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Livros

A psicologia [analítica] e eu*

20/03/2018

Cá vamos nós outra vez… Depois do Filipe Nunes Vicente, e de amiga psicóloga que, depois de ler o Eu e o Sr. Freud, me disse que sonhava com pacientes assim, foi o meu mestre de dança: tu que és psicóloga… Neguei prontamente. Explicando que não estava para ser acusada de me afirmar como algo que não sou. Tão simplesmente porque não sou licenciada em psicologia.

No dia em que fez um ano que o meu pai se foi embora para sempre, havia sido a mulher de um colega dele, psicóloga, a chamar-me: cara colega. Sabendo, ao contrário do meu querido mestre de dança, que eu não era licenciada na área.

psicologia

Na semana passada, um amigo do meu pai estava impressionadíssimo como eu tinha acertado o motivo pelo qual uma conhecida dele que morava em Londres não mais se imaginava a morar aqui. Conhecida essa que, provavelmente, apenas intui, não tem disso consciência. Acontece-me com frequência, desde sempre.

Sou boa nisso, sempre fui. Até mesmo antes de sequer saber da existência de Jung. Com a Psicologia, só aprimorei o que já era meu. Uma intuição fortíssima que se direciona para esta área. Talvez por ser das coisas que mais me fascina e desperta a curiosidade nesta vida: a cabeça das pessoas, como funciona, o porquê deste comportamento, daquela escolha, daquela vida.

Achava que era por causa da minha conversa, por explicar muita coisa com a psicologia. É mais forte do que eu, quando dou por mim, já foi. Quero fazê-lo o mínimo possível, pelo menos em conversas informais, embora me procurem muitas vezes para isso. Prefiro guardar esse tipo de abordagem para o atendimento, o aconselhamento, com hora e dia marcados. Mas estou cada vez mais convencida de que é natural em mim, faz mesmo parte da minha identidade, é verdadeiramente meu…

E preciso de o assumir com toda a propriedade e honra que tal nobre ciência me merece.

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Gayle

15/01/2018

Houve uma época, ali à volta dos 30 anos, em que a obsessão da vez eram autores britânicos com profundidade e leveza e bom humor. O meu preferido, por juntar os três ingredientes que não dispenso de uma forma perfeita e orgânica, era o Mike Gayle.

Mas li de um tudo, Tony Parsons, Nick Hornby, David Lodge…

O que me encanta na literatura e no cinema europeus em geral, e nos britânicos em particular, é precisamente o realismo das suas histórias. Não há heroísmos desmedidos, há gente de carne e osso, com os mesmos defeitos que nós, a tentar sobreviver neste mundo louco que nos calhou. E do sentido de humor, a sua capacidade para brincar com eles mesmos, de se olhar no espelho, da ausência de miserabilismo e de autocomiseração.

Geram identificação, e não frustração…

Gayle

Não me lembro onde comprei o primeiro livro de Mike Gayle, talvez no aeroporto de Berlim, tinha a mania de comprar livros em aeroportos, no tempo em que vendiam literatura, agora só vendem manuais de tudo e mais alguma coisa para totós, o que é lamentável. Não sou totó nem tenho paciência para manuais. Mas lembro-me do motivo. Porque tinha a palavra “compromisso” no título e, acima de tudo, por causa da imagem.

Sou das que se rende a uma boa capa. É meio livro vendido.

Devorei-o e, como sempre acontece com os autores de que gosto, obcequei. Li mais alguns e a identificação era sempre enorme. O conteúdo foi devidamente absorvido e integrado na consciência e parei. Nem sei se ainda os tenho, talvez até os tenha doado.

Recentemente, andava na plataforma internacional que uso para comprar livros e, por causa do romance que pretendo escrever, achei que era boa ideia voltar à literatura do género. Foi aí que me apanhei em frente ao Mike Gayle de novo. Nem sei como… Talvez o meu inconsciente me tenha levado até lá, não me lembrava dele há 15 anos… Vi que tinha publicado uma série de livros entretanto, entre os quais um chamado Turning Forty. Ler Mais…

Os livros não se escrevem depressa

18/11/2017

Os três primeiros capítulos do meu primeiro livro foram escritos em 2006. Quatro anos depois, ao relê-los, gostei tanto do formato que achei que poderia fazer daqueles primeiros textos um livro. Escrevi o quarto capítulo e, ao fim de mais uns três ou quatro, começou a dar-me a pressa. E dei por mim a forçar. O que nunca é bom. 

Há escritores mais metódicos do que outros. Com horas para começar e para acabar. Como se trabalhassem num escritório das nove às cinco. Eu sou mais intuitiva. O que não quer dizer necessariamente que seja caótica.

Sinto muitas vezes que o livro se escreve sozinho.

Os primeiros capítulos nascem espontaneamente, de uma vontade emocional de expressão e de uma necessidade psíquica de me dar continente. Ao fim de dois ou três textos com o mesmo bordão ou tema, crio o conceito a partir daí. Defino-o, e à ideia, que fica à deriva no meu cérebro, até que o texto começa a surgir. Compulsivamente. Como se soubesse que ou é assim ou morre. Não consigo prolongar as coisas indefinidamente. Cansa-me e dá-me nervoso. Por isso, só se esgota porque lhe ponho um fim, determino o número de capítulos, sou simbólica nisso, os números são-me importantes nesse particular, e a coisa torna-se quase obsessiva até lhe dar um término.

Os livros também não se forçam

Ontem, dei com uns quatro pergaminhos que não chegaram a figurar no livro. Fruto desse processo de auto-pressão, foram escritos a partir da persona, o que destoava do tom que queria dar-lhe. Dois eram apenas referências, um ao Você, do Tim Maia, outro apenas dizia que a psicanálise já havia afiançado que nós decidimos quando nos apaixonamos, fazendo referência a uma intenção minha de estudar documentário, com as devidas reticências. Os outros dois eram demasiado pessoais e íntimos. Um descrevia o potencial destinatário e o outro todas as minhas sombras, as que conhecia, pelo menos.

Se um dia chegar a Best Seller, ou antes mesmo de morrer, divulgo-os.

Pulitzer – Message in a Bottle em Italiano

09/09/2017

E à semelhança do que havia acontecido em espanhol, francês e inglês, o meu primeiro livro, Message in a Bottle, foi traduzido para italiano e já está disponível no iTunes e noutras plataformas digitais. MIB IT

Por este andar ainda chegamos a Pulitzer

Diz o tradutor da versão italiana: “Queria dizer que o livro me apaixonou muito e espero que tenha um grande sucesso também nessa versão italiana! Mas tenho quase certeza disso! Espero também podermos continuar a nossa colaboração nesse sentido.”

Resta-me agradecer à plataforma pela oportunidade incrível, nem nos meus sonhos mais megalómanos imaginaria uma coisa destas. E aos tradutores que se apaixonaram pelo livro e quiseram traduzi-lo. A saber: Maria* (Espanhol), Christa (Inglês), Isa (Francês) e Federico (Italiano).

Pela paciência, a dedicação e acima de tudo por me fazerem apaixonar pelo livro a cada vez.

Muito obrigada. Foi um prazer imenso trabalhar com cada um de vós.

*Uma palavra especial à Maria que, para além de ter traduzido os meus dois livros para espanhol, é a responsável pelas capas deste, nas versões traduzidas. Vale ouro.

O meu Freud

22/08/2017

E de repente, estás tu muito bem largada no sofá a jiboiar, quando te salta um mail destes. Tendo a queixar-me de falta de retorno, que a vida de artista é o diabo. Mas quando recebo um testemunho assim sobre o meu rico Freud constato, mais uma vez, que se andasse na vida para ficar rica, dedicava-me antes ao negócio das apps. Ou da publicidade.

Muito obrigada, Paulo Falcão, pelas palavras tão incríveis.

Comprei o livro do Sr. Freud, gosto de Freud e gosto de psicanálise, comprei, li meia dúzia de páginas disse-te que era um bom livro, não menti ao menos, bom natal para ti também, uma dedicatória gira no livro, e adeus boa sorte. Eu e o Sr. Freud

Nessa altura não valia a pena ter lido o livro, o pequeno ditador que vive em mim estava no auge, ele que sempre foi dominador do mundo estava nessa altura ainda mais intragável, tinha, vê lá tu, sido espicaçado no seu orgulho. Sabia tudo, muito bem para onde ia.

Vivia no fundo na agonia, cada inspiração uma tortura, mas aceitar algo dos outros, ser humilde, agradecer, perdoar, isso…

O que eu pensava ser o auge do domínio da situação era afinal o início de uma caminhada longa, dura , tortuosa, aliás não era uma caminhada, era uma travessia.

Não sei sequer por onde andei, por onde me perdi ou encontrei. Dois anos de lutas, aprendizagens e finalmente a catarse.

Decidi praticar a catarse, da forma mais catártica (existe?) possível.

Hoje na viagem de regresso com a sensação de dever cumprido (e ia lá o pequeno ditador admitir uma falha…) lá bem no alto, tiro da mala o famoso Sr. Freud. E… Em duas horas percebi tudo…sobre mim, o que me aconteceu, como, porquê. E também o outro lado da história…os seus comportamentos, decisões e atitudes.”

O meu olhar para a literatura mudou e a culpa é do Joel

31/07/2017

Nos livros como na vida, depois de Clarice, apetecia-me continuidade. Literatura da boa numa história. Estive com O Casamento, Nelson Rodrigues, na mão e optei pelo Manual das mulheres de limpeza. Pela história pessoal da autora, podia ser que me inspirasse e me desse esperança. Literatura

Tempo perdido e dinheiro mal gasto

A vantagem dos 40 é não mais ficarmos onde não vamos para lado algum. Não tenho vida que chegue para perder tempo com livros mal escritos. Agridem-me como punhaladas.

Li 110 páginas numa hora, isto só pode ser um péssimo sinal, e desisti. É um livro que não vai para lado nenhum, atabalhoado, escrita sofrível, ruidoso. E arrependi-me amargamente por ir na conversa do comum mortal, do sucesso. A resenha do New York Times induziu-me em erro, achei que ainda nele se podia acreditar. Pelos vistos não.

Depois d’A Vida no Campo apercebo-me consciente e finalmente do que faz de um livro um bom exemplar dessa nobre arte que é a literatura.

É o lugar a partir de onde se escreve e o tempo que se leva a fazê-lo. É a capacidade de maravilhamento que nos gera. O deixar-nos de boca aberta e respiração sustida pela magnitude da prosa. A beleza poética do que é dito, do que toca sem chocar, de um jeito orgânico, que é a única forma de nos chegar.

A brutalidade gera rejeição e resistência

Clarice é crua e ainda assim sublime. Porque escreve de um lugar sofrido mas rendido. É a rendição, sem submissão, que a torna magnífica. É decididamente onde quero chegar.

Nesse lugar o tempo é outro

Não há pressa, atropelos, manobras de diversão, acima de tudo ruído. Há Kairos, o estritamente necessário e todo o tempo do mundo para se chegar a algum lado, como se impõe com o que psiquicamente nos desafia. Há ritmo sem que se lhe sinta a velocidade, solavancos ou paragens abruptas.

De nada adianta o ter de ser, a brutalidade, o forçar. Nada gera.  A literatura, como tudo o resto, tem de ser orgânica, fluir, como se diz na modernidade.

E o que faz de alguém escritor e dos bons há de ser o olhar que tem sobre a vida e a forma como escreve sobre a mesma. Que tem muito de paixão pelo ofício. E algum fascínio pela própria vida e seus mistérios.

 

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