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Livre

Culloden Moor

04/11/2019
No cinema, quando chove, é sinal de que vai haver uma mudança. 

A caminho de Culloden Moor, choveu. Na volta, enquanto espero pelo autocarro para me levar de volta a Inverness, chove. Copiosamente. Mas não caiu uma gota de água durante todo o tempo em que percorria o campo de batalha de Culloden à procura da pedra do clã Fraser.

A prayer for you, Jamie Fraser.

Enquanto esperava pelo autocarro para ir, comovi-me.

Não sei se foi por ter esperado por isto tanto tempo, se porque as Terras Altas mexem comigo mais do que estava à espera.

É inexplicável, a não ser pelos arquétipos.

Sempre que nos comovemos sem motivo aparente, sem nada que o justifique, mesmo quando já deixámos de tentar entender ou justificar, e apenas nos limitemos a sentir, e a deixar as lágrimas correr.

Algo nos toca, muito além do ego, do intelecto e da consciência.
Sentimos que temos de ir a um lugar específico, nada nesta vida que o justifique, e essa ideia não nos larga.
Há um arquétipo que foi constelado.
Está a ser vivenciado.

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Escócia

03/11/2019

Veem-se muito mais referências a Game of Thrones, que ainda por cima é filmado na Irlanda, e a Harry Potter, a JK Rollings é escocesa, ia jurar que era inglesa, até com isso os ingleses ficam, dizia o Kev ontem, do que a Outlander, nas ruas de Edimburgo.

E onde nasceu Mary Queen of Scots. Escócia, 2019.

Descobri porque a série faz muito mais sucesso nos EUA.
E em Portugal, cuja estreia acontece uma semana depois da premiére nos EUA, apenas para dar tempo de legendar, e noutros lugares do mundo, mas não tanto na Escócia ou Inglaterra, onde a terceira temporada estreou apenas há pouco tempo, segundo a minha correspondente oficial em Londres.
Quando começou a ser transmitida no Reino Unido, os movimentos pela independência da Escócia aumentaram. O guerreiro Jamie inspirou o seu povo ao ponto de 67% dos escoceses votarem Remain, no referendo do Brexit. Apesar de, na última votação pela independência, esta perdesse por muito pouco.
Mas vai passar, mais tarde ou mais cedo.
Achei estranho que na maioria dos edifícios públicos e monumentos oficiais, como os castelos, a bandeira da Escócia não estivesse hasteada. O meu guia explicou-me porquê. Não é permitido… Ao ponto de num dos raros casos em que a vi hasteada, a meio do edifício, havia uma bandeira da Union Jack no topo do mesmo.

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A gentileza dos estranhos…

02/11/2019
Para lembrar que podemos sempre contar com a gentileza dos estranhos…
 
Tinha acabado de ler um comentário direto na alma, que me comoveu até aos ossos. E, como tem acontecido amiúde, as lágrimas corriam-me soltas pela cara abaixo.
Aqui ainda não havia acontecido, tinha de ser em público…
 
Nesse momento, estava num bistrô, de costas para a rua e de frente para o espaço. Raro em mim, mas de outra forma ficava muito exposta ao frio. Além de que me dá um certo nervoso ter gente atrás de mim.
Escolho sempre os lugares onde posso encostar-me e observar.

O que parecia o gerente, um charme, por sinal, veio do balcão até mim perguntar se estava tudo bem. Teria certamente reparado que levava de vez em quando a mão à lombar, pois perguntou-me se estava com dores nas costas. Falámos um pouco sobre isso, também ele padece do mesmo mal…

Edimburgo, Escócia, Out. 2019. 

Entretanto, tinha entrado um mocinho que se havia sentado, não na mesa ao lado da minha mas na seguinte. Ganhou logo pontos.
O que eu amo gente com noção de espaço pessoal…
O gerente tira-lhe qualquer coisa da camisola e, perante o olhar meio surpreso do rapaz, disse: a partir do momento em que entram por aquela porta, estão sob os meus cuidados. Ela com as dores nas costas, tu com não sei o quê na camisola. A espontaneidade dele fez-me rir às gargalhadas, talvez um pouco exageradas, mas o suficiente para misturar essas lágrimas com as outras e assim as disfarçar.
 
O rapaz, que por sinal era bem giro, pergunta-me se quero analgésicos.
Perante a minha cara de espanto, esclarece-me: ando com eles porque estou de ressaca. Talvez possas tirar dois. Depois de garantir que não lhe fariam falta, aceitei. E ainda falámos um bom bocado. Perguntou-me se me sentia melhor, respondi que na verdade sim, as dores, que nunca chegam a passar completamente, parecia que tinham desaparecido. Ele distraiu-me, da dor física e de alma, foi o que lhe disse. Ao que ele concordou: sim, temos de distrair a cabeça.
No dia anterior havia sido um segurança de um bar.

Que, não sabendo responder à minha pergunta, indicou-me um velhinho, porteiro de uns bares mais à frente, que era de Eddie e sabia tudo sobre a cidade.

Edimburgo, Escócia, 2019.

 
Velhinho esse de uma gentileza tal que veio comigo até à paragem de autocarro, estava um frio desgraçado e já tinha anoitecido, por isso optei por pedir indicações em vez de tentar descobrir por mim, e, depois de constatarmos que o meu autocarro não passava ali, explicou-me como poderia ir até à Prince St., onde certamente me safaria. Dizendo que era só subir a Victoria St. e virar à esquerda.
Protestei um pouco: a hill?
Ao que me respondeu: come on, you are a fit young lady, you can do it. São 10 minutos de caminhada e demoras menos tempo a chegar. (A alternativa era apanhar um autocarro e depois o meu). E eu fui, com a confiança de que precisava e um sorriso enorme, agradecendo a imensa gentileza.
 
Hoje, domingo, aquele dia estúpido em que não se faz grande coisa, está mais um dia de sol em Edimburgo. E eu saí para caminhar.
Sob outra luz, o mar da Escócia ganha outros tons.

Vida

09/10/2019

Eu não tenho medo da morte. A morte vem e acabou, medo de quê? É por não se saber o que está do outro lado? Pelo medo do fim? Foda-se, ninguém quer saber. Além de que não há grande coisa que se possa fazer em relação ao destino de todos nós.

A vida é que me dá trabalho.

Um trabalho que ultimamente me tenho perguntado com demasiada frequência se vale a pena. É um exercício de masoquismo, este. Porque não me dá grande alternativa. A alternativa seria acabar com tudo, mas não acho que se justifique. Para tal, é preciso perder toda a esperança. Ou não dar aquele tempo suficiente para passar. Sair da espiral que leva ao abismo e que nos impede de ver mais longe. Que nos faz esquecer que não dura para sempre. E a esperança, que não faço ideia de onde vem porque na verdade não a sinto, sequer sei de quê, ainda mora aqui. Deve ser um instinto de sobrevivência qualquer a que a existência me obriga. Como se o cérebro, que durante o resto do tempo anda distraído com outra coisa qualquer, nomeadamente a atormentar-me, e todo o resto do corpo se juntassem para nos manter aqui, porque a vida é soberana e todo o tipo de merda que se diz a ver se evitamos lidar com ela, de verdade. E connosco, já que falamos nisso.

É muito bonitinho o que o Ricardo Araújo Pereira diz em relação ao humor e à morte. E daí, nesta parte, talvez seja em relação à vida. Vinha na mesma linha de discurso. O humor é uma forma de dizer à vida, depois de esta nos dar chapadas consecutivas, ou uma sova daquelas que nos deixa de cama três dias: não doeu… Ler Mais…

Outubro

08/10/2019
De Alcantara Mar a Alcantara Terra é outono o ano inteiro

A travessia de Alcantara Mar para Alcantara Terra faz-se, quase a trote, por uma passadeira onde raramente passam carros.

De um lado, um stand e outros espaços, a grande maioria, enormes e vazios, como que abandonados. Qualquer dia voltamos aos ocupas, por causa do preço das rendas. Mas agora são famílias inteiras.

Em vez de meia dúzia de janados.

Do outro, a cobrir as grades que dão para a linha do comboio, que por sua vez dá para a estrada – onde há sempre carros a uma velocidade superior à desejada – há árvores, arbustos, não sei bem. Mas sei que a estrutura é comprida e alta. E não baixa e bojuda, como a dos arbustos.

Quem vem do Mar para Terra, os primeiros parecem alfazema, liláses e esguios, como as espigas. As segundas, as minhas preferidas, não sei o que são, mas têm bolas da cor do outono. Como a dos seus troncos, que despontam em várias direções.

Não me importava de tê-las em casa o ano inteiro. Troncos e tudo.

O ano para mim recomeça sempre em outubro. Este é o sexto texto com este título. O wordpress conta automaticamente e deixa-me manter o título que quero, só lhe acrescenta um número, sempre diferente.

Além de que ainda sou do tempo em que setembro fazia parte das férias grandes…

Outubro é o meu mês, mas não é só por isso que é o mês mais bonito do ano. É porque tem as cores mais bonitas.

Sentido

04/10/2019

Um dia destes, dei por mim a pensar que as pessoas espirituais e/ou religiosas têm a vida mais facilitada do que a de quem não acredita em grande coisa.

Numa força superior, que cuida e sabe o que é melhor para nós. 

Que nos conhece e ao sentido da nossa vida. E tudo o que nos acontece faz parte dos seus desígnios. Que estamos aqui para aguentar. Mas ao menos não estamos sozinhos. Nem o fazemos em vão.

Pois tudo isto tem um propósito maior.

Mesmo sabendo o sentido, e tendo como principal religião a psicologia junguiana, que prevê essa figura divina, esse arquétipo, a quem chama Self e que mora em cada um de nós. É quem sabe qual o propósito da existência individual.

E principalmente em momentos de crise, em que duvido de tudo, até da fé…, dei por mim a sentir uma certa invejinha dessas pessoas. Cuja existência não parece atormentá-las tanto.

E senti-me ainda mais sozinha do que é costume.

Acresce que sou INFP, ou seja, não vivo sem um sentido. Só que o sentido que descobri para a existência agora já não me chega.

Essas pessoas acreditam mais em mim do que eu.

Têm mais fé em mim do que eu, que conheço o tamanho do meu mostro da preguiça e o meu parasitismo emocional. E têm um motivo para acordar todos os dias. Eu, às vezes, não tenho… Ler Mais…

Bucket List

01/10/2019

Bucket list dos meus gajos preferidos:

Ricardo Araújo Pereira: check.

Só falta o @cristiano e o @samheughan

RAP? 😍😍 coisa mais fixolas ever ♥️

Só consegui dizer-lhe uma palavra…

Queria dizer que ele era o Cristiano do humor, mas só me saiu um: olá.

Não se vê, mas estava a tremer. E assim fiquei até chegar ao carro.

Mas valeu. E ele é querido.

E perfeito, benza-o Deus…

Um grama de gordura naquela barriga… 

Quase lhe disse que nem ele era de esquerda, era isso sim um liberal. Mas não disse…

Ricardo, se estás a ler isto, é isso :) 

O tradutor*, esse bicho. 

30/09/2019
Quem é o tradutor? Ninguém sabe, ninguém viu. É aquele que se esconde atrás das palavras dos grandes autores, que leva esses grandes autores até si, caro leitor. É um bicho solitário, que passa horas e horas no seu cafofo, com os olhos vidrados na tela, envolto em dicionários, manuais e o São Google, e, ainda assim, chateando meio mundo com perguntas técnicas. É esse bicho aí. Ninguém sabe quem é, por isso é fácil culpá-lo. Culpá-lo por todos os males do mundo, dos livros, da TV e do cinema. Esse bicho…
Tradutor não é reconhecido. Nunca.

Só pra dizer mal, aí o tradutor é lembrado. Pô, viu que bosta de tradução pra esse título? Já me fartei de pregar pela blogosfera e pela vida afora: quem decide os títulos dos filmes são as Distribuidoras…

Tradutor também não é lembrado na hora dos direitos de autor. Que seria dos russos se não fossem os tradutores? Dos gregos? Da Bíblia? Quantas e quantas vezes é reeditada uma tradução, e o tradutor só recebe a primeira? E mal… No mínimo sermos incluídos na categoria Direitos de Autor do IRS, para nos livrarmos do IVA. Ao menos isso…

E pior, toda a gente, toda, opina sobre o trabalho do pobre bicho sofrido e solitário. Toda a gente faz melhor. A pessoa estuda 4 anos disto, trabalha 15 e não sabe nada, mas o povo acha que faz como quem faz sudoku, enquanto vê a novela.

Você não paga médico? Advogado? Dentista? Mecânico? Electricista? Canalizador?

Então, um tradutor é um especialista em pôr coisas de uma língua para a outra, de forma a que façam o mesmo sentido, em ambas as línguas. Se for bom, como o Graça Moura [nem sei se é tradutor oficialmente, a ele chega-lhe a veia de escritor, a inteligência e a humildade. São os únicos a quem é permitido traduzir, aos escritores], você não dá por ele. Ou como os Guerra, que traduzem Dostoiévski em Portugal. Benz’os Deus. É para isto que um gajo estuda, é pago, sofre e não dorme. A cada palavrinha, cada insónia. Horas a pensar na dita, dias a pensar no tema, meses, quando se trata de um livro, ou pelo menos assim deveria ser. E mal pago. Tudo isto é muito mal pago. E feito em muito pouco tempo. Os livros não merecem ser traduzidos à pressa. Mesmo os maus… Muito por culpa de muito picareta que anda aí a gritar que é tradutor. São esses que devem ser insultados, mas não chamados de tradutor. Isso não é uma ofensa, é um elogio.

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O ego e a identidade*

10/09/2019
Tornarmo-nos quem somos é um processo.

Construirmo-nos e diferenciarmo-nos.

É isto que o ego é chamado para fazer. E esse constitui o processo de construção da nossa identidade.

O ego precisa de diferenciar-se em vez de se identificar com outras presenças arquetípicas na psicologia. Precisa de se perceber distinto da persona, da sombra, da anima (animus) e até, muito importante, do arquétipo do Self.

Mais uma vez, paradoxalmente, é o ego o chamado a adquirir consciência.

Outra forma interessante de pensar no ego, modelo junguiano, é como uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo, entre a alma e a persona. E a respetiva mediação entre os dois mundos.

O ego desempenha um papel heróico na nossa psicologia.

Carrega o fardo, é chamado para ser corajoso, é quem embarca na jornada do herói (por isso ela é tão importante, fortalece o ego, dá-nos autonomia), que é uma expressão metafórica do processo de individuação, na psicologia junguiana.

Há uma tensão entre os nossos valores (a nossa ética interna) e os nossos desejos e aversões.

E, enquanto ego, és chamado a mediar essa tensão.

*Título e tradução minhas, de excertos do mesmo artigo de Stephen Farah.

**Créditos fotográficos Inês Zagalo, que postou esta foto no insta ao mesmo tempo que eu andava à procura de fotos de pontes sobre riachos no google… A minha vida tem sido sucessões disto…

Sobre o amor próprio*

09/09/2019

Digamos que internalizamos a ausência em vez do amor.

O amor próprio é um componente essencial num ego saudável.

Precisamos necessariamente de nos vermos com os olhos do amor. De cuidar de nós mesmos. De ser o parceiro de nós mesmos.

Os pais de nós mesmos.

O amor próprio é o que permite aguentar adversidade, dúvida, crítica, e fazer o esforço necessário para viver neste mundo. E aguentar o que com frequência pode ser muito desafiador. De uma forma simples, o processo de estar vivo.

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