Comprometimento

02/02/2018

Um dia destes, a caminhar com uma amiga, dizia-me: as pessoas só dão valor ao que é pago. Frase que ouvi vezes sem fim no Brasil. Por outro lado, pensava eu, porque querem as pessoas descontos, pagar menos, de borla, até. E isso alastra-se que nem uma praga a propostas de trabalho, imagine-se. Como se vivêssemos todos do ar. Ou só determinada atividade fosse considerada trabalho.

E se é muito caro, num país como Portugal, em que a média dos salários é baixa, também ninguém se chega à frente. Por outro lado, o português gosta de um exclusivozinho. Pela-se por uma área VIP, dá-lhe uma sensação de importância e de poder. Vê-se isso nos restaurantes que têm lista de espera de sei lá quanto tempo. Há uma série de fenómenos que não entendo e esse é um deles. O de que a carneirada decide o que é bom. Quando a maioria nem gosta assim tanto, mas se os outros gostam, então também devo ter de gostar, não devo estar a perceber bem a coisa. comprometimento

Excluindo a questão do poder miudinho. E indo além da sensação de conquista, que dá o podermos pagar alguma coisa de que gostamos ou que queremos fazer.

Certa vez, li um autor de quem gosto muito responder a alguém que lhe tinha pedido um livro dos seus, de borla. Dar um livro a alguém que nem sequer vai lê-lo? Para quê?

E a jornada do herói voltou a responder à minha dúvida.

É uma questão de comprometimento

Não é qualquer aventura que serve todos os heróis e não é qualquer um que é herói. Não a todo o momento. Tem de ter determinadas características que lhe dão força e resiliência suficientes para ir até ao fim da jornada e conseguir o tesouro. E esse crivo é apertado até ao momento imediatamente antes do começo da aventura.

Há uma relação em particular, por exemplo, em que o herói tem de conquistar determinadas informações e dicas que irá receber. Sem as quais não chegará ao fim. É como nos jogos de vídeo. Para passar de nível há que encarar o monstro comilão que está na esquina à nossa espera.

O pagamento por determinado serviço ou área de estudo, e a assiduidade, revelam o nível de comprometimento do herói na aventura que tem pela frente. Por isso, de nada adianta dar tudo de bandeja, oferecer a quem não está comprometido, apenas perdido, a disparar em todas as direções. E coisas que se fazem com paixão e dedicação esperam retorno semelhante.

Quem está suficientemente interessado, e comprometido, corre atrás de informação. Se há característica que identifica um herói é a humildade.

Já me aconteceu pagar ninharias por coisas a que não dou valor porque: foi tão barato que é indiferente o que faço com isso. E ficar agarrada a outras, mesmo que não use, porque paguei caro por elas. Da mesma maneira que não faltei a uma única aula de todos os cursos de psicologia que fiz em São Paulo. E só faltei à Pós-Graduação quando me vi presa no trânsito e não consegui chegar. Fiquei de mau humor o resto do dia.

A nossa cabeça opera por caminhos misteriosos, mas só assim tem graça.

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