Conexão – Tudo o resto não me interessa

16/05/2017

O que me faz sair de casa, encarar o trânsito, dar cabo dos pneus, das jantes e da suspensão do super-bólide nas ruas de Lisboa, esfrangalhar os nervos só de pensar que vou ter de guiar entre selvagens, ficar três horas à procura de estacionamento no centro da capital, é a perspetiva da transcendência. Que, na linguagem da dança, se chama entrar em vivência. O que é, aliás, a única coisa que me interessa na vida neste momento: conexão total, absoluta. E tudo, e todos, os que me ajudem a lá chegar são bem-vindos.

É para lá que corro

Quando comecei, chegava mais rápido e mais facilmente sozinha, sou individualista convicta. Mas, desde que mudei de grupo, noto que a tendência é para que o consiga em dupla. Coincide com uma fase pós-luto intensíssimo, em que me encontro neste momento, a de me voltar para fora. Daí que, apesar de o conseguir a escrever e a correr, tenho tido preferência, e ansiado, pela dança. Em vez de lá chegar pela arte (no meu caso, a música, o cinema, a escrita), que é das formas mais eficazes de conexão que conheço.

A conexão é pela via da emoção. Não há outra forma de chegar.

conexão

Mudei-me há pouco, 4 meses e meio. E, apesar de não haver qualquer estranheza, pelo contrário, às vezes parece que nunca estive noutro lado, a verdade é que é muito pouco tempo. Por isso foi reconfortante saber que ia encontrar companheiros de jornada. Mesmo que não dancemos tanto assim juntos, são referência, deixam-me segura, passámos por um projeto inteiro juntos, temos outra conexão, que me faz sentir amparada e que ainda não desenvolvi com os restantes.

Toda eu sou sentimento.

Alguns estão a passar, aos poucos, para outro grupo e, mais tarde ou mais cedo, vão deixar-nos. Há umas presenças que só podem vir de 15 em 15 dias, o meu sorriso ilumina-se quando os vejo e adoro dançar com eles, nada se perdeu. Mas eu preciso de alguma constância para me permitir uma série de coisas, nomeadamente a partilha de intimidade. Que não se prende exclusivamente com uma intimidade amorosa, sexual, como é evidente. Mas com algo mais profundo e mais precioso, a permissão para a vulnerabilidade.

Na última aula senti isso. As ausências causaram em mim algum desamparo, o que se manifestou no meu comportamento. Odeio falar e odeio ouvir falar, desconcentra-me, lá está, impede-me de me manter conectada. Falei a aula toda. Uma das danças mais importantes correu-me pessimamente, foi aí que começou o falatório, e ainda por cima saí magoada, com o ombro esquerdo todo f… coiso. Em compensação, houve outra, sozinha, que foi incrível, por uns segundos… Querer nunca quero, por mim, ficava permanentemente nesse estado, de conexão total, mas consigo sempre sair. Pela primeira vez. não consegui sair do chão. Custou-me imenso, não foi gradual, quando abri os olhos não reconheci as outras pessoas. Queria continuar naquele círculo mais pequeno, manter a conexão. Pela primeira vez, precisava de mais tempo.

Se há quem entende o movimento para o voo sou eu. Já mudei de país, de continente e de hemisfério precisamente por esse motivo.

E mais representativo da vida do que o voo do passarinho do ninho, o corte do cordão umbilical com os pais para nos permitirmos voar com as nossas próprias asas, vivendo a nossa vida de acordo com a nossa essência, o aluno que se separa do mestre para poder voar sozinho e viver a sua individuação, as pessoas que precisam de sair do grupo onde começaram para irem mais longe, não há. E não há nada pior do que relacionamentos de co-dependência, em que as pessoas se castram umas às outras em vez de se incentivarem mutuamente a voar. De preferência juntas, em paralelo. Na sua, sem perder a conexão entre si. Mas a racionalidade não mitiga a emoção, e eu sou honesta em relação ao que sinto.

E acho que foi por isso me agarrei mais ao João e dancei com ele como penso que ainda não tinha dançado desde que cheguei. Porque, apesar de o conhecer há menos tempo, tornou-se uma referência no primeiro dia em que o vi, por termos tido uma conexão tão grande e tão incrível a primeira vez que dançámos juntos que nunca mais me esqueci.

A conexão consegue-se com disponibilidade, empatia, coração aberto, vontade. Nem toda a gente serve, quer, pode, está disponível. Pelo contrário, é raro, raro encontrar gente compatível e disposta ao mesmo tempo. Mas uma vez que a magia acontece, não há como querer e esperar menos do que isso.

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