhecer em alguns padrões e crenças e ao mesmo tempo ter a sensação de que nada mudou e tudo está exatamente como me deixei há dois anos, sabendo que não é possível.

Que sou a mesma, mas estou diferente.

E faz-me sentido a frase que diz que há um momento em que devemos abandonar quem pensamos que somos para nos tornarmos na pessoa que estamos destinados a ser. Ou que sempre fomos. Que nos espera pacientemente.

Talvez retoma seja uma palavra mais apropriada. Retomar-me de onde estou, sem me prender à necessidade de coerência nem me perder de mim, do que quero agora. E a possibilidade fascinante de poder fazer algo novo a partir do que já existe, depurando a ferrugem, amputando o desgaste, usando o que está bom, tem valor e ainda se aproveita.

Bom ano

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