Cravinho, Anis e Coentros.

21/09/2016

cravocoentros-copia

Um dia destes ocorreu-me que o motivo pelo qual engordamos quando deixamos de fumar não tem só a ver com o mecanismo de compensação do vazio que reaparece nem com o acordar das papilas gustativas, anestesiadas pelo fumo. Pode ter eventualmente a ver com a necessidade de sentir o gosto de algo mais intenso. Tanto que é normal começarmos a gostar de coisas às quais não ligávamos nenhuma ou de que nem gostávamos por aí além. No meu caso, azeitonas da primeira vez, canela da segunda.

No outro dia manifestei o desejo de, caso acontecesse – o que espero sinceramente que não, gosto da ideia de fumar, do gesto, mas não do sabor, do cheiro, da condição física em que me deixa – começar a gostar de bróculos e demais cenas verdes. Tenho a certeza de que não irá acontecer, o sabor das coisas verdes, que é nenhum, não é suficientemente forte para me atrair. E talvez por isso o apetite por chocolate, a partir de uma necessidade, não de um desejo, de uma coisa forte, capaz até de enjoar. E que por isso desperta o meu lado compulsivo, que se prende sempre com necessidades não satisfeitas porque mascaradas de outra coisa qualquer que aparentemente as satisfaz – o que na verdade não acontece, daí a compulsão – por permanecerem muito profundas, enraizadas e por serem primárias e, portanto, na grande maioria das pessoas e das vezes, inacessíveis.

Por falar em sabores fortes, se há os que me dão vontade de sair a correr, ser espancada por 4 gorilas, engolida por dragões, ficar enfiada numa jaula cheia de insetos, a ter de os sentir, são os do título. Quem os vê assim, de inocente, até os acha bonitos, atraentes, quase irresistíveis. Não se deixem enganar. O Cravinho sabe a algo parecido com dentista, mas que ainda não consigo identificar bem, porque só o cheiro me dá vómitos, mesmo não tendo problemas com dentistas, ainda por cima porque o meu é giro que se farta. É como se fosse o cheiro de 100 toneladas da massa dos dentistas concentrado num aquário fechado só connosco lá dentro. O Anis porque sabe a desinfetante de casa de banho e os Coentros por saberem a uma cena verde que não consigo identificar. E não é a sabão, como a maioria os coentros haters diz, é muito pior. É cheiro e sabor de veneno, daquelas ervas que pululam pelas matas e nos ameaçam de morte só de lhes tocarmos. Uma vez enganei-me, trouxe coentros em vez de salsa, e ia morrendo só com o cheiro.

É o motivo pelo qual também não bebia whiskey, a não ser com castelo. Hoje nem assim. Nem aguardentes, licores, a não ser que fossem doces, Não aguento sabores muito fortes. E coisas que não sabem a nada não me saciam. Como em tudo, é ali no meio que está a virtude. Equilíbrio, sempre. Nem excesso, nem falta.

Mas valores mais altos se levantam e se o anis e os coentros terão de esperar estar amarrada e alguém mos enfiar pela boca abaixo, de nariz tapado, como se faz aos miúdos, os meus drops teriam de ser de limão ou assim, já quanto ao cravinho não posso dizer o mesmo.

De vez em quando, principalmente depois de uma viagem para países com, digamos, condições menos favoráveis aos estômagos e intestinos sensíveis dos europeus, como é o caso de Cabo Verde, gosto de fazer uma limpeza. E é agora que vamos entrar na conversa de merda, literalmente. Foi no Brasil que descobri que nós acumulamos vermes, vermes, imagine-se. Só de pensar na ideia fiquei horrorizada e achei que não haveria vermes a habitar este corpinho de deusa, era o que faltava. Quando vim da Bahia, tomei um comprimido e dei por concluído o processo. Mas cada vez mais gosto de optar pelos métodos naturais, biológicos e orgânicos em detrimento dos químicos. Vai daí, e até já me tinha esquecido, cruzei-me com um artigo com o estimulante título: “Eliminar vermes e depósitos de gordura do corpo” e achei que era um sinal divino. Nesse artigo dizia que os cravings de açúcar poderiam estar relacionados com a presença de vermes nos intestinos, estou a escrever e a contorcer-me de nojo… Vai daí, em nome do corpinho de sereia, anotei a receita, é dificílima, 100g de linhaça outros tantos de cravinho, moídos, duas colheres de sopa por dia, durante três dias. Descanso de três dias e mais três da mistela. De manhã, ao pequeno almoço, misturado com água ou lá com o que quer que seja que as pessoas comem de manhã. Eu misturo com tudo o que me aparece à frente e disfarce o mais possível o sabor. Ao fim de um mês, perceberemos a diferença, ameaçam eles. Achei que eram apenas seis dias disto, mas agora que reli tive um arrepio pela espinha acima, será que é um mês inteiro desta brincadeira? É até acabar o pó? Só me meti nisto por saber que eram três dias, três dias é tranquilo, em termos. Pelo sim, pelo não, só fiz 80g, trazer três pacotes de cravinho de uma vez pareceu-me demais. Os efeitos da linhaça nos intestinos já conhecia, os do cravinho é que não, mas é bom que seja ainda mais eficaz, esta merda tem de servir para alguma coisa. E se os resultados forem os esperados, vou amanhã buscar mais 40g… 20g de crédito, só para garantir.

Juntamente com uma receita de smoothie, faço sem iogurte, que diz que queima gordura, envolve espinafres e é boa, boa, isto vai lá.

Tenho de ir ao médico marcar uma série de consultas e análises e são já demasiados sinais interiores de velhice para um Peter Pan só. Preciso de recuperar a forma para conseguir encarar tudo o resto. Negação é o meu nome do meio, never underestimate the power of denial…

  • Elaine 21/09/2016 at 15:26

    Fartei-me de rir. O terceiro parágrafo é memorável. E nem me fale em viroses e vermes e intestinos rebeldes. Peter Pan aqui já está nos bisnetos.

    • Isa 21/09/2016 at 15:33

      ahahahahahahahaha :D

    error: Content is protected !!