Covid-19 – Introvertidos explicam

26/03/2020

Este é sem dúvida o momento dos introvertidos. Dos intuitivos, dos empáticos, dos sensíveis. É um momento excelente para estar vivo. Um paraíso de silêncio. Só é pena ser preciso morrer tanta gente.

E a liberdade individual ser cerceada de uma forma tão extrema.

Ninguém melhor do que nós está à vontade com as recomendações exigidas agora, numa tentativa de conter a pandemia que assola o mundo e que não poupa ninguém. Porque ao que chamam isolamento social é, para a grande maioria dos introvertidos, estilo de vida. 

Eu, em particular, vivi para isto a vida inteira.

Para ver os britânicos a fazer filas para entrar em livrarias, por causa da orientação governamental no sentido do isolamento social.

Também gosto do silêncio, odeio multidões, conversa de circunstância, excesso de ruído e de estímulo externos. E o único espaço exterior de que gosto é a natureza. De preferência, sem uma única pessoa à vista. A presença de pessoas deixa os introvertidos extenuados.

Arrasados, exaustos.

As recomendações fazem sentido, nós podemos ajudar a entendê-las. E temos algumas coisinhas para dizer sobre o assunto.

Quando saem para a rua, em dupla ou mais, para além de terem de falar uns com os outros, ocupam passeios e paredões inteiros, não permitindo aos restantes que respeitem a distância de segurança, sem os obrigar a ir para o meio da estrada.

De resto, se forem sozinhos, demoram-se menos tempo.

E voltam para casa mais rápido.

A não ser que sejam menores de 12 anos, ou incapacitados física ou mentalmente, não precisam de estar permanentemente acompanhados. Além disso, os vossos amigos e família estão à distância de uma ligação, uma mensagem de texto. Há uma série de coisas que podem fazer juntos. Sejam criativos.

Usem a tecnologia a vosso favor.

Antes de irem às compras, tentem perceber se precisam mesmo, de verdade, do que vão comprar. Se não é uma desculpa para saírem de casa. Porque se for, arranjem outros meios mais eficazes de lidar com a ansiedade. Comprar dá uma sensação ilusória de poder e controlo, tenham a certeza se não é essa sensação que procuram. Se for, há outras alternativas. Bem mais eficazes e duradouras.

Mais uma vez, façam-no sozinhos.

À semelhança do exemplo anterior, se forem sozinhos, demoram menos tempo. E, mesmo que fiquem parados no meio do corredor, ainda permitem que outras pessoas passem.

Já que falamos em corredor, deixem os carros e cestos no início do mesmo, ninguém vai roubar-vos as compras. Desta forma, não atrapalham a vida das pessoas que querem passar.

Vão a um supermercado que já conheçam. Assim, não perdem tempo à procura do que querem mesmo.

E levem lista.

Comprem o que precisam para viver. E façam-no, de preferência, APENAS uma vez por semana. Não acumulem. Além disto, deixem as embalagens maiores para as famílias e as menores e individuais para quem mora sozinho. E as mais baratas para quem não tem condições financeiras para pagar pelas que sobram. Despachem-se o mais rápido que puderem e saiam de superfícies comerciais fechadas assim que possível.

Já que estamos todos juntos nisto, pensem que há mais gente a querer fazer compras.

E que precisa de as fazer rápido, por estar a trabalhar. Porque tem pouco tempo, porque deixou crianças ou outros dependentes em casa, pelo que for. Não fique parado em corredores estreitos. Pegue no que quer e ande para a frente. Se não houver, vá pensando em alternativas, enquanto faz o resto das compras. Há sempre, sempre alternativas. E o que não falta são sites de receitas por essa internet fora. Seja criativo. Nada tema, se não comer hoje, come para a semana. O isolamento social está para durar.

Pense antes de partilhar informação.

Ajuda? Mesmo? É relevante? Factual e fidedigna? Verdadeira? Tem conhecimento suficiente sobre o assunto para poder fazê-lo com consciência e noção das consequências? Contribui para o aumento da consciência coletiva? Está a fazê-lo por si ou pelos outros? Para pedir atenção e ser visto? Pela descarga de dopamina proporcionada pelo like? Ou porque, de facto, sabe que a informação é importante e que irá contribuir para o bem comum?

Será que é para lidar com o medo, espalhando assim o medo à sua volta?

Não será demagogia pura e dura? Lembre-se, se não pode fazer nada pelos outros, não fale em nome deles. Não se ache superior, não pense que são incapazes de resolver os seus próprios problemas. Isso não contribui para RIGOROSAMENTE nada a não ser para aliviar a sua própria consciência. A consequência? Perpetuar o queixume e a argumentação sem sentido que não leva a qualquer solução.

Faça o que fizer, pense na consequência.

E no impacto que as suas ações vão ter no coletivo. O coletivo não é uma massa anónima, é o seu amigo, familiar, irmão, filho, sobrinho.

Entenda uma coisa, de uma vez por todas: com ou sem sintomas, ninguém sabe se está contaminado. Portanto, ninguém está a salvo. Ademais, ninguém sabe grande coisa sobre o vírus, a não ser quem está a estudá-lo. E esses são cientistas, epidemologistas, virologistas. Eventualmente médicos, que agora estão demasiado ocupados a salvar vidas. Não é o vizinho, o pivô do telejornal, o primo da tia da irmã do namorado.

Bom senso precisa-se. E empatia…

Todos estamos ansiosos, nervosos, desconfiados, zangados, com medo, apreensivos. Sem saber o que fazer para ter alguma sensação de controlo sobre a nossa vida, perante a imprevisibiliade do que se passa no mundo. Todos estamos a passar pelo mesmo. Precisamos, mais do que nunca, de auto-controlo. Bem como de pensar além do próprio ego.

Frequente redes sociais e sites de notícias o mínimo possível.

Em vez da sensação de controlo de que está à espera, excesso de ruído só vai trazer-lhe mais ansiedade. Se for preciso, desligue todas as notificações. Incluindo grupos de watsapp, ou saia deles, se puder. Mantenha o telefone sem som e virado para baixo.

Não tenha medo de ficar de fora. De estar a perder alguma coisa.

Que algo está a passar-lhe ao lado. A única coisa que está a perder se insistir nesse comportamento é a paz de espírito.

Se for preciso, tire as aplicações de acesso às redes sociais do telemóvel. Eu acabei de tirar a do twitter, que era a que mais estava a perturbar-me. Os níveis de ansiedade desceram para metade. E as redes sociais, como boa introvertida, são o meu meio de contacto com o mundo. Mas também elas e esse tipo de contacto não passam de ilusão.

Façam coisas de que gostam, vos conectam, vos dão prazer.

Coisas que tenham pendentes e não têm tempo normalmente, agora é a hora. De preferência, que envolvam algo mais do que a cabeça, como as mãos. Qualquer forma de criação é válida. Cozinhar, tricotar, desenhar, esculpir, pintar, escrever, entre outras.

Até agora, a confiança das autoridades no civismo dos portugueses tem imperado.

Não passe pela vergonha de alguém ter de o pôr na ordem… De resto, a sua ação pode resultar na saída direta do exército e da polícia para a rua. E aí pode ter a certeza que, queira ou não, vai ficar em casa. É melhor fazê-lo voluntariamente. Se afeta os outros, mais tarde ou mais cedo afeta-o a si.

Saída para exercício físico? Basta uma.

Não invente motivos para sair de casa. Faça-o o mínimo possível e maximize tanto quanto puder essa saída. Para tal, pense e anote, antes de sair, tudo o que precisa de fazer na rua.

Veja o que pode ser feito online.

Enquanto estiver em casa, lembre-se que a grande maioria das pessoas está em teletrabalho. Evite fazer barulho desnecessário. Música alta, marteladas, obras em geral PODEM esperar.

É um excelente momento para pensar no que lhe traz tranquilidade, paz de espírito, conexão. E, seja lá o que for, pode ter a certeza que se encontra dentro de si, não no mundo lá fora.

É um excelente momento para se conectar consigo.

Com o que verdadeiramente importa. E eu sei bem que a preocupação com as contas que vencem no fim do mês é um impedimento. Principalmente para quem já perdeu o emprego com esta pandemia.

O facto de se preocupar, sendo impotente para fazer algo que mude a situação, só vai fazê-lo sentir-se ainda mais ansioso. A ansiedade é um sintoma de quem quer controlar algo ou alguém. É impossível e não passa de ilusão.

De resto, o que existe neste momento do mundo é o presente.

Apenas e só o presente. Preocupação com o futuro só traz ainda mais ansiedade. Um dia de cada vez, em presença plena. Um dia de cada vez.

Tire uns dez minutos para pensar nisto. Em como isto se aplica a si e à sua vida. E no que pode fazer dentro da sua realidade.

Todos os países do mundo apresentam casos

Não pense, por favor, que só acontece aos outros. E, caso o faça, lembre-se, os outros podem muito bem ser também os seus.

Se não estiver a conseguir lidar com tudo o que está a acontecer no mundo, a ordem de psicólogos portugueses tem dezenas de profissionais que podem ajudá-lo. Confie neles, que sabem o que fazem.

No Estado de Emergência, logo depois do telejornal de ontem da RTP, o bastonário da ordem dos psicólogos disse tudo isto e mais um pouco, vale apena ouvi-lo. A linha saúde 24 vai ter pela primeira vez uma linha associada só com psicólogos disponíveis para nos ajudar a lidar com todas as emoções inerentes ao momento em que nos encontramos.

Cuide da sua saúde mental e #Fiqueemcasa tanto quanto puder.

No Comments

Leave a Reply

error: Content is protected !!