Compulsivos

07/02/2018

O grande problema dos compulsivos, dos viciados, todos os viciados são compulsivos, é o vórtice obsessivo em que entramos quando o gatilho é disparado. Algo acontece no exterior que dispara um gatilho na nossa cabeça e desencadeia uma reação. Emocional desagradável, dolorosa, incontrolável, um mau estar horroroso. Do qual queremos sair imediatamente, sequer queremos entrar, evidentemente.

Ao mesmo tempo, qual instinto de sobrevivência, uma memória antiga é despertada, uma solução de recurso, um comportamento que bloqueia a dor. Esse recurso, que apenas disfarça a questão, o problema, aparece como solução única e milagrosa para sair da dor. É o pensamento obsessivo que toma conta do nosso cérebro e só se acalma quando lhe damos a droga correspondente: açúcar, álcool, pó, cigarros, consumismo exacerbado, trabalho insano, desporto excessivo, sexo. 

A grande ciência e aprendizagem de um compulsivo é aprender a esperar. Coisa que parece impossível quando o diabo se apossa de nós.

Três refeições por dia, a intervalos de 5 a 6 horas cada, com a proibição absoluta de comer o que quer que seja nos intervalos e a garantia de proteína em todas elas ajuda.

O truque é saber que vai ter

Para quem é adito, compulsivo, o diabo é saber que ainda há ou que nunca mais vai haver.

Talvez haja um pensamento de escassez enraizado. De rigidez, de historial familiar e social de castração, repressão do prazer. E nos tivéssemos habituado a consumir tudo quanto há, na hora. Mesmo que não nos satisfaça mais, apenas por não sabermos quando voltaremos a ter.

TOC é outra história, é compulsão levada ao extremo.

  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 12/02/2018 at 03:34

    Um dos dramas com que podemos confrontar-nos na vida é quando, na nossa luta pela liberdade, desaba sobre nós como uma rede feroz tudo aquilo que fomos tentando na procura dessa liberdade que por algum modo nos foi negada através de construções teóricas que fomos desbravando até chegarmos à realidade nua e crua onde reside uma verdade que não era a que desejávamos conhecer.
    Paradoxalmente, a inocência é, num determinado prisma criacionista, identificada com o ‘pecado original’. Nascemos na mais completa inocência mas, ao que parece, trazendo sobre nós a ameaça do que poderá acontecer-nos se enveredarmos pela procura da verdade fora dos limites que o mundo organizado tem para nos oferecer como paraíso. Quando nos atrevemos a enveredar por aí a busca não tem fim porque o mundo, e nele a vida, é uma caixa infinita de segredos. Daí que quando a busca se torna compulsiva, sem que disso venha algo de bom para nós ou para o mundo – que continuará a desdobrar-se em surpresas perante a nossa impotência – o bom seria regredir e procurar na nossa parcela de alma a grandeza que nos liga ao Todo, ao que nos anima na contemplação estética e ética, quando passamos a optar pelo Sublime e pelo Bem.
    Acontece que tanto o Sublime como o Bem residem nas coisas simples. A Arte e o Amor são sublimes e libertam.
    ‘A beautiful thing is a joy forever’ e um grande amor persiste em nós mesmo quando parece que as pontas se soltaram. Amar é um dom da alma; ser amado uma necessidade do coração. Queremos e necessitamos que nos amem porque nisso cremos estar reflectido o que valemos. Mas talvez não seja assim! Nunca saberemos o que se passa na alma e no coração dos outros, o que guardam ou levam eles de nós!
    Há muito quem não saiba amar. O mundo de hoje, em que tudo se passa entre o material e o virtual, deixa pouco espaço para interiorizarmos aquilo que é DE FACTO essencial no tempo que nos foi concedido para existirmos e cuja dimensão ignoramos. Chega um momento em que, se estivermos atentos a nós próprios, nos apercebemos que é altura de revermos, sem mágua, as sucessivas etapas da nossa vida e, embora de modo algum possamos recuperar a inocência perdida, tentarmos ir rasgando velhas colagens. Como quem arruma uma gaveta, um baú ou uma biblioteca não visitadas há muito e que estão ocupando espaço que nos faz falta para respirarmos.
    Creio ter sido Calvino que disse que Jesus quis criar uma religião e criou a Igreja. Na realidade o Caminho, a Verdade e a Vida que Jesus pregou e viveu dificilmente se compaginam com a avassaladora envolvente teórica que nos abafa. Cabe-nos, a cada um de nós, distinguir o efémero do que persiste na alma humana, no que nunca deixará de ser ‘passe lo que pase’ A felicidade espera-nos sempre em algum lugar, a maior parte das vezes dentro de nós mesmos. Não faltemos ao encontro…
    Já agora, já que se interessa com tanto empenho conhecimento no tema da Alma, atrevo-me recomendar-lhe um livro que leio recorrentemente: “ Breve História da Alma” de Gianfranco Ravasi, Ed. D.Quixote. Abraço muito amigo!

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