De vítima a protagonista

28/02/2018

Ontem falava-se do último adeus, do que faríamos com quem nos infernizou e quase nos destruiu a vida, no leito de morte do tirano em questão. protagonista

Considerámos tudo.

O sim, só para não ficarmos com pesos na consciência, acabando eventualmente por ficar com raiva de nós, por, mais uma vez, nos deixarmos manipular; o não, por não conseguirmos e pronto; a maior ou menor proximidade emocional; o facto de não nos sentirmos capazes do perdão, principalmente tendo em conta a perspetiva narcisista de quem o pede, no sentido em que o faz apenas para partir em paz, eventualmente sem o mínimo de consciência quanto ao impacto que causou, sequer consideração, “you are sad and you are sorry but you are not ashamed” que viva, ou morra…, com as consequências; a possibilidade de ficarmos presos a essa pessoa e ao facto de, mesmo depois de morta, continuar a infernizar-nos a vida.

Porque a mantemos cativa em nós.

Pode parecer desumano, cruel, cobarde, até. Que estamos a chutar cachorro morto. A bater em quem já está no chão. Podemos desculpar-nos, fugir com o rabo à seringa, dizendo que a pessoa sabe perfeitamente o que fez e por isso não precisamos de escarafunchar a ferida. Mas é importante dizê-lo.

Não pelo outro, mas por nós.

Não para o acusar, nos pormos em biquinhos dos pés, o usarmos e à sua condição para nos valorizarmos. Mas para que tomemos contacto com a dor. Para que assumamos que saímos profundamente magoados da história. Que consideramos o outro o suficiente para sermos dignos do seu afeto. E que nos magoou profundamente essa ausência, essa agressão, essa desconsideração.

Essa falta de amor.

Só dessa forma podemos ficar em paz, e deixar o outro ir em paz. Libertando-nos mutuamente. Só assim passamos do estatuto de vítima ao de protagonista. Que nos assenta muito melhor…

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