Conflito

11/06/2018

Quando me deparo com um conflito lembro-me sempre de um texto* da Eliane Brum em que dizia que fazia questão de deixar o pózinho verde do chimarrão em cima da bancada da cozinha para irritar o marido, porque este embirrava com aquilo. E da convicção de muita gente de que é preciso entrar em conflito para nos sentirmos vivos, contrariar para nos afirmarmos, discordar sem mesmo saber porquê. Concluía que é melhor esse tipo de conflito, de questãozinha, já que não podemos escapar do confronto, do que discordar em questões de fundo.

Se a alternativa é essa, é melhor, de facto, discutir porque a pessoa deixa as meias onde não deve…

Sem querer encerrar-me em mim mesma e ao mesmo tempo não conseguindo escapar, para um INFP, o conflito é algo a evitar a qualquer custo. Exceto se estão em causa valores inquestionáveis, não negociáveis, inalienáveis. Aí, das duas uma: ou levamos tudo à frente ou nos retiramos.

O conflito desgasta-nos, acaba connosco, principalmente porque só acontece entre pessoas de quem gostamos muito e verdadeiramente. Com as outras, não nos damos a esse trabalho. Além de que não perdemos tempo com trivialidades. Por isso, é-nos impensável discutir por merdinhas… Já que, para nós, a questão é de significado. E o conflito, o confronto, só acontece quando nos sentimos ameaçados. Quando algo que nos é vital está em risco.

O conflito é inevitável, mas não precisa de ser forçado.

A vida já é difícil e desafiante quanto baste para forçar o que quer que seja. conflito

Por isso, a alternativa: conflito ou conflito não me serve. O que me/nos serve é descobrir o que está por trás da necessidade de fazer questão de deixar pozinho verde na bancada. Ou despejar uma cafeteira de água fria na cabeça da nossa namorada quando esta está a tomar banho, sem que ela perceba, como vi num filme ontem.

Que necessidade está por expressar? Porque não a expressamos? Que tipo de relação temos com o outro e connosco que nos impede de abordar o problema?

É certamente mais útil do que irritar a pessoa de quem gostamos e com quem escolhemos partilhar a vida. Até que só consiga ver isso.

Nada de bom vem de um conflito. E eu não acho que seja preciso para que as pessoas cresçam em conjunto, no relacionamento. Se tiver de ser, seja porque pensamos diferente, estamos em momentos diferentes, vemos e sentimos as coisas de forma diferente. Para que nos conheçamos mais e melhor. Para chegarmos mais e melhor uns aos outros. Para que haja conexão e não distância, defesa, isolamento.

Sem condescendência, tabus, ou elefantes na sala.

Mas com confiança e humildade suficientes para que possamos expressar o que seja que nos incomoda, magoa, fere de morte.

Porque o motivo que está por detrás do conflito é poder e por aí ninguém cresce, apenas se submete ou domina, vive em co-dependência.

O amor liberta, a rejeição prende.

Que é o que no fundo sentimos quando não conseguimos chegar ao outro. E bom mesmo é quando decidimos livremente ficar com a pessoa que escolhemos para partilhar a vida, ideias, afeto, vulnerabilidade, intimidade. Em vez de a escolhermos por carência, coação, manipulação emocional, toxicidade.

*Ref.

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