Corona

21/03/2020

Desde que o Corona vírus chegou a Itália, e que todos percebemos que a ameaça era real e global, já tive todo o tipo de reação.

Brinquei, mas não gozei, nem desdenhei, gritei, disse todos os palavrões que uso normalmente, várias vezes, irritei-me muito, e ainda me irrito, quanto maior presença nas redes sociais, mais me irrito. Procurei culpados, exigi responsabilidades, cobrei-as, assustei-me verdadeiramente, tive muita raiva e chorei. Várias vezes. Demorei ainda mais para adormecer do que é costume.

Assumi todas essas emoções

Vivi-as, e continuo a vivê-las, todas. Apropriei-me de todas elas. São todas minhas. E todas naturais.

Estas e outras não passam de tentativas de controlar o incontrolável.

E nós só conseguimos responder com o que conhecemos. Matemáticos, por exemplo, tentam prever a curva e o número de mortos e infetados, porque é o que lhes dá segurança, sensação de controlo, desconhecendo e desconsiderando todas as variáveis. Sem cuidado algum quanto ao impacto que isso poderá ter na cabeça das pessoas.

E de lidar com a impotência perante um inimigo invisível.

Faz parte do meu processo de aceitação. Processo esse que é progressivo.

Não partilho informação que não posso confirmar como verdadeira, em lado nenhum. E que só serve para espalhar o medo e a paranóia. Não entrei em paranóia. Mas procurei sintomas que nem uma desesperada. Muito menos dei ordens a alguém. Não policiei a vida de ninguém. Sequer me atrevo a reclamar dos velhinhos que moram sozinhos e que saem para encontrar os amigos, porque sei muito bem que temos de fazer o que nos faz sentir seguros. E os velhinhos sabem disso melhor do que ninguém. Viveram muito mais do que nós, viram muito mais do que nós, sabem o que é melhor para a vida deles do que nós. Obrigar velhinhos que moram sozinhos a ficar isolados em casa é matá-los. Porque é muito fácil dar-lhes ordens, fazer-lhes companhia já são outros 500.

Não acumulei, a única coisa que acumulo e acumulei a vida toda foram livros, tudo o resto compro à medida das minhas necessidades, não tenho um único frasco de álcool em casa, nem de gel desinfetante. Não corri para os supermercados. Nem para farmácias, esgotando tudo quanto é caixa de benuron.

Como fiz a vida toda, só saio de casa em caso de necessidade extrema.

Real. E não para fugir de mim mesma, disfarçando vazio existencial com compras insanas de coisas de que não preciso. E que, como ando a dizer há anos, não me resolvem o problema.

Que é interno.

Não passeio em supermercados, centros comerciais, estradas. Não perco o meu tempo nem faço os outros perderem o seu com carências pessoais que só eu posso resolver, não atrapalho a vida dos outros, não me imponho a eles.

Nunca a minha existência fez tanto sentido quanto agora. Sabe Deus o quanto me questionei e quase enlouqueci.

Nem mesmo os meus comportamentos sociais. Sabe Deus o que me culpei e martirizei por passar horas num sofá a ler. Ou a ver séries ou filmes.

É um tempo de inatividade física, que é fundamental para o inconsciente se tornar consciente. Para o inconsciente trabalhar é preciso ficar quieto, aparentemente apático, sossegado.

Excesso de atividade, qualquer que seja, é fuga.

Tudo o que está a ser agora recomendado foi e tem sido escrito por mim há anos e anos sem fim.

Os meus livros são os dois manuais de sobrevivência para tempos como estes, para a vida inteira. Estão disponíveis em formato digital. Em várias línguas.

São centenas de textos aqui publicados. Centenas.

Deixo este, de ajuda aos atrofiados, que agora se revela tão preciso. É impressionante. E este, poético e profético.

NB: pensei muito se escreveria sobre isto e desta forma, num tom ligeiramente: eu é que sou o presidente da junta. Mas, com este cheirinho a fim do mundo, tenho ainda mais vontade de me expressar sem ter medo do que os outros vão pensar. Ou de como tudo isto possa soar.

Além disso, sei que preciso de tirar isto da frente para que outro tipo de criação possa surgir.

Este é o tempo dos introvertidos.

E eu posso não saber nada sobre ele, mas sei como viver estes tempos, esperei por isto a vida inteira, só lamento que tantas vidas tenham de se perder.

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