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Espírito Cristiano Ronaldo

20/06/2018

Já perdi a conta aos textos que escrevi sobre o Cristiano. Deveria ter uma categoria só para ele. É a figura pública que mais me inspira. Um verdadeiro herói, como os dos gregos.

E ainda há tanto para dizer… Ou o que mais se pode dizer? Só parafraseando o Guardian:

É beyhond comprehension.

No artigo, chamavam-lhe força mental e diziam que era o cérebro dele que deveria ser estudado. Eu chamo-lhe força emocional. E digo que, apesar de ficarem no mesmo sítio, a cabeça, cérebro e psique são coisas diferentes. O cérebro é objetivo, a psique subjetiva, embora haja uma série de coisas que se podem provar cientificamente. Ou, como diz Carl Jung numa frase belíssima:

It proved itself to me

No dia em que ia enfrentar o primeiro e mais decisivo jogo da fase de grupos do Mundial de 2018, sai uma notícia que diz que alegadamente concordou numa pena de 2 meses de prisão, que obviamente não cumprirá, e o pagamento de 18 milhões de euros ao fisco espanhol.

E ele vai e marca três golos a Espanha

Já para não falar na atitude durante todo o jogo, exemplar e manifestamente diferente da do Cristiano de 20 e poucos anos, com uma bola de ouro e o mundo inteiro a seus pés. É preciso ter uma grande cabeça para não se perder. Porque ele não se perde. e seria tão, tão fácil… Quantos aguentariam no top of his game, aos 33 anos, a bater records uns atrás dos outros, num desporto fisicamente exigente como o futebol, com a exposição mediática que ele tem? Planetária? Para além de estar a preparar-se para sair. Motivando a equipa, fazendo acreditar e lutar até ao fim, como faria um grande líder, um grande capitão. Que é o que ele é.

Ainda mais ajuda a foto que escolheu para ilustrar o jogo contra Espanha. E a legenda que lhe deu: Vamos família.

Só um verdadeiro herói para perceber que nada consegue sozinho

O que é inédito. A saída do individualismo puro e duro para uma coisa mais coletiva. Além de fisicamente não ter para ninguém, porque não tem, é o jogador mais completo que alguma vez se viu, ainda evoluiu psiquicamente, considerando a sua dimensão planetária e tudo quanto é dito e feito para o desmoralizar.

A ver se conseguimos, todos nós, absorver só um bocadinho daquela força emocional.

Esta força emocional, esta capacidade inacreditável de concentração, de não se deixar ameaçar por ninguém, muito menos se deixar levar por tudo quanto é feito e dito, vai, lá está, além de tudo o que é possível compreender. É escolher a voz certa para ouvir, de entre todas as que gritam na nossa cabeça. Um fenómeno. Como nenhum outro, tendo em conta todas as variáveis. E só não vê quem é completamente ceguinho…

Ainda por cima, e mais importante e inspirador que tudo, é nosso, o gajo. Que nunca, nunca renegou o país onde nasceu e o representa mais e melhor do que qualquer outro português. Ou os dez milhões de portugueses juntos…

“Your love makes me strong, your hate makes me unstoppable”. É possível:

Há que manter o espírito Cristiano Ronaldo, o nosso Magnificent 7,

“Até ao fim, c…”

E se perdermos?

15/06/2018

Não sei em que momento da sua História, Portugal começou a ter medo de existir. Entre os Descobrimentos e os dias de hoje, houve alguma coisa que se firmou no inconsciente coletivo português que faz que nos mantenhamos na média, na linha de água, a acharmos que precisamos de um pai, bons alunos, co-dependentes. Não sei quem nos convenceu de que somos pequeninos, que não merecemos bater-nos pelo que acreditamos, que a culpa é nossa por sermos fracos, que não conseguimos, que não chegamos mais longe, que não podemos.

Não sei quem nos convenceu a ter medo do sucesso, a ser preguiçosos, a fazer o mínimo para nos safarmos. Não sei quem nos convenceu de que ser bom é mau e o que é bom é ser desgraçadinho, de que não seremos gostados se formos bons, de que a preguiça é uma virtude e o chico espertismo uma qualidade. Não sei em que momento nos esquecemos das nossas qualidades, dos nossos talentos, do que somos bons a fazer. Não sei em que momento deixámos de o ser, desistimos de nós.

rapazes

Não temos de ser os melhores do mundo, da Europa, da turma, do bairro. Mas temos o dever e a obrigação de sermos o melhor que conseguirmos, de fazermos o melhor que pudermos com o que temos, frase que não me tem saído da cabeça ultimamente. E sermos reconhecidos por isso. Não nos temermos, não deixarmos que o monstro limitador e preguiçoso que mora na nossa cabeça nos defina. Mesmo que tenhamos de perder alguém pelo caminho, se perdermos, é porque não nos faz falta. Ler Mais…

Mudam-se os tempos, mudam-se os Heróis.

15/06/2018

No outro dia passou no AXN Black um filme com o Robert Redford já com uns aninhos, ao ponto de ainda ser credível que aguentasse carregar pedregulhos de um lado para o outro e o Mark Ruffalo não tivesse um cabelo branco que fosse e não se vislumbrasse uma ruguinha naquela carinha laroca.

Tenho visto tantos filmes que dou por mim a não aguentar os primeiros minutos da grande maioria deles. O que não aconteceu com este. heróis

The Last Castle é de 2001

E, apesar de já fazer parte do terceiro milénio, ainda preconiza o Herói como os gregos o idealizam: alguém que se destaca da média e que por isso é alvo de projeção positiva e negativa do resto da humanidade.

No caso, Robert Redford como herói e o resto dos presos como massa liderada. Apesar de a liderança já ser mais adaptada ao mundo moderno e às necessidades coletivas atuais, o protagonista aproveita e conta com as valências de cada um para melhor conduzir o seu intento, livrar aquela cadeia daquela liderança, ou seja, toda a gente participa, mas eu ainda sou especial. Em vez de uma quase anulação das particularidades individuais em nome de um líder único e isolado que sabe o que é melhor para nós, típico do patriarcal. Ainda é notória esta questão.

O que contrasta com Deadpool, de 2016…

Era filme que não veria, confesso… Mas passou este fim-de-semana na SIC e, porque já me tinha sido referenciado, gravei para ver depois.

Wade, Deadpool, o herói deste Marvel, é, apesar da fantasia que caracteriza este tipo de filme, um herói mais humanizado. Não tem a seriedade e a altivez do herói do tipo interpretado por Robert Redford. Esse distanciamento que implica inconscientemente de que só alguns podem ser heróis, de que é preciso ter nascido com e em certas condições para tal. É engraçado, tem todos os defeitos possíveis, o que vai induzindo que só assim se é herói, na vulnerabilidade da imperfeição, sem que esta implique ser incapaz para a vida. Ou que tenha, sozinho, de resolver os problemas da humanidade inteira.

Mais digno de nota ainda é o papel do feminino neste filme.

E que vem na linha do que já se tem vindo a fazer nos filmes para crianças.

A namorada de Wade, com quem termina por já não ser perfeito e por isso não desejado, para além de se salvar sozinha da caixa onde tinha sido presa, ainda salva o herói da morte certa, dando uma paulada no inimigo (papel que estava até então atribuído a um dos coadjuvantes masculinos).

Um feminino mais autónomo

E, no fim, mostra que tem uma palavra a dizer: aceita-o, mesmo não sendo perfeito, condição dos heróis de outros tempos, caracterizados por atributos físicos que vão nesse sentido: musculados, inabaláveis, indiferentes a quase tudo, como Aquiles, o herói da guerra de Tróia. Em Deadpool, Wade fica com o rosto desfigurado por causa de um procedimento para se livrar de um cancro, mais uma vez, o herói humanizado, que tem doenças, tal como o comum mortal.

Este tipo de heróis gera uma identificação maior. E que se adequa às necessidades e aos tempos atuais. Já não implica que depositemos as esperanças num salvador. Mas que nos apropriarmos das nossas capacidades para nos salvarmos a nós mesmos. E assim podermos viver e conviver por identificação, em parceria e companheirismo. Em vez de estarmos à espera de ser resgatados por alguém. Ou por um trabalho, um cargo, que nos tiranize. Disputando poder…

Somos heróis e somos deuses, sem com isso deixando de ser humanos e acima de tudo humanizados.

É o que nos pede o tempo presente.

Os Heróis e o Cinema

13/06/2018

O cinema segue sendo o meio mais eficaz para veicular informação e retratar momentos e movimentos sociais, psicológicos, culturais. Como tal, e apesar de usar arquétipos, o que quer dizer que temas e personagens, heróis incluídos, são universais e existem desde os primórdios dos tempos, acompanha as questões que estão debaixo de foco social. Na verdade, quase se antecipam. 

Prova disso são os filmes para crianças, da Pixar/Disney.

Como o Brave (2012), Inside Out (2015) Maleficent (2015) Moana (2016), Coco (2017), que desconstroem estereótipos arquetípicos de meninas dependentes e frágeis, aludindo a deusas vulneráveis, que precisam do relacionamento para sua realização, substituindo-as por outros, como o de Artémis (Brave e Moana), deusa independente. Que apelam ao equilíbrio entre o matriarcal e o patriarcal, humanizando a mãe (Maleficent), que humanizam os heróis, considerando emoções como medo, raiva, tristeza (Inside Out). Ou que exultam valores como o da família, em vez da conquista épica, o da colaboração, e não do individualismo, o da humildade (Coco).

Os filmes, os desenhos animados, são o primeiro contacto que as crianças têm com os símbolos do inconsciente coletivo e a primeira forma pela qual apreendemos conhecimento. O reconhecimento psíquico pelo símbolo tem um impacto mil vezes maior do que o que apreendemos pelo intelecto. Por ser inquestionável, não estar ao alcance da dúvida do ego. O que apreendemos pela arte – seja ela a música, o cinema, a literatura, que ressoa e nos transforma, nos traz paz, tranquilidade, reconhecimento, ainda que não consigamos explicar intelectual ou racionalmente, e que nos outros não tenha o mesmo impacto – é inquestionável, mesmo que não encontre eco nos outros.

O ego sucumbe sempre perante algo que se encaixa emocionalmente.

E o mesmo acontece com os filmes para adultos. Independentemente do género, que, na verdade, é o jeito pelo qual recebemos, aceitamos e acolhemos informação. E, por isso e nesse sentido, é eficaz, gostemos ou não. Apreender conhecimento de forma lúdica, criativa, intuitiva, sem necessariamente infantilizar, continua a ser a forma mais inteligente de passá-lo.

Nada de bom se consegue à força, negando essência e alma. Nada…

Os arquétipos continuam então a refletir temas e potenciais comportamentais, e a acompanhar os tempos. As necessidades sociais.

E hoje, é clara a substituição dos heróis épicos pelos heróis humanizados. Homens e mulheres, que, por sua vez, são representadas de forma cada vez mais autónoma. Não descurando ou negando o relacionamento, que faz parte da vida. Mas substituindo o padrão arquetípico. Que antes era de vulnerabilidade (Hera, Deméter e Perséfone), que já foi de independência (Artémis, Atena e Héstia) e que cada vez mais é alquímico, Afrodite, que reúne características de ambos os tipos de consciência: relaciona-se, mas não depende de um homem para se sentir realizada, para ser salva… Sendo livre para escolher. Saiba mais

cursos@isabelduartesoares.com

Há esperança na humanidade

12/06/2018

Dizem-se maravilhas da globalização, nela projectámos toda a esperança. Ao pôr ao alcance de todos realidades a que jamais teríamos acesso sem sair do lugar ou gastar uma fortuna em viagens.

E da Internet, enquanto veículo de informação para todos os gostos.

Nos últimos tempos, quem se fica por aqui, pelas redes sociais onde se emitem opiniões, como o twitter e o facebook, e até pelos jornais, alguns, pelo menos, fica com a sensação de que as únicas vias possíveis são a polarização: estás comigo ou és contra mim. Ou a alienação. Não estando nem aí para nada. Na verdade, apenas não têm paciência para discussões que não levam a lado algum.

Possivelmente sempre foi assim, mas, como só tínhamos acesso a conhecidos e colegas, era fácil: são nossos amigos, convivemos, são nossos colegas, aguentamos, tudo o resto, que se lixe. 

Hoje, somos invadidos por opiniões de desconhecidos o tempo todo.

E talvez pela situação que se vive em vários pontos do mundo, líderes radicais em países influentes, crises sociais e económicas violentas em países em vias de desenvolvimento, guerras eternas no Médio Oriente, gera-se esta polarização.

A dicotomia faz parte da evolução psíquica, que, consciente ou inconscientemente, vai obrigar-nos a integrar e a conviver de forma amena entre os opostos. Além disso, diz-se muitas vezes dos mais novos que não estão nem aí. Ler Mais…

Conflito

11/06/2018

Quando me deparo com um conflito lembro-me sempre de um texto* da Eliane Brum em que dizia que fazia questão de deixar o pózinho verde do chimarrão em cima da bancada da cozinha para irritar o marido, porque este embirrava com aquilo. E da convicção de muita gente de que é preciso entrar em conflito para nos sentirmos vivos, contrariar para nos afirmarmos, discordar sem mesmo saber porquê. Concluía que é melhor esse tipo de conflito, de questãozinha, já que não podemos escapar do confronto, do que discordar em questões de fundo.

Se a alternativa é essa, é melhor, de facto, discutir porque a pessoa deixa as meias onde não deve…

Sem querer encerrar-me em mim mesma e ao mesmo tempo não conseguindo escapar, para um INFP, o conflito é algo a evitar a qualquer custo. Exceto se estão em causa valores inquestionáveis, não negociáveis, inalienáveis. Aí, das duas uma: ou levamos tudo à frente ou nos retiramos.

O conflito desgasta-nos, acaba connosco, principalmente porque só acontece entre pessoas de quem gostamos muito e verdadeiramente. Com as outras, não nos damos a esse trabalho. Além de que não perdemos tempo com trivialidades. Por isso, é-nos impensável discutir por merdinhas… Já que, para nós, a questão é de significado. E o conflito, o confronto, só acontece quando nos sentimos ameaçados. Quando algo que nos é vital está em risco.

O conflito é inevitável, mas não precisa de ser forçado.

A vida já é difícil e desafiante quanto baste para forçar o que quer que seja.  Ler Mais…

Há vida para além dos opostos…

05/06/2018

Pior do que a literalidade que grassa por esse mundo, virtual e presencial, e que me faz revirar os olhos e quase desistir, é o pensamento dicotómico. Que diz que se falamos bem de uma coisa estamos invariavelmente a falar mal de todas as outras suas concorrentes. Que dita que uma coisa tem de ser melhor do que a outra, que para uma coisa ser boa, nenhuma das outras presta.

Há vida para além dos opostos…

A dicotomia parece ser ainda mais gritante, e particularmente irritante, em grupos. Por isso não sou chegada em coisas em grupo. Cansam-me. Tanto ou quase quanto me cansam as pessoas e as suas coisinhas, as suas manias, as suas insegurançazinhas, os seus egozinhos cheios de medinho. As suas certezinhas, as suas insistências. O nada se poder dizer sem que seja contestado. Como se tudo se tratasse de opinião. A unanimidade mandatória, a discordância a única forma de sobrevivência. E a existência fosse passível de mudança.

A existência pede profundidade…

E os grupos escancaram, trazem para cima da mesa, toda a minha introversão, a minha sensibilidade, a minha necessidade absoluta e incondicional de ligação, de conexão, de significado, de transcendência, de fusão, de comunhão absoluta e intransmissível. E a consequente frustração.

A dicotomia é a segurança dos fracos, dos tediosos, de gente pouco criativa. A quem falta mundo, imaginação, sensibilidade para ver além do óbvio. O fascínio pelo mistério. A magia…  

Sensibilidade essa que é uma bênção e uma maldição

Uma bênção porque permite uma conexão além das palavras; uma maldição porque, uma vez lá, nada mais importa aqui. Só quero viver para isso, aí, na transcendência, na plenitude, no maravilhamento, na conexão total, na paz absoluta que daí advém, me invade, toma conta do meu corpo e da minha cabeça, fazendo de mim uma só.

Só aí quero viver…

Tudo o resto me é tedioso e a mundanidade mata-me aos poucos. Há uma série de coisas, pessoas ou lugares que já não preciso de experimentar. O que me mantém viva funciona como uma espécie de pára-raios da alma. Capta, e filtra, o que e quem vale e não vale a pena, acrescenta e é uma perda de tempo.

É muito difícil ter sensibilidade nesse planeta, dizia-me a M um dia destes, em que desesperava pelo whatsapp com alguém que estava a um oceano de distância. E que me lê melhor do que eu, às vezes.

Sensibilidade não é ser flor de estufa

Sequer nos tratamos de génios incompreendidos. Mas não nos safamos da sensação de isolamento. Que nos mata a cada vez. De que a maioria é daqui e de que somos de um planeta distante. Principalmente em grupo, sempre, sempre em grupo. O grupo é o maior inimigo dos introvertidos, apesar de ter desenvolvido uma persona que em nada revela a minha introversão e timidez. Deus me livre da obviedade.

E, enquanto “o gado vai engrinaldado para o sacrifício”, sigo nessa busca. Já não tão solitária assim. Com a diferença de que agora já sei o que procuro e o que quero. Só preciso de parar de perder tempo com uns e não desistir dos outros. E de me certificar que o pára-raios segue afinado…

Se a maioria não consegue ver a curva do mundo numa planície no Alentejo, o problema não é certamente meu…

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