Cristiano Ronaldo e a alegadamente inatacável Der Spiegel

07/10/2018

A peça jornalística apresentada pela Der Spiegel na sua versão inglesa, na qual Cristiano Ronaldo é acusado de violação, é tendenciosa. O facto de apresentar alegados documentos comprobatórios não faz dela inatacável.

É tendenciosa no sentido em que descreve com demasiado detalhe a queixosa, implicando necessariamente a sua aparente vitimização e fragilidade, opondo-a ao predador Cristiano Ronaldo, que, por sua vez, ao lermos a reportagem, é imediatamente culpado. Sem direito a julgamento, a que outras partes sejam ouvidas, como a amiga da queixosa, a quem confessa: foi uma grande noite, à saída do quarto, à entrada no elevador…Ronaldo

Uma reportagem não é um julgamento.

O dever e a obrigação ética e moral, é aqui que a peça pode ser atacada, e muito, é o de imparcialidade. De ouvir todas as partes envolvidas, de investigação e de humanização. Numa reportagem séria, as pessoas são humanas, não deuses, semi-deuses, celebridades e desgraçadinhas. Vítimas ou agressores.

Há gente, maior, vacinada e com responsabilidades.

Mesmo que a maioria das pessoas só se baseie em achismo, ainda há quem entenda verdadeiramente do assunto e se atreva a questionar a afamada e aclamada Der Spiegel. Ainda que o Governo Sombra inteiro diga que é inatacável. Eu mantenho-me firme. E juro perante o RAP.

Como, em 9 anos de terapia, com manifestos sinais de stress pós-traumático, esta mulher não foi tratada?

Ou não há stress ou a terapeuta é uma merda. O que, convenhamos, para quem alegadamente ganhou 350 mil euros para ficar calada, com algum desse dinheiro arranjava terapeuta melhor. O Jung reencarnado, eu sugeria.

O facto de ela não poder falar no assunto não implica a ausência de sinais visíveis, físicos e discursivos, do distúrbio. Já convivi com uma pessoa com stress pós-traumático e vi: não há dúvidas de espécie alguma para qualquer pessoa.

Para um terapeuta seria um sinal de alarme.

As duas reportagens da conceituada Der Spiegel, de dois anos diferentes, contradizem-se no testemunho da queixosa. Para uma reportagem com tanto detalhe, e em se tratando do melhor do mundo, não sei pela queixosa, mas eu lembrar-me-ia se ele me ligou ou se me mandou um sms.

No jurídico, ao contrário do que se passa na cabeça da maioria das pessoas, os detalhes que contrariam a nossa crença são importantes.

Jamais ignorados.

Por um lado, sabia que era alguém famoso, não lhe ligou muito, viu que ele estava ali e seguiu a sua vida. O vídeo revelado esta semana pelo Sun mostra tudo menos displicência por parte da queixosa.

Dizer, mais uma vez, que ela sabia ao que ia, como qualquer mulher saberia, independentemente da profissão que tenha, não quer dizer que ela “mereça”, só alguém que sequer passou perto do que é abuso pode usar um verbo destes, ser violada. Vai, aliás, uma distância imensa.

A maioria das pessoas vive como se tivesse 10 anos. Se é uma coisa, então é porque não é a outra. Não há lugar a cinzentos na cabeça desta gente.

Na minha há.

Já por toda a fantasia que vai na cabeça alheia, só o alheio é responsável. Eu não. Sei muito bem o que digo e o que penso.

Em país nenhum do norte da Europa esta questão da proteção das mulheres estaria em causa. Precisamente porque elas não se veem como menos do que os homens. Queria ver se fosse na Suécia, por exemplo. Ou na Holanda, onde uma blogger contou uma vez, meio escandalizada e reconhecida feminista, que nenhum dos homens com quem estava, todos norte-europeus, se ofereceu para acompanhá-la até casa. Sequer questionou. A ter sido, era um latino. Ou Grego, que vai dar no mesmo, para este efeito. Porque a uma holandesa, escandinava, alemã, britânica, jamais passaria pela cabeça pedir que a acompanhassem até casa porque era mulher. Era uma da manhã e o sítio era isolado.

Estamos na Europa (do norte, no caso), não na favela da Rocinha. O que prova que o machismo em Portugal está enraizado de tal maneira que a maioria das mulheres, e dos homens, trata a queixosa como se ela fosse uma incapaz, inocente, tivesse dez anos e não pudesse defender-se. Isso é machismo, e de um paternalismo insuportável, disfarçado de cuidado. É co-dependência e projeção disfarçadas de solidariedade.

No caso em apreço, é um adulto contra um adulto.

Ele não está acima de qualquer suspeita por ser o Ronaldo. Nem ela por ser mulher.

Se ele pagou, de facto, 350 mil euros para ela se calar, também não quer dizer admissão de culpa. Vocês não têm ideia do que eu pagaria e quanto para não ter de me chatear. Alegadamente, ele ainda negociou. Se estivesse preocupado, e fosse culpado, pagava até com as calças que tinha vestidas.

Relembramos que, nesta incrível e inatacável reportagem da afamada Der acima de qualquer suspeita Spiegel, em momento algum, nem à época, nem no ano passado, nem este ano, Cristiano foi visto ou sequer ouvido durante a acima de qualquer suspeita investigação da revista alemã. Ouve-se apenas uma das partes envolvidas e condena-se a maior figura planetária em praça pública mundial. Sem sequer ser ouvida. Em 2018. Só faltam as pedras e a forca. Se isto não é ser tendencioso, não sei o que será.

Cristiano Ronaldo contratou o advogado das celebridades, o melhor do Estado do Nevada.

Eu, se tivesse o dinheiro dele e fosse a única figura planetária do momento, nenhum músico, artista, o conseguiu até agora. Até na Coreia do Norte devem saber quem ele é… Contrataria esse e mais dez iguais a ele. Isto não quer dizer que tenha cometido um crime, mas que usarei tudo o que tiver ao dispor para me defender do que me estão a acusar e eu sei ser inocente. Quanto mais não fosse, para não ter de me chatear. E depois de ouvir ONZE acusações contra mim.

Sei que vocês, que não têm nada a temer, contentavam-se com um defensor público nomeado pelo Estado, que, em vossa defesa, apenas diria: pede-se justiça.

Até que se prove que houve violação, não sexo, violação, eu acredito no Cristiano. E não, isto não quer dizer que eu a acho uma puta, e suas variantes, mentirosa, gold digger, o próprio do Lúcifer encarnado. Só quer dizer que eu acredito na inocência do Cristiano até prova, ou admissão de culpa, em contrário.

E, ainda assim, a comprovar-se que cometeu um crime, que pague a dívida à sociedade que tiver de pagar. E à queixosa, só então vítima de um crime, e que se reerga. É a única coisa que pode fazer. E só terá de pagar pelo SEU crime, não pelo de todos os violadores, de todos os tempos, de todas as galáxias. É assim que funciona o sistema de justiça. Não gosta, volte para a Idade Média, pode ser que lhe calhe a si,

Um comportamento não faz um homem. Uma vida sim.

Cris forever, and ever.

cris

A Der Spiegel o que quer? Publicidade. E algum desejozinho recalcado de que o deus grego perfeito da bola, que não é alemão, é lá daquele país que só quer putas e vinho verde, mas é o melhor do mundo, se estrepe bem estrepadinho. Aquela coisa deles da perfeição não lhes sai do sangue. A crise na imprensa escrita é mundial e dificilmente reversível. A Der Spiegel não é menos do que a Folha de São Paulo. Ou a New Yorker. Ou a Vogue. E um gajo até investe na revista em papel, se for preciso, para não falar nos cliques online. E visitas. Um tema quente destes vende milhões e milhões.

Não vou entrar em teorias da conspiração, mas, desde que saiu do Real, Cristiano Ronaldo não tem tido descanso. Para além de parar de ser reconhecido oficialmente com prémios merecidos. E da suspensão na sequência de vermelho direto inexplicável num jogo importantíssimo da Champions League. Agora, sabemos que é alvo de acusações gravíssimas de um dos mais hediondos crimes, por uma revista. Já que estamos numa de investigar, e que toda a gente parece entender imenso de reportagem, investigue-se. Nomeadamente o presidente do clube madrileno. Porque não? Afinal, não há inatacáveis…

NB: Tive nota máxima no trabalho de conclusão da pós-graduação em jornalismo literário, a disciplina do jornalismo que trata, por exemplo, a reportagem.

  • qwert 08/10/2018 at 20:26

    Eu li o artigo , e tudo se baseia em ela ter dito “não” e “pára”.
    Só quem desconhece o português é que pode tirar essas conclusões deturpadas.
    Eu estava lá e ouvi tudo …
    (….)
    Uí ….Uí…aí…uí…
    Não pára ! Ronaldinho ! Não pára..!
    É isso aí rapaz ! Não pára !
    Uí …aí…Uí… Não pára! Não pára !
    ( … )
    Acho que tudo não passa de um mal entendido, e a culpa é do acordo ortográfico , que tirou o acento ao pára , e ficou…. para…. para…. e depois gera-se a confusão…
    … este pessoal tem de aprender a falar português antes de tirar conclusões precipitadas…

  • Isabel Benito 13/10/2018 at 16:57

    Gostei imenso do seu texto. Porque penso exactamente da mesma maneira. Esta história tem mais “buracos” que uma flauta. É, por exemplo, importantíssimo saber se o “acordo” partiu de Ronaldo ou de Mayorga e em que circunstâncias. Porque, a ter partido dela (e tudo indica que sim, uma vez que houve “negociação”, e que dos 900.000 dólares pedidos, apenas recebeu 375.000), ao comportamento de “ou me dás dinheiro, ou eu conto tudo!” dá-se o nome de “chantagem”. Ora, alguém que chantageia o seu agressor mostra uma coragem e sangue-frios que são um bocadinho incompatíveis com a imagem de uma pobre traumatizada durante 9 anos… E estou totalmente de acordo consigo relativamente ao péssimo trabalho do terapeuta, e às deduções que faz sobre isso.
    Dizia Helena Garrido, no Observador, que a violação é um crime hediondo quase equiparável ao homicídio. E eu fiz-lhe a seguinte pergunta: passará pela cabeça de alguém que tenha assistido ao assassínio de um ente próximo (filhos, mãe, pai, irmão…) ir negociar com o assassino um pagamento para ficar calado?! Se sim, o que dizer desta pessoa?!
    Acredito que uma vítima de violação possa ficar anos calada, e traumatizada uma vida inteira. Que tente “esconder” o facto, muitas vezes até por vergonha, que se isole… Mas não acredito que uma pessoa que tenha passado por uma experiência absolutamente traumática como esta a primeira coisa de que se lembre seja dinheiro…
    Penso também que os casos de violação a prostitutas têm de merecer um “cuidado” um bocadinho diferente daquele que é dado a casos de violação dita “tradicional”. Precisamente por causa dos “cinzentos” (de que é paradigmático o comentário anterior…). Embora a violação de prostitutas exista, e seja absolutamente condenável, não é a mesma coisa avaliar um caso de sexo parcialmente consentido (em que pode ter havido uma má interpretação relativamente aos limites impostos pela vítima), e outro em que não houve consentimento nenhum de nada (e onde o violador sempre soube que o limite estava logo na linha de partida). Há duvidas num caso, que não existem no outro.
    Pensar que é impossível que haja mulheres que se possam aproveitar desta “moda” do #MeToo para “inventar” violações que, efectivamente, não o foram, e para lucrarem financeiramente com isso, é pura ingenuidade. Não estou a dizer que é o caso, mas é, sem dúvida, uma hipótese que é necessário considerar.
    Por fim (e é uma das coisas que me incomoda particularmente neste caso), penso que se há homens que consideram que podem fazer o que quiserem a uma mulher, porque é tudo uma questão de lhes passar um cheque no fim, é precisamente por haver Mayorgas com quem isso funciona…
    Obrigada pelo seu artigo. Foi o melhor que li até agora.

    • Isa 14/10/2018 at 18:01

      Muito bom o seu comentário, obrigada. E sim infelizmente o #metoo que tinha tudo para ser um movimento que protege as mulheres, dando-lhes autonomia, tornou-se, infelizmente, como muito do feminismo militante, uma forma de controlar o masculino, os homens. E se uma mulher não concorda com outra mulher é logo apelidada sei lá de quê porque não é solidária. Bardamerda, a mim não me convencem com essa conversa e esse tipo de argumento é o suficiente para me irritar e enfurecer. Não para me solidarizar. Eu não quero controlar ninguém, exercer qq tipo de poder sobre os homens, apenas quero respeito e segurança emocional para dizer sim, não e talvez ao que quiser. E que as crianças, meninos e meninas, a tenham também. Não tenho a mínima paciência para o somos nós contra eles. Eu quero-os do meu lado, ativos, não do lado oposto ou anulados ao meu lado, com medo das mulheres.

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