Cotão

12/04/2019

Nunca serás uma escritora como deve ser enquanto não te virares do avesso. De verdade. Como quando viras malas ao contrário para as esvaziar e limpar e tens de esticar bem os cantos para lhes sacar o cotão que se lá acumula.

Tens de chegar ao cotão. Ao osso.

Quando deixares de ter medo do medo. Não te importares que os outros conheçam as tuas fantasias, as que se acumulam no canto mais escuro da tua cabeça. E as outras.

Podes ter a disciplina que quiseres.

Sentar o rabo na cadeira e, persistentemente, aí ficares. Mesmo que não saia nada. Levantares-te cedo e seres de uma obstinação doentia. Às 8 e meia em ponto, estares em frente ao computador. Desligares-te às 6 e meia. Arranjares um método, uma fórmula, cumprires horários escrupulosamente. Atribuires-te metas. Nunca serás uma escritora como deve ser enquanto não perderes a vergonha.

Talvez tenhas de partir de um ponto diferente de onde tens partido. Perderes o medo da exposição. Não te deixares atrair pelo doce veneno da vaidade. Resistir ao torpor. E não temer o cotão…

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