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Talvez o mundo esteja mesmo a mudar

25/02/2019

Talvez o mundo esteja mesmo a mudar, e os artistas da música e do cinema façam um pouco mais do que autodestruir-se, consumindo drogas e álcool até à morte.

Talvez por isso o Last Days do Gus van Sant seja uma chatice.

Sequer faz sentido no novo milénio, que já leva 20 anos, quase. Já não há paciência para o discurso do  desgraçadinho… Muito menos para o mutismo do desgraçadinho… E me custe tanto ver  Johnny Depp na situação em que se encontra. Envelheceu pessimamente…

A criatividade está diretamente relacionada com a ausência de freio, a escalpelização de dores, agruras, crises de identidade e este existencialismo que nos mata.

Tudo em prol de uma busca por um propósito maior.

Conseguido à custa de estupefacientes vários, que são bons porque nos conectam além do ego, abrem espaço para outros níveis de consciência. Mas que se tornam algozes, por nos fazerem cair na apatia, no miserabilismo, na autocomiseração, no vitimismo.   

Tornando-nos feios, decadentes, massacrados por anos de maus-tratos autoinfligidos.

E com uns dentes péssimos…

Talvez o glamour da decadência já não atraia tanto e os artistas modernos se voltem para causas nobres, como o ambiente, a politização, os direitos humanos, entre outras. Não para salvar o mundo, como o sem noção do Bob Geldof, mas para o tornar mais consciente. E usem a sua imagem para se associar a algo que o mude, fazendo com as suas vidas um pouco mais do que a criação e a dedicação à arte. Que já não é pouco. Mesmo que as causas não me digam grande coisa. E talvez os torne um bocadinho chatos, às vezes, por causa da perfeição que não existe em ninguém, nem mesmo no meu querido Sam Heughan.

Talvez os heróis sejam outros

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Gillette: o melhor para o homem (e a mulher…)

21/01/2019

Mal anda o mundo em que um anúncio, bom, ainda por cima, que diz basicamente não à violência, ao abuso, à prepotência da força bruta sobre a liberdade individual, gera controvérsia, polémica, ódios generalizados e desgostos em barda.

O mundo anda polarizado e não é de hoje.

Especialmente em relação ao tema homens e mulheres. Há muito desconhecimento, muita agressão mútua, muita vitimização, muita defesa e ninguém ouve ninguém.

Anda tudo em modo reativo, tipo cão de Pavlov. 

A questão é, obviamente, muito mais profunda do que uma mera e eterna guerra dos sexos. É do masculino (poder) e do feminino (amor) que se trata. Esse está em homens e mulheres. E é esse equilíbrio que é necessário. Primeiro em cada um de nós e depois nos nossos relacionamentos, sejam de que tipo forem.

Movimentos como o #metoo não ajudaram muito

O que começou como um alerta para tomadas de consciência maiores, tornou-se numa tentativa de domínio das mulheres sobre os homens. Homem nenhum aceita isso. E há imensas mulheres que também o recusam. Sem necessariamente serem machistas, apenas não querem perpetuar a vitimização. O que as afasta ainda mais das suas congéneres.

Vamos parar de dividir o mundo entre bons, os que concordam connosco, e maus, os outros.

A coisa chegou a um ponto em que teve de aparecer um manifesto, encabeçado pela Catherine Deneuve entre outras personalidades, para travar uma onda de gente que se aproveitou de um movimento válido e necessário para expiar a neurose, não se coibindo de acabar com a vida de uma série de gente inocente.

Para lembrar que ambos têm de aprender a coabitar.

Os tempos foram ingratos para as mulheres? Foram. Uma merda. A cultura dominante foi abusiva. No entanto, foi o que foi e não dá para apagá-la da História da Humanidade. Mas também não dá para compensar, cometendo o mesmo erro. É um guerra que não tem fim e todos perdemos.

O que dá é para tentar equilibrar. Ajustar. Corrigir a rota e seguir em frente.

Queria deixar isso claro aqui: nós continuamos a querer os nossos homens masculinos. Mais masculinos do que nós mesmas, por favor. Pela parte que me toca, e a muitas mulheres, nós não queremos dominar-vos, que percam um milímetro da vossa masculinidade.

O nosso objetivo primeiro e último é de aproximação, de equilíbrio, de amena convivência. Não de domínio, subjugação.

Essa agressividade toda, essa coisa de controlo, de poder, isso vocês deixam para o desporto. A arte. Não para o relacionamento. Ou para a resolução de conflitos. Relacionamento nenhum vinga sem a presença do feminino.

O feminino equilibra a força bruta. Dá uma temperada na cabeça, impede o radicalismo da lógica, do intelecto, dá-lhe humanidade com a emoção e o sentimento.

Essa coisa da masculinidade entre os pares, equilibrem-na com o feminino. No fundo, no fundo, vocês sabem que muitas vezes é só infantil. Insegurança, coisa de adolescente que tem de provar que é macho.

Já o feminino precisa por sua vez de equilibrar emoções transbordantes com a razão e a lógica.

No fundo, no fundo, ambos temos muito trabalhinho pela frente e, curiosamente, estamos na mesma batalha: fazer as pazes com o feminino. Aceitá-lo, em vez de o temer. Incluí-lo, em vez de tentar anulá-lo, castrá-lo.

Temperança, meu povo, temperança…

E, em precisando de inspiração, é pôr os olhos no Jamie Fraser. O herói de Outlander, magistralmente interpretado por Sam Heughan, é o caminho da evolução do arquétipo do masculino. Não ter medo do que sente.

De o viver e de o expressar.

O gajo mais sexy que conheço usa saias. E andam vocês aí preocupados com a vossa masculinidade e com medo das mulheres. Ponham os olhos no Jamie Fraser, senhores. E nada temam, homens deste mundo.

No fundo, do que todos temos medo não é das mulheres nem dos homens. É do feminino, do que sentimos, porque isso faz uma confusão danada à cabeça, que é impotente perante a força do Amor, a única que nos leva para um lugar mais próximo de nós. Nos conecta, nos vincula e nos une, verdadeiramente.

É a harpa (feminino) que nos une, não a espada (masculino).

Solidão e solitude

14/01/2019

Para um introvertido, a solidão é lugar sagrado. Vital, de verdade. É o que nos permite criar, discernir, fora do ruído externo, o que nos é ou não precioso. É o meio de nos conectarmos connosco. E o espaço de que precisamos para respirar. Por isso, a minha solidão, ainda que esteja habituada a ela, é o que me salva. Não me faz impressão alguma. Prefiro-a mil vezes a estar sozinha numa sala cheia de gente, que não me diz nada e se alimenta de conversas vazias, de maledicência, de coscuvilhice, de assuntos do mundo, em discussões acesas que escondem vulnerabilidades imensas e nos isolam ainda mais.

Os introvertidos precisam de ficar sozinhos para conseguirem sobreviver no mundo.

Mas a solidão dos outros faz-me impressão.

Principalmente durante as festas, o Natal.

Se o ano novo concebo passá-lo sozinha, encho-me de tristeza de saber que outros o passarão. O Natal é-me inconcebível. Embora prefira passá-lo sozinha, apesar de me custar, a fazê-lo com famílias que não são a minha, por piedade, sem presentes nem histórias comuns, por mais que adore ouvir histórias das vidas dos outros. Histórias que marquem momentos, que definam caráter, que determinem escolhas. Custa menos a passar.

E na doença, e na velhice.

A solidão entre os doentes e os velhinhos, por estarem vulneráveis no seu ponto máximo, parte-me o coração.

Também me faz impressão a solidão na morte. O estarmos entregues a estranhos, porque os nossos não conseguem aguentar a nossa impotência e a inevitabilidade do fim. Faz-me impressão, imensa, saber que morreremos sozinhos, sem ninguém para nos dar a mão. Um beijinho na testa de boa viagem, nada…

À minha solidão, chamo-a pelo nome. À dos outros, embora fosse a pessoa que melhor a compreendesse, chamo solitude. Por me parecer sempre involuntária, mais uma resignação. Ou talvez seja ao contrário. A primeira involuntária e a segunda escolhida, ainda que por necessidade. Embora o dicionário as dê como iguais.

Estar sozinho requer alguma coragem.

A reclusão pode ser assustadora, somos nós sozinhos com os nossos demónios. Mas também é lugar de paz, e de vida. Uma vida imensa. Que sai da escuridão onde coabitamos. Porque, na dança com os nossos demónios, os corpos fundem-se e tornamo-nos num só. E, nessa fusão, novos seres surgem. Criativos, luminosos, cheios de cor, fantasia e liberdade.

A fantasia também é realidade.

É uma realidade diferente da do mundo das notícias. Mas é uma realidade total, por ser a nossa. Com tudo o que a compõe. Fantasmas, escuridão, desejos ocultos, fantasias insanas, mundos incríveis onde tudo acontece.

A idade vai dando uma convicção cada vez maior de que os fretes não valem a pena. Que nada compensa a sensação de estar num lugar onde não nos sentimos confortáveis. Muito menos com gente que pouco ou nada nos diz.

Ficar sozinho talvez requeira apenas resignação. E, para essa, talvez seja precisa ainda mais coragem…

A morte

09/01/2019

Desde que o meu pai morreu, perdi o medo de muita coisa, inclusive da morte, o tema mais tabu da sociedade ocidental, juntamente com o do dinheiro. 

É a coisa mais natural do mundo.

Não sou como os antigos, não a cultuo, não me preparo, sequer penso nela e não me apetece morrer já. Mas digo com alguma frequência que não quero ficar aqui muito tempo. Lá para os 70, quero pôr-me a andar para outro mundo.

Odeio a ideia de dar trabalho, e despesa… De ser dependente, de me ver perder capacidades, físicas e acima de tudo psicológicas. Assusta-me muito mais a ideia de velhice do que da morte. De ficar abandonada num sítio qualquer, a perecer sozinha ou na companhia de estranhos. As pessoas nunca se calam e raramente dizem alguma coisa de jeito.

Mas, a cada vez que falo nisto, como a coisa mais natural do mundo, tenho sempre reações disparatadas, que não me permitem continuar o delírio.

Tenho um amigo, exatamente da minha idade, que quase me bate quando abordo o assunto.

Dizia no outro dia que não quereria quimioterapia, por exemplo. Mas também não quero dores. Opto pela morfina. Se é para estar doente, que seja com uma moca gigantesca, a ver se me esqueço.

E se tivesse de escolher, talvez Alzheimer.

Que é mau para quem fica, mas deve ser fixe para quem tem, viver num mundo próprio, só nos delírios mentais e em todo o manancial de memórias armazenadas no cérebro. Poderia dizer tudo o que me passasse pela cabeça…

Haveria de me rir imenso…

E, espero, fazer os outros rir também.

É das coisas que mais me fascina, o misterioso mundo da psique. Que escondemos de tudo e de todos e só numa situação dessas seria possível conhecer.

Aposto que o meu seria cheio de poesia…

Não tenho filhos. A maioria das pessoas, ao fim de uma semana, está de volta às suas vidas. É uma questão de sobrevivência. Por isso, é na boa.

A morte é uma libertação…

Bird Box

06/01/2019

A depressão é a sensação de estar isolado num mundo cheio de gente. É viver no meio das pessoas e sentir uma solidão imensa. É impedir que os outros cheguem perto, o que só aumenta essa sensação de solidão e de isolamento.

Aliada à frustração

Uma enorme frustração. De não ser visto, olhado, compreendido. 

Esse isolamento bloqueia a conexão, o vínculo, o relacionamento.

É uma castradora da liberdade de viver, de nos relacionarmos, de amar…

A resistência à influência do coletivo é uma proteção, também. Já me safei de um ataque de pânico no meio do metro de Entrecampos, quando vi toda uma massa de gente a caminhar sem freio, pareciam autómatos, na minha direção. E o meu único instinto foi olhar para o chão e seguir caminho até chegar à rua. Foi o que me salvou. Às vezes é preciso baixar os olhos, ou fechá-los, à influência da massa, para não sermos engolidos por ela, nos perdermos de nós, nos mantermos sãos.

Bird Box é sobre isso.

Chamar alguém pelo nome é reconhecer-lhe a existência. A identidade. Quando nos reconhecemos, vinculamo-nos.

E sobre conexão. Sobre ir além do medo. De nós mesmos e do nosso mundo.

Não viver por medo não é viver, é sobreviver. Sem os riscos inerentes à vida mas também sem os seus prazeres. Descobertas, perplexidades…

E sobre o sonho…

Não sonhar é estar morto em vida. E sonhar é manter a esperança, espelhada nas crianças, que são o futuro do mundo. Que é o que nos mantém vivos.

A protagonista, que sofre de depressão, é a única que resiste à tentação das vozes. Da luz que mata ou enlouquece. É a única que sobrevive. Que não é vulnerável às influências nocivas dos outros. Essa não vulnerabilidade é o que a salva, afinal… A única capaz de segurar as crianças. Resgatando o seu instinto materno, que a mantém ligada à vida. A que se refere simbolicamente também o ninho, em cima de uma árvore, sem as quais não há oxigénio, nem vida… A capacidade de aguentar, de resistir, de sobrevivência de um deprimido é maior do que a de qualquer um dos outros. A força interna, apesar de tudo, também.

É possível olhar para dentro, cegos, de um jeito criativo e não auto-destrutivo, como é o caso da depressão, e ainda assim co-existir, em comunidade. Ela sobrevive porque os três se mantêm juntos. E viver sem tecnologia, que muitas vezes nos aliena do contacto verdadeiro com os outros, muito visível nas crianças, que brincam umas com as outras.

E os pássaros, livres para voar, mantêm a conexão com os instintos, que lhes garantem a sobrevivência, porque os alertam dos perigos, que evitam sem questionar. Como todos os outros animais.

Susanne Bier só faz filmes bons, sobre o que verdadeiramente importa. E este não escapou.

Jung, Freud e o masculino.

09/12/2018

Ao voltar de um fim-de-semana em que dancei [com] os meus medos, no domingo passado, vinha eu na A5, ocorreu-me, do nada, o motivo da briga eterna entre Freud e Jung. Que coincide com o tema arquetípico do masculino.

A relação com o pai 

Freud, por algum motivo, certamente narcísico, via Jung como seu discípulo e, na sua fantasia, igualmente narcísica, enfiou na cabeça que Jung haveria de ser o seu fiel seguidor, cuidando-lhe do legado, não querendo deixar espaço para que este decidisse por si o que fazer com a sua vida.

Jung, que tinha mais que fazer, a sua pulsão de vida era mais forte do que tudo o resto, inclusive a ordem estabelecida, atreveu-se a pensar pela própria cabeça. Ouviu a voz que fala baixo, quase em surdina, mas que é mais eficaz do que todas as outras, a do Self. Permanecendo fiel aos seus instintos mais viscerais, manteve-se firme nas suas pesquisas, atendendo pacientes e investigando, até fundar a sua própria linha de psicologia, a analítica.

O complexo de Zeus de Freud não perdoou

E Jung, felizmente, não caiu na armadilha do filho que quer a aprovação do pai e que, para tal, tem de deixar de viver a sua vida, a vida que está à sua espera, para realizar sonhos não cumpridos do pai.

Enfrentou-o, como qualquer filho tem de fazer, mais cedo ou mais tarde…

E qualquer pai tem de aceitar, a bem ou a mal, que o seu filho é uma entidade única que, eventualmente, lhe poderá fazer sombra. Ou que terá sonhos próprios, ideias próprias, que terá de viver.

Não se falaram até ao fim da vida, caíram no mais básico complexo de todos, que também é o tema do masculino. Nenhum cedeu, quem perdeu foi a psicologia. Ganhou o patriarcado, tão ao gosto de Freud, que valorizava o masculino acima de qualquer outra coisa. Negando em absoluto o feminino. O dele e o dos outros. Vendo-o inclusive como algo ao serviço do masculino. Numa busca incessante por poder e autoridade.

E que, por isso, passou à margem da vida.  De uma série de vivências e de experiências.

Anos e anos depois, continua a ser a referência para a psicologia. Anos e anos depois, continuamos a sofrer do mesmo mal, a primazia do masculino sobre o feminino.

Feminino esse que seria a chave para o masculino lidar com o seu complexo de autoridade e de poder. Não só na função de olhar para dentro, como na de ver além disso. Com o amor como motor de mudança.

Jung propõe juntar os dois e aguentar a dinâmica das forças opostas na psique individual. A batalha é dura, mas a luta está longe de ser inglória.

Sigmund Freud: Hmm. I had a most elaborate dream last night. Particularly rich.
Carl Jung: Let’s hear it.
Sigmund Freud: I’d love to tell you. I don’t think I should.
Carl Jung: Why ever not?
Sigmund Freud: I wouldn’t want to risk my authority.

Foi nesse momento que a perdeu…

Citação e imagem do filme: um método perigoso

Mundo Interno e Mundo Externo

24/11/2018

A importância da ligação permanente entre o mundo interior e o mundo exterior. Reconhecer a preciosidade destas palavras, principalmente o que se diz depois da fala de Jung, é alento suficiente.

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