Chegar a casa

20/02/2018

Quando a maioria das pessoas decidiu casar, ter filhos, dedicar-se a uma carreira, eu escolhi viajar. Em busca, sei-o agora, de mim. Algumas das pessoas que cruzaram o meu caminho diziam que, quase tanto quanto viajar, adoravam chegar a casa. Nunca me identifiquei. Chegar a casa parecia-me monótono, um espaço pequeno, solitário e frio, para o tanto que tinha vivido. O que ainda tinha para viver.

Era uma forma de acabar com a magia.

Mas, em todas as viagens que fiz, era importante ter um pouso. Um lugar fosse de que tamanho fosse, desde que lá me sentisse bem, onde pudesse largar malas, roupa e livros. E para onde pudesse voltar, sempre que precisasse de introverter. Quando demorava para encontrar esse lugar, ficava insegura, instável. Era bom, e eu precisava, ter um lugar para onde voltar. O que é diferente de querer ou gostar de voltar para casa.

Hoje, não estou certa de adorar querer voltar, apesar de, desde que vim morar na praia, sentir, pela primeira vez na vida, verdadeiramente, vontade de me estabelecer.

Não gosto de grupos, prefiro a relação um para um.

Na verdade, do que gosto mesmo é de ficar na minha, mas se tiver de me relacionar, que seja em dupla. Os grupos obrigam a personas e eu não gosto muito dessa dinâmica. É pouco intimista e nada verdadeira.

Parece que passou uma eternidade desde a última vez que estive em casa. Foram só 15 dias, mas, entre um fim-de-semana de escola no Porto e um baile de carnaval, salvo seja, com pessoas de outro grupo e muitas ausências, e a intensidade que ambas as experiências me proporcionaram, tenho a sensação de que passaram seis meses…

E vai ser bom chegar a casa hoje

Dançar com os meus, com quem me sinto bem, apesar de não ter tanta intimidade com todos eles. Como nas melhores famílias. Não gosto de grupos, mas sinto-me bem neste, o meu, com o melhor dos anfitriões, ainda por cima.

Diz o subtítulo deste blog, criação minha, que a casa é onde está a tua alma. O que quer dizer que a nossa casa pode ser em qualquer lugar do mundo, desde que não nos percamos de nós. A minha tem vista para o mar. E também é numa paralela da Avenida da Liberdade, todas as terças-feiras.

casa

  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 21/02/2018 at 00:32

    Como a compreendo! Tive, logo que compromissos assumidos cedo demais o permitiram, essa sensação de caracol com a casca no interior. Poisei aqui e acolá e mal desfazia as malas estava em casa. Mas sabia-me bem saber que alguém me esperava no sítio do costume, por mais longe que eu estivesse. A verdade é que a única pessoa com quem estaremos de certeza até ao último momento somos nós próprios, Muito fica pelo caminho por mais que isso nos custe. È bom gostarmos de estar connosco independentemente do lugar e do tempo. É em nós que guardamos a sumula do que fomos e criatividade do que seremos. A’casa’ espaço – que para mim é extremamente importante que reflita aquilo que materialmente me satisfaz o olhar e me conforta mal abro a porta – fez sempre parte de um tempo e é algo que sei ser sempre possível mudar sem deixar de ser ‘a minha casa’. E já sou bisavó de muitos bsnetos….

    • Isa 21/02/2018 at 09:15

      Que comentário maravilhoso, adorei, obrigada :) Beijinhos

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