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Fantasia

17/03/2019

Andava há que tempos a tentar entender a minha embirração com o Carnaval, a fantasia e tudo o que implicasse bailes de máscaras. Percorri todos os traumas e vivências alusivas à data e, ainda que fossem belíssimas explicações racionais, nunca chegaram a convencer-me verdadeiramente.

Não há melhor fonte de inspiração criativa do que o caminhar

Melhor ainda do que tomar banho ou lavar os dentes…

E foi precisamente quando deveria estar a pensar noutro tipo de soluções criativas, a caminhar, que me ocorreu o motivo da minha profunda embirração, e até algum nervoso, com o tema carnaval, máscara, fantasia…

A fantasia é coisa séria para um introvertido. Sagrada, até…

O mundo interno é o que temos de mais nosso e de mais precioso. Onde dificilmente deixamos alguém entrar. E é raro partilharmos o seu conteúdo, mesmo com gente de quem gostamos e com quem mantemos alguma intimidade.

A fantasia é a principal protagonista desse mundo

E, por isso, mantida protegida e resguardada dos olhares alheios. Cheios de lógica, razão e outras irritantes impossibilidades.

As pessoas confundem fantasia com unicórnios e filmes da Disney. Chutando-a para o irreal, o imaginário, apenas. Como se fosse coisa de crianças. E não assunto sério, fonte primeira de criação.

Os unicórnios não existem.

No entanto, a fantasia é a única possibilidade de vida para um introvertido. É a única forma que arranjou para viver no mundo extrovertido. E partilhá-la é entrar-lhe pela alma e esventrá-la, deixando-a à mercê de qualquer um.

Projeto Olimpus – Universal e Individual*

13/03/2019

Na “A Jornada do Herói”, o “Rei”, a história da donzela, da criação, do que for, em cada mitologia, independentemente das suas particularidades culturais, podemos observar o padrão universal que conecta essa com todos os outros mitos da criação, da jornada do herói, do bem contra o mal, de uma variedade de motivos mitológicos com os quais nos cruzemos.

No arquétipo do Eu unimos o universal ao individual.

No “Eu” todas as nossas experiências se unificam.

É como um ponto que permite que encontremos um sentido, e que leva todas as nossas experiências a convergir, a encontrarem-se num ponto central. Contem a nossa identidade pessoal e a nossa experiência de realidade juntas.

O Processo de Individuação chama-nos a reconhecer não só o que é pessoal mas também o que é arquetípico. Para que a nossa história pessoal e a história universal que vive em nós tenham um sentido.

A individuação é uma experiência pessoal profunda porque o ponto é: a história, os motivos universais vivem em nós.

E vivem em nós de uma forma que não vivem em mais ninguém.

Assim, a forma como experienciamos a presença arquetípica, da mãe, do amante, da némesis, a jornada do herói, o sentido que damos à vida, o nosso entendimento do amor etc, é particular.

A nossa história não tem semelhanças com a história de mais ninguém, mas os elementos da mesma são todos universais.

O facto de sermos subjetivos e pessoais e, paradoxalmente, o  facto de sermos uma forma objetiva e continua de ser, têm de se reconciliar e neles se encontrar um sentido, se a individuação for uma possibilidade real.

A individuação chama-nos para tal

Na consciência, o mundo nasce de novo. Somos co-criadores no sentido em que há uma diferença manifesta entre a existência do mundo no seu estado primevo, não-consciente, e quando ganhamos consciência da sua existência.

O ato de consciência da sua existência é um ato criativo.

Conseguirmos tornar conscientes as verdades universais e arquetípicas na nossa psique e nas nossas almas tem uma significância profunda. Não apenas em termos do que vamos fazer com isso, mas também no curso da história. O facto de nos tornarmos completamente conscientes da verdade que carregamos e suportamos é um movimento profundo em termos de projeto de individuação.

O reconhecimento de quem sou

Na condição transpessoal de ser humano, que transcende o nosso contexto pessoal.

A função da consciência é não só reconhecer e assimilar o mundo externo pelos sentidos. Mas traduzi-lo em realidade visível do nosso mundo.

*Stephen Anthony Farah (Tradução e edição minhas)
Um mito, uma danza: Projeto Olimpus, sessão de apresentação 22 de Março.

Projeto Olimpus – Instinto e Arquétipo*

11/03/2019

O instinto é um impulso inato para a ação, determinado biologicamente. É uma estrutura biológica e talvez até mesmo neuronal. Psicologicamente, a forma que esse instinto adota é a do arquétipo. Podemos então dizer que a forma arquetípica é a experiência do instinto no nível psicológico.

O instinto é universal, tal como o arquétipo.

A um nível psicológico, o arquétipo é a forma como experienciamos essa estrutura instintiva, biológica e neuronal.

Pois a psique tem uma estrutura predeterminada.

Nós não chegamos ao mundo como uma tábua rasa, que indica que nós apreendemos a realidade, bem como percebemos e racionalizamos as nossas experiências, não como ela é mas de acordo com pré-estruturas psicológicas a que Jung deu o nome de arquétipos.

Quando falamos de arquétipos, falamos de uma categoria abrangente, porque inclui eventos, eventos arquetípicos, como o nascimento, a morte, a união sexual, etc. Experiências pelas quais todos os homens, primitivos ou não, de todos os tempos, passaram. A esses eventos juntamos personagens, como a mãe, o pai, a criança, o líder, o inimigo. Estas verdades universais humanas são experienciadas em todos os tempos, por todas as culturas, em toda a história da humanidade. Imagens e símbolos são também eles universais, tais como o mar, o por do sol, uma flor… E, claro, narrativas e histórias, também elas universais, com os mesmos padrões, pois retratam sempre temas e personagens comuns a toda a humanidade, em todos os tempos, independentemente da cultura, do período histórico e da localização geográfica.

*Stephen Anthony Farah (Tradução e edição minhas)
Um mito, uma danza: Projeto Olimpus, sessão de apresentação 22 de Março.

Ossos

07/03/2019

Há uma cena na mitologia grega em que os deuses estão reunidos à mesa com os homens e Zeus encarrega Prometeu de arranjar maneira de definir os privilégios entre eles. Prometeu desencanta um boi enorme, sacrifica-o e divide a parte para dar aos deuses e a parte que cabia aos homens. Que definiria o estatuto de uns e de outros. Prometeu esquarteja o bicho e separa os ossos da carne. Na travessa dos ossos, cobre-os com a gordura mais apetitosa e suculentas. Na travessa das melhores carnes, cobre-as com as partes mais repelentes. E dá a Zeus para escolher. Zeus escolhe a primeira e fica furioso ao descobrir que Prometeu o enganou.

À primeira vista, o comum mortal também se congratula com a ousadia.

Mas quem precisa constantemente de comer são os homens, não os deuses. Afinal, o que Prometeu deu a Zeus foi a força animal, a eternidade. Os ossos são a única coisa que fica da existência, a força vital, que nunca morre.

Zeus, provavelmente, teria escolhido os ossos…

A capela dos ossos, em Évora, cuja frase muito divertiu o meu forever sweetheart, diz o mesmo: Nós, que aqui estamos, pelos vossos esperamos.

Um dos melhores livros que li sobre escrita chama-se precisamente: write down the bones. Escreve até aos ossos. Fura tudo até lá chegares.

Aí está a tua verdadeira voz.

E a junguiana Jean Shinoda Bolen usa a mesma referência para distinguir o que é conhecimento intelectual do que é conhecimento que vai além da explicação racional, aquele que nós sabemos que é nosso, e só nosso, porque o sentimos nos ossos. É difícil de explicar, de ser partilhado ou entendido com quem não o sente em todo o corpo, até aos ossos…

A água mais gelada é a que nos dói nos ossos…

O conhecimento arquetípico dos padrões existenciais dos deuses gregos, os seus arquétipos, fala-nos diretamente aos ossos. É de pura existência que se trata. A que vai além das exigências sociais, do ego, da persona. É a nossa verdadeira natureza e contém tudo de que precisamos para nos sentirmos nós. De verdade, sem buracos ou vazios existenciais.

*Conheci o texto da imagem no Outlander, um dos momentos mais épicos da relação dos dois.

Quem nunca ouviu um coração bater, não sabe o que é viver.

03/03/2019

Das experiências mais mágicas que já vivi, ouvir, de perto, encostadinha a ele, um coração bater é talvez das mais extasiantes e generosas que me permiti.

Todas as manifestações de vida me comovem

E não posso agradecer mais ao João ter-mo permitido. Por isso, a cada sugestão minimamente parecida, procuro-o para dançar. Só para o ouvir mais uma vez.

Foi o que aconteceu na semana passada.

Nós queremos repetir experiências extasiantes, e eu procurei fazê-lo. Mas o movimento da dança não mo permitiu. A dinâmica dos dois, que foi absolutamente mágica, não caminhou por aí. Até que, no abraço final, os nossos corações bateram juntos, ao mesmo ritmo, e aquela dança não poderia ter terminado da melhor forma.

Já dava por mim satisfeita.

Até ter experimentado respirar ao mesmo tempo que a Maria… O ar a vir do mesmo lugar, da barriga, o tempo da inspiração ser o mesmo, o da expiração também. Cada vez mais profundas, cada vez mais conectadas, cada vez mais sincrónicas.

A magia voltou a acontecer

E eu, que valorizo o intelecto mais do que qualquer coisa, rendi-me, por completo, à vida que pulsa nos nossos corações e ao ar que nos entra e sai dos pulmões.

E eu, que já o senti numa gaiola, de porta aberta, sem condição de o deixar sair, porque o Silvestre estava lá em baixo, com um ar muito ameaçador, deixando que o medo me toldasse a razão, que me ajudaria a lembrar-me que ele não tem como me apanhar se eu sair a voar, deixava-me ficar.

Não admira que à Biodanza também se chame dança da vida…

Agora, que nem consigo mais fechar-me, por ser tão grande que a gaiola torácica já não lhe chega, dou por mim a lembrar-me que, afinal, sem intelecto, por mais que nos custe aceitar e lidar, vivemos uma vida inteira. Sem coração, sem ar para respirar, não.

Talvez o mundo esteja mesmo a mudar

25/02/2019

Talvez o mundo esteja mesmo a mudar, e os artistas da música e do cinema façam um pouco mais do que autodestruir-se, consumindo drogas e álcool até à morte.

Talvez por isso o Last Days do Gus van Sant seja uma chatice.

Sequer faz sentido no novo milénio, que já leva 20 anos, quase. Já não há paciência para o discurso do  desgraçadinho… Muito menos para o mutismo do desgraçadinho… E me custe tanto ver  Johnny Depp na situação em que se encontra. Envelheceu pessimamente…

A criatividade está diretamente relacionada com a ausência de freio, a escalpelização de dores, agruras, crises de identidade e este existencialismo que nos mata.

Tudo em prol de uma busca por um propósito maior.

Conseguido à custa de estupefacientes vários, que são bons porque nos conectam além do ego, abrem espaço para outros níveis de consciência. Mas que se tornam algozes, por nos fazerem cair na apatia, no miserabilismo, na autocomiseração, no vitimismo.   

Tornando-nos feios, decadentes, massacrados por anos de maus-tratos autoinfligidos.

E com uns dentes péssimos…

Talvez o glamour da decadência já não atraia tanto e os artistas modernos se voltem para causas nobres, como o ambiente, a politização, os direitos humanos, entre outras. Não para salvar o mundo, como o sem noção do Bob Geldof, mas para o tornar mais consciente. E usem a sua imagem para se associar a algo que o mude, fazendo com as suas vidas um pouco mais do que a criação e a dedicação à arte. Que já não é pouco. Mesmo que as causas não me digam grande coisa. E talvez os torne um bocadinho chatos, às vezes, por causa da perfeição que não existe em ninguém, nem mesmo no meu querido Sam Heughan.

Talvez os heróis sejam outros

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Gillette: o melhor para o homem (e a mulher…)

21/01/2019

Mal anda o mundo em que um anúncio, bom, ainda por cima, que diz basicamente não à violência, ao abuso, à prepotência da força bruta sobre a liberdade individual, gera controvérsia, polémica, ódios generalizados e desgostos em barda.

O mundo anda polarizado e não é de hoje.

Especialmente em relação ao tema homens e mulheres. Há muito desconhecimento, muita agressão mútua, muita vitimização, muita defesa e ninguém ouve ninguém.

Anda tudo em modo reativo, tipo cão de Pavlov. 

A questão é, obviamente, muito mais profunda do que uma mera e eterna guerra dos sexos. É do masculino (poder) e do feminino (amor) que se trata. Esse está em homens e mulheres. E é esse equilíbrio que é necessário. Primeiro em cada um de nós e depois nos nossos relacionamentos, sejam de que tipo forem.

Movimentos como o #metoo não ajudaram muito

O que começou como um alerta para tomadas de consciência maiores, tornou-se numa tentativa de domínio das mulheres sobre os homens. Homem nenhum aceita isso. E há imensas mulheres que também o recusam. Sem necessariamente serem machistas, apenas não querem perpetuar a vitimização. O que as afasta ainda mais das suas congéneres.

Vamos parar de dividir o mundo entre bons, os que concordam connosco, e maus, os outros.

A coisa chegou a um ponto em que teve de aparecer um manifesto, encabeçado pela Catherine Deneuve entre outras personalidades, para travar uma onda de gente que se aproveitou de um movimento válido e necessário para expiar a neurose, não se coibindo de acabar com a vida de uma série de gente inocente.

Para lembrar que ambos têm de aprender a coabitar.

Os tempos foram ingratos para as mulheres? Foram. Uma merda. A cultura dominante foi abusiva. No entanto, foi o que foi e não dá para apagá-la da História da Humanidade. Mas também não dá para compensar, cometendo o mesmo erro. É um guerra que não tem fim e todos perdemos.

O que dá é para tentar equilibrar. Ajustar. Corrigir a rota e seguir em frente.

Queria deixar isso claro aqui: nós continuamos a querer os nossos homens masculinos. Mais masculinos do que nós mesmas, por favor. Pela parte que me toca, e a muitas mulheres, nós não queremos dominar-vos, que percam um milímetro da vossa masculinidade.

O nosso objetivo primeiro e último é de aproximação, de equilíbrio, de amena convivência. Não de domínio, subjugação.

Essa agressividade toda, essa coisa de controlo, de poder, isso vocês deixam para o desporto. A arte. Não para o relacionamento. Ou para a resolução de conflitos. Relacionamento nenhum vinga sem a presença do feminino.

O feminino equilibra a força bruta. Dá uma temperada na cabeça, impede o radicalismo da lógica, do intelecto, dá-lhe humanidade com a emoção e o sentimento.

Essa coisa da masculinidade entre os pares, equilibrem-na com o feminino. No fundo, no fundo, vocês sabem que muitas vezes é só infantil. Insegurança, coisa de adolescente que tem de provar que é macho.

Já o feminino precisa por sua vez de equilibrar emoções transbordantes com a razão e a lógica.

No fundo, no fundo, ambos temos muito trabalhinho pela frente e, curiosamente, estamos na mesma batalha: fazer as pazes com o feminino. Aceitá-lo, em vez de o temer. Incluí-lo, em vez de tentar anulá-lo, castrá-lo.

Temperança, meu povo, temperança…

E, em precisando de inspiração, é pôr os olhos no Jamie Fraser. O herói de Outlander, magistralmente interpretado por Sam Heughan, é o caminho da evolução do arquétipo do masculino. Não ter medo do que sente.

De o viver e de o expressar.

O gajo mais sexy que conheço usa saias. E andam vocês aí preocupados com a vossa masculinidade e com medo das mulheres. Ponham os olhos no Jamie Fraser, senhores. E nada temam, homens deste mundo.

No fundo, do que todos temos medo não é das mulheres nem dos homens. É do feminino, do que sentimos, porque isso faz uma confusão danada à cabeça, que é impotente perante a força do Amor, a única que nos leva para um lugar mais próximo de nós. Nos conecta, nos vincula e nos une, verdadeiramente.

É a harpa (feminino) que nos une, não a espada (masculino).

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