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Livros

Eduardo e Mônica*

07/08/2018

De que nos serve o intelecto, mi amor, se não temos o carinho dos gestos? De que nos serve sermos éticos, exemplares, corretos, se nos falta a compaixão, a identificação com o outro, o humanismo, a capacidade de largar tudo e ir a correr cuidar dele? De que nos serve o sentido do dever, meu querido, sem a generosidade incondicional dos afetos, sem liberdade emocional? De que nos serve o que fazemos pelo outro, my love, se apenas o fazemos pelo nosso ego e não, nem que seja um bocadinho, para ver o outro feliz? Só para ver o outro feliz. De que nos serve a dedicação ao outro, se não conhecermos os nossos próprios limites? De que nos serve estarmos cheios de razão e nos faltar o coração? De que nos servem as ideias, a prossecução dos mesmos fins, se corremos em direções opostas? De que nos servimos, se não nos damos? De que nos servem as palavras, se nos faltam as ações? De que nos serve fazermos sentido, my darling, se nos falta tudo o resto? De que nos serve o desejo, se nos falta o sentimento? O prazer, se nos falta o envolvimento? De que nos serve a paixão, sem mais nada? De que nos serve amarmos o outro, se não for apenas pelo facto de existir?

*Legião Urbana

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A Little Prayer

29/07/2018

O bom dos 40 é que a gente perde a vergonha. É o primeiro grande contacto que temos com a realidade: já não tens a vida toda pela frente. E tens pouco tempo a perder.

Ontem, fiz a coisa mais difícil da minha vida. Li alto, para um bando de desconhecidos e alguns conhecidos, o texto mais íntimo que alguma vez escrevi.

Será o último capítulo de um livro.

Vazio

20/07/2018

Tenho ideia de nunca ter chegado a uma conclusão em relação a qual o melhor vazio: se ficar, se partir. Quando temos ou somos visita na casa de alguém e somo-lo por prazer, por gozo, por afeto genuíno. Quando ninguém se impede de fazer o que lhe apetece. E não chegamos a ser um peso na vida do outro, a que a cerimónia quase obriga. vazio

Talvez pudéssemos começar por aí.

Já que o peso só existe se não somos genuínos. Se deixamos de fazer uma coisa que é da nossa vontade, por estarmos em casa de alguém e de certa forma nos sentirmos moralmente coagidos a fazer o que o outro planeou. Ou a estar permanentemente com ele, já que nos acolheu na sua casa.

Já fui muito mais visita do que recebi visitas.

E achava sempre que partir era melhor do que ficar. Por causa das ausências de objetos que deixamos de ver entre os nossos. Dos lugares que visitámos juntos e que agora, sozinhos, nos parecem vazios, sem a mesma graça, monótonos, sem o diferente que acrescenta. Ler Mais…

A psicologia [analítica] e eu*

20/03/2018

Cá vamos nós outra vez… Depois do Filipe Nunes Vicente, e de amiga psicóloga que, depois de ler o Eu e o Sr. Freud, me disse que sonhava com pacientes assim, foi o meu mestre de dança: tu que és psicóloga… Neguei prontamente. Explicando que não estava para ser acusada de me afirmar como algo que não sou. Tão simplesmente porque não sou licenciada em psicologia.

No dia em que fez um ano que o meu pai se foi embora para sempre, havia sido a mulher de um colega dele, psicóloga, a chamar-me: cara colega. Sabendo, ao contrário do meu querido mestre de dança, que eu não era licenciada na área.

psicologia

Na semana passada, um amigo do meu pai estava impressionadíssimo como eu tinha acertado o motivo pelo qual uma conhecida dele que morava em Londres não mais se imaginava a morar aqui. Conhecida essa que, provavelmente, apenas intui, não tem disso consciência. Acontece-me com frequência, desde sempre.

Sou boa nisso, sempre fui. Até mesmo antes de sequer saber da existência de Jung. Com a Psicologia, só aprimorei o que já era meu. Uma intuição fortíssima que se direciona para esta área. Talvez por ser das coisas que mais me fascina e desperta a curiosidade nesta vida: a cabeça das pessoas, como funciona, o porquê deste comportamento, daquela escolha, daquela vida.

Achava que era por causa da minha conversa, por explicar muita coisa com a psicologia. É mais forte do que eu, quando dou por mim, já foi. Quero fazê-lo o mínimo possível, pelo menos em conversas informais, embora me procurem muitas vezes para isso. Prefiro guardar esse tipo de abordagem para o atendimento, o aconselhamento, com hora e dia marcados. Mas estou cada vez mais convencida de que é natural em mim, faz mesmo parte da minha identidade, é verdadeiramente meu…

E preciso de o assumir com toda a propriedade e honra que tal nobre ciência me merece.

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Gayle

15/01/2018

Houve uma época, ali à volta dos 30 anos, em que a obsessão da vez eram autores britânicos com profundidade e leveza e bom humor. O meu preferido, por juntar os três ingredientes que não dispenso de uma forma perfeita e orgânica, era o Mike Gayle.

Mas li de um tudo, Tony Parsons, Nick Hornby, David Lodge…

O que me encanta na literatura e no cinema europeus em geral, e nos britânicos em particular, é precisamente o realismo das suas histórias. Não há heroísmos desmedidos, há gente de carne e osso, com os mesmos defeitos que nós, a tentar sobreviver neste mundo louco que nos calhou. E do sentido de humor, a sua capacidade para brincar com eles mesmos, de se olhar no espelho, da ausência de miserabilismo e de autocomiseração.

Geram identificação, e não frustração…

Gayle

Não me lembro onde comprei o primeiro livro de Mike Gayle, talvez no aeroporto de Berlim, tinha a mania de comprar livros em aeroportos, no tempo em que vendiam literatura, agora só vendem manuais de tudo e mais alguma coisa para totós, o que é lamentável. Não sou totó nem tenho paciência para manuais. Mas lembro-me do motivo. Porque tinha a palavra “compromisso” no título e, acima de tudo, por causa da imagem.

Sou das que se rende a uma boa capa. É meio livro vendido.

Devorei-o e, como sempre acontece com os autores de que gosto, obcequei. Li mais alguns e a identificação era sempre enorme. O conteúdo foi devidamente absorvido e integrado na consciência e parei. Nem sei se ainda os tenho, talvez até os tenha doado.

Recentemente, andava na plataforma internacional que uso para comprar livros e, por causa do romance que pretendo escrever, achei que era boa ideia voltar à literatura do género. Foi aí que me apanhei em frente ao Mike Gayle de novo. Nem sei como… Talvez o meu inconsciente me tenha levado até lá, não me lembrava dele há 15 anos… Vi que tinha publicado uma série de livros entretanto, entre os quais um chamado Turning Forty. Ler Mais…

Os livros não se escrevem depressa

18/11/2017

Os três primeiros capítulos do meu primeiro livro foram escritos em 2006. Quatro anos depois, ao relê-los, gostei tanto do formato que achei que poderia fazer daqueles primeiros textos um livro. Escrevi o quarto capítulo e, ao fim de mais uns três ou quatro, começou a dar-me a pressa. E dei por mim a forçar. O que nunca é bom. 

Há escritores mais metódicos do que outros. Com horas para começar e para acabar. Como se trabalhassem num escritório das nove às cinco. Eu sou mais intuitiva. O que não quer dizer necessariamente que seja caótica.

Sinto muitas vezes que o livro se escreve sozinho.

Os primeiros capítulos nascem espontaneamente, de uma vontade emocional de expressão e de uma necessidade psíquica de me dar continente. Ao fim de dois ou três textos com o mesmo bordão ou tema, crio o conceito a partir daí. Defino-o, e à ideia, que fica à deriva no meu cérebro, até que o texto começa a surgir. Compulsivamente. Como se soubesse que ou é assim ou morre. Não consigo prolongar as coisas indefinidamente. Cansa-me e dá-me nervoso. Por isso, só se esgota porque lhe ponho um fim, determino o número de capítulos, sou simbólica nisso, os números são-me importantes nesse particular, e a coisa torna-se quase obsessiva até lhe dar um término.

Os livros também não se forçam

Ontem, dei com uns quatro pergaminhos que não chegaram a figurar no livro. Fruto desse processo de auto-pressão, foram escritos a partir da persona, o que destoava do tom que queria dar-lhe. Dois eram apenas referências, um ao Você, do Tim Maia, outro apenas dizia que a psicanálise já havia afiançado que nós decidimos quando nos apaixonamos, fazendo referência a uma intenção minha de estudar documentário, com as devidas reticências. Os outros dois eram demasiado pessoais e íntimos. Um descrevia o potencial destinatário e o outro todas as minhas sombras, as que conhecia, pelo menos.

Se um dia chegar a Best Seller, ou antes mesmo de morrer, divulgo-os.

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