Browsing Category

Livre

Jung, Freud e o masculino.

09/12/2018

Ao voltar de um fim-de-semana em que dancei [com] os meus medos, no domingo passado, vinha eu na A5, ocorreu-me, do nada, o motivo da briga eterna entre Freud e Jung. Que coincide com o tema arquetípico do masculino.

A relação com o pai 

Freud, por algum motivo, certamente narcísico, via Jung como seu discípulo e, na sua fantasia, igualmente narcísica, enfiou na cabeça que Jung haveria de ser o seu fiel seguidor, cuidando-lhe do legado, não querendo deixar espaço para que este decidisse por si o que fazer com a sua vida.

Jung, que tinha mais que fazer, a sua pulsão de vida era mais forte do que tudo o resto, inclusive a ordem estabelecida, atreveu-se a pensar pela própria cabeça. Ouviu a voz que fala baixo, quase em surdina, mas que é mais eficaz do que todas as outras, a do Self. Permanecendo fiel aos seus instintos mais viscerais, manteve-se firme nas suas pesquisas, atendendo pacientes e investigando, até fundar a sua própria linha de psicologia, a analítica.

O complexo de Zeus de Freud não perdoou

E Jung, felizmente, não caiu na armadilha do filho que quer a aprovação do pai e que, para tal, tem de deixar de viver a sua vida, a vida que está à sua espera, para realizar sonhos não cumpridos do pai.

Enfrentou-o, como qualquer filho tem de fazer, mais cedo ou mais tarde…

E qualquer pai tem de aceitar, a bem ou a mal, que o seu filho é uma entidade única que, eventualmente, lhe poderá fazer sombra. Ou que terá sonhos próprios, ideias próprias, que terá de viver.

Não se falaram até ao fim da vida, caíram no mais básico complexo de todos, que também é o tema do masculino. Nenhum cedeu, quem perdeu foi a psicologia. Ganhou o patriarcado, tão ao gosto de Freud, que valorizava o masculino acima de qualquer outra coisa. Negando em absoluto o feminino. O dele e o dos outros. Vendo-o inclusive como algo ao serviço do masculino. Numa busca incessante por poder e autoridade.

E que, por isso, passou à margem da vida.  De uma série de vivências e de experiências.

Anos e anos depois, continua a ser a referência para a psicologia. Anos e anos depois, continuamos a sofrer do mesmo mal, a primazia do masculino sobre o feminino.

Feminino esse que seria a chave para o masculino lidar com o seu complexo de autoridade e de poder. Não só na função de olhar para dentro, como na de ver além disso. Com o amor como motor de mudança.

Jung propõe juntar os dois e aguentar a dinâmica das forças opostas na psique individual. A batalha é dura, mas a luta está longe de ser inglória.

Sigmund Freud: Hmm. I had a most elaborate dream last night. Particularly rich.
Carl Jung: Let’s hear it.
Sigmund Freud: I’d love to tell you. I don’t think I should.
Carl Jung: Why ever not?
Sigmund Freud: I wouldn’t want to risk my authority.

Foi nesse momento que a perdeu…

Citação e imagem do filme: um método perigoso

Mundo Interno e Mundo Externo

24/11/2018

A importância da ligação permanente entre o mundo interior e o mundo exterior. Reconhecer a preciosidade destas palavras, principalmente o que se diz depois da fala de Jung, é alento suficiente.

Consumar x Consumir

19/11/2018

Num qualquer momento deste ano, incapaz agora de precisar, propus-me substituir consumir por consumar.

Entretanto, nunca mais me lembrei… 

No entanto, o Universo, que tem memória de elefante, não me deixa mentir e tudo faz para que permaneça fiel aos meus propósitos.

Notei-o por causa do tempo.

O tempo de consumar é estendido. É o tempo da literatura, da intimidade, da emoção, do feminino. É decididamente um tempo Kairos. Absolutamente incompatível com o tempo de consumir, medido por Cronos.

Um tempo masculino, agressivo, duro, rígido, implacável.

O tempo que faz que desconhecidos berrem com outros desconhecidos por um lugar de estacionamento, num bairro supostamente chique da Capital. Sem sequer se questionarem sobre a sua atitude. De uma agressividade absolutamente desmedida e desnecessária, ainda mais para um domingo à hora de almoço.

Nomeadamente, quanto ao facto de não ser óbvio que queria estacionar na Av. da Igreja, quando tinha exatamente o mesmo lugar, num sítio proibido e imediatamente antes de uma passadeira, na rua onde estava e de onde queria sair. Mesmo berrando, gesticulando e dando-se ao trabalho de sair do carro, imagino que para me bater, para dizer que estava a fazer sinal. Não se dando conta, outra vez, que esse mesmo sinal tanto poderia ser para indicar que ia estacionar no lugar onde estava, quanto para o fazer num sítio nada lógico -, onde acabou por estacionar, não sem antes me buzinar violentamente -, tendo em conta que era muito mais fácil fazê-lo na rua onde já estava.

Não estivesse eu com a minha mãe e teria saído do carro disparada, aos berros, para lhe dizer que não era óbvio o que queria fazer. E para partir para cima dele a ver se se acalmava. Ou se teria coragem sequer de me levantar a mão. Era da maneira que ia preso e lhe passava logo o nervoso.

Tive mesmo pena…

Mas não quero ser essa pessoa… E foi precisamente nesse momento que me dei conta de que nem morta volto a morar em Lisboa. Sequer a conduzir, a não ser na falta de melhor hipótese. Mesmo trabalhando na cidade e tendo de encarar uma hora de transportes ferroviários para cá, outra para lá.

E que o meu equilíbrio masculino x feminino está muito mais afinado e alinhado do que alguma vez imaginei.

Outlander e o consentimento

03/11/2018

Já perdi a conta à quantidade de conceitos que Outlander me fez repensar. Um deles foi o do consentimento.

Ninguém muda de ideias, ou vê a mesma coisa por um prisma diferente, por causa de outrem. Só mudamos quando estamos psíquica e emocionalmente estruturados para mudar. Para aceitar, ver a mesma questão de outro jeito. Sem medo que nos afete a identidade.  consentimento

Sou das que acha que, na boa e velha arte da sedução, giro, giro é o não dito, a aventura dos sentidos. O que fica no ar, o ir indo até ver. O tatear. O toque leve e o ligeiro tremor que gera. A pista que fica no ar. A piada que esconde a luxúria que o olhar não disfarça. O sorriso silencioso do entendimento, da sintonia. A conquista, milímetro a milímetro, do espaço que dista entre os amantes. Num beijo, um afago, uma ligeira provocação…

A imaginação é uma das minhas maiores virtudes.

Depois, impera, tem de imperar, a conexão. Mesmo que a vontade seja a da satisfação pessoal, que é sempre, bom mesmo é a sintonia entre os amantes. O conforto de ambos, o prazer mútuo. A fusão… Caso contrário, fazíamo-lo sozinhos…

O consentimento está, então, implícito.

Na boa e velha arte da sedução, achava que, quando interrompida para perguntas tipo posso isto, posso aquilo, todo o entusiasmo se vai. Não é sexy, como dizia aquele personagem de The Affair. Um verdadeiro corta-tesão, digo eu… Quanto menos paleio, melhor…

Claro que se for um Jamie Fraser é mais fácil de acolher…

Ouvimos melhor quando o interlocutor é atraente… O que serve apenas para captar a nossa atenção. Se não convencer, não há Jamie que nos valha. Mas Jamie convence…

A verbalização é, então, um ato de respeito, de amor, de confiança, de uma imensa coragem. Jamie vulnerabiliza-se quando faz a pergunta. Depende da aprovação da outra. Estando, aparentemente, numa posição de inferioridade.

Esse é o grande erro que cometemos quando achamos que a vulnerabilização é uma rendição, um ficar na mão do outro.

A pergunta: posso tocar-te, posso dar-te um beijo, implica um assunção de vontade, de querer. E não há nada mais poderoso do que a assunção seja do que for. O poder volta para mim, quando eu assumo que gosto, quero, desejo. Esse gostar, esse desejar, essa luxúria, esse amor, essa paixão são meus, afinal.

E quando a gente assume o que quer, e o outro faz o mesmo, há responsabilidade no ato. Ninguém é omisso. Não há lugar a queixas. A insatisfação, a vazio… Que é o pior que nos pode acontecer depois do sexo. Um momento em que nos permitimos doar-nos ao outro, da forma mais íntima que nos é possível, sair com a sensação de vazio emocional é uma violência sobre a nossa alma. A nossa identidade.

Quando assumimos o que queremos, quem somos, como queremos, há, isso sim, um relacionamento, um caso, maduro, em que cada um sabe exatamente o que o outro gosta e não gosta, aceita, tolera e repudia. O que esperar dele e não esperar.

O que, parecendo que não, é poder pessoal.

Trazemos para nós a decisão sobre o que nos deixa e não deixa confortáveis. Só assim o relacionamento pode crescer, e cada um pode desenvolver-se mais e mais. Usando o outro como espelho, permitindo que nos traga notícias de nós…

Outlander e o #Metoo

30/10/2018

Foi preciso ver, primeiro em Mary, depois em Fergus, o efeito que a violação e o abuso sexual provocam nas suas vítimas. E assim conseguir estabelecer uma ligação com o movimento #metoo.

O pior das vítimas de abuso sexual é o sentirem se envergonhadas, e muitas vezes culpadas, pela violação. Já não basta a violência física e psicológica de que foram alvo, ainda se torturam com pensamentos horríveis, muitas vezes, a vida toda. Por isso, muitas vezes se calam. 

Só terapia salva da autotortura

Foi preciso ver Outlander para ganhar essa consciência. A do risco inerente ao trauma sofrido pelo abuso, nomeadamente no que se refere a relacionamentos de todo o tipo.

Não desconsidero obviamente a violência, que repudio em absoluto, interessa-me mais a consequência da mesma.

Como influencia a vida de homens e mulheres

A falta de autoestima, que é sempre uma consequência de algo, e não a causa em si, de autoconfiança, de força emocional. O quanto dita o futuro dos relacionamentos destas pessoas. O que determina e não determina intimidade. O que se faz com essa intimidade, quando foi violentada do pior jeito possível. Como a definimos. O que as pessoas vão aguentar nos seus relacionamentos, por falta de elaboração psíquica do ato. Que irá conduzir a uma pacificação com a parte de nós que se culpa. O que irão permitir-se, por não terem verbalizado o que as consumia.

As reações do público em relação a quem se chega à frente para denunciar abuso refletem muitas vezes a culpa que as vítimas sentem.

É preciso elaborar a culpa, que, obviamente, não é sua. A vergonha. Até à pacificação absoluta e irreversível com quem na sua cabeça acredita e se culpabiliza pelo ocorrido.

Até à maturidade psíquica

Deixando crescer a pessoa que permanece infantilizada nessa área da sua vida. Que se sente impotente, incapaz de enfrentar o seu agressor. De um jeito adulto.

Não querendo reparar, porque é impossível, mas pelo menos recuperar a autonomia psíquica que se perde sempre que nos vitimizamos e permanecemos na consciência da vítima.

Esta é a verdadeira importância do movimento #metoo

Se este movimento conseguir que as vítimas de abuso saiam da consciência da vítima de forma a permitir mais autonomia emocional, vale por tudo e todos quantos buscam poder sobre os demais pela via da vitimização.

Parafraseando Jung: eu não sou o que fizeram comigo, mas o que fiz com o que fizeram comigo.

Húmus

26/10/2018

Uma vontade instintiva e irresistível de me fusionar com a terra tem superado as lágrimas de comoção que a acompanham. Desconheço a sua origem, o seu destino. Sequer as compreendo, mas sei que são sinal de vida. Desde que nasci. Deixo-as correr, porque a atração pelo húmus é mais forte do que eu. Do que os meus medos, a minha teimosia, o meu pavor da vulnerabilidade.  terra

A vivência não mente. E a vida é soberana.

Sabe do meu propósito maior muito mais do que eu e encarrega-se de me pôr no caminho. Por meios que não conheço, mas nos quais aprendi a confiar.

Não me assusta mais expirar folhas secas que há muito caíram, porque sei que na natureza nada se perde, tudo se transforma. Que essas folhas rapidamente serão o húmus, que agora inspiro. E me fertiliza, dando lugar a uma nova planta, adaptada às condições exteriores, para que vingue, cresça e floresça. Sem perder a essência. Com maturidade e sabedoria.

Nada do que é verdadeiramente nosso se perde.

O que se transforma é o que não serve mais. Para que o propósito maior se cumpra. Mesmo que não saiba como, quando, sequer como será. Os princípios básicos estão garantidos. E isso é suficiente.

Perante o novo, há temor, há insegurança espelhada nos desgostos passados, nas coisas que não superámos e que enraizámos como incapacidade. Há uma infantilidade que se resume no medo do mundo, como se a pessoa que temos em nós fosse a mesma, com a mesma escassez de recursos, a mesma imaturidade, as mesmas muralhas intransponíveis, a mesma estrutura débil, assente em fantasias várias.

Impermeáveis à permissibilidade, temendo que o todo de nós pudesse ser tomado pelo mundo e nos transformasse noutra pessoa. Que não somos nem seremos.

Medo esse que só superamos quando, perante situação similar, resolvemos ter uma postura diferente, em vez de fugirmos ou nos calarmos, nos abstermos de participar, de contribuir. Para que, perante o inexorável, fizéssemos o melhor que  pudéssemos e soubéssemos. Não descartando toda a sabedoria e conhecimento que fomos adquirindo ao longo da existência, usando-os e aplicando-os cirurgicamente, onde possam ser mais valia. Pois nada do que vivemos é perda de tempo.

Deixando que a vida faça o resto.

Permitindo que a pessoa em quem entretanto nos tornámos encare a situação com a inocência, a esperança, a vontade, a força, a fé de um adolescente, ainda não poluído pelos interesses instalados, a preguiça sistémica, a desistência, a frustração, as mazelas que se nos foram acumulando no corpo e na alma, fruto de desilusões, do desmoronar da fantasia, do desejo narcísico e da megalomania do ego.

Mesmo sem saber como, vamos para o mundo, de novo, com confiança, fé, coragem, uma determinação fluída, sem a intransigência característica do medo de sermos engolidos pela terra.

O novo ano, que começou ontem, avizinha-se desafiador. Mas os recursos estão cá. E eu não mais tenho medo de mim.

Posso sempre voltar à terra, ao feminino, o único capaz de gerar vida. Não faltarão raios de sol. E a natureza encarregar-se-á de eliminar tudo o que não contribua para a permanência da existência vital.

Não faço balanços, não conto vitórias, muito menos derrotas. Mas agradeço. Ao Nuno, à Biodanza, ao mundo, à vida, que me vai pondo as pessoas certas no caminho. Pessoas essas que fizeram questão de não me deixar passar o dia de ontem em branco. Celebrando comigo a vida que persiste em não querer abandonar-me. E a mim. Por ter a capacidade de ainda conseguir ver alguma coisa, apesar da escuridão que me habita.

Paixão e amor

24/10/2018

Amar é encarar o outro da maneira real, simples, como o ser humano que de fato é. Amar nada tem de ilusório; é ver o indivíduo, vê-lo mas não através de um determinado papel ou imagem que tenhamos planejado para ele. É dar valor à individualidade daquela pessoa, dentro do contexto do mundo comum. 

Apaixonar-se pertence a deuses e deusas, está muito além do tempo-espaço. De repente, vê-se no ser amado um deus ou uma deusa e através dele, ou dela, vislumbra-se um estado além do pessoal. São sensações explosivas e inflamadas, uma verdadeira loucura divina. Cada um deles (dos indivíduos do casal apaixonado) está apaixonado por uma ideia, uma imagem, um ideal ou ainda uma emoção.

Estão apaixonados pelo amor.

Mas tem uma coisa no estar apaixonado, é que não dura. A virtude transpessoal e divina apaga-se e surge o ser simples e comum.  

Parece que a única forma de as pessoas comuns serem atingidas pelos deuses, nos nossos dias, é por intermédio do romance. Apaixonar-se é a experiência de olhar através daquela pessoa em particular e ver o deus ou a deusa que está nela.

No instante em que alguém se apaixona é bom que saiba que o ser amado é encarado como um ser absolutamente único e, por conseguinte, inatingível. Aí se dá conta da distância, da separação e da dificuldade de relacionamento. Também pode advir um terrível sentimento de inferioridade, tanto no homem como na mulher, quando descobrem que seu companheiro é um deus ou uma deusa. Solidão e isolamento se seguem.  

Excertos do livro She, de Robert A. Johnson, versão brasileira.

error: Content is protected !!