Deixem os turistas em paz

23/06/2017

Ontem, para encontrar uma amiga de SP no Terreiro do Paço, saí no metro no Rossio e fiz a rua Augusta a pé.

Há imenso tempo que não ia ao centro de Lisboa, porque a cidade me faz cada vez pior e talvez por falta de motivos suficientemente fortes para tal. A última vez tinha sido por ocasião da presença de amigo paulistano, mas era de noite.turistas

Ontem, que felizmente dava para aguentar, vi Lisboa à luz do dia, com o céu mais azul do mundo, a água do rio com cara de mar, e uma vida indescritível. Tudo renovado, tudo colorido, tudo bonito de verdade. Acho que até disse alto:

Lisboa é uma cidade mesmo bonita. E que sorte tenho de ser a minha.

Gosto muito de ser lisboeta, mas não gosto do que a cidade faz comigo. Morar na praia tem-me mantido sã nesse sentido.

Saio então no metro no Rossio e, para além das cores da cidade, o que me deu uma alegria imensa foi ver a quantidade de gente diferente que circula pela capital do império.

Adoro gente de todas as cores, todos os tons, louros, ruivos, brancos transparentes, morenos, gente de calções e óculos escuros, em bando, sozinha ou em casal. Gente de mapa na mão, a descobrir, a encantar-se com a minha cidade que é mesmo a mais bonita do mundo. Adoro ir girando a cabeça, observando os moços bonitos, as miúdas sorridentes, gente de todas as idades, a forma como se vestem, os cortes de cabelo, as vozes, todas as línguas que se ouvem por todo o lado, entenda-as ou não, sentir a boa disposição no ar, um silêncio quente.

Lisboa, além de tudo, é uma cidade silenciosa.

E a isso devemos o gene português. O silêncio é das melhores coisas do mundo.

O Terreiro do Paço está uma maravilha

Em boa hora se de lá tirou a burocracia dos fatos cinzentos para se lá plantar espaços cheios de comidas boas e lugares alternativos. Jamais a culinária portuguesa irá perder-se. Deixem que haja opção de comida mais leve, pelo amor de deus, estão 60 graus… 

Resolvemos ir a pé até ao Chiado.

Passámos em frente ao Martinho da Arcada e deu-me uma coisa no coração. Olhámos uma para a outra e convencemo-nos ali, naquele momento, que já havíamos de ter partilhado uma mesa no Martinho, dividindo o tampo de mármore com o Pessoa.

As velhas e os gatos de Alfama

A ser verdade que tiraram as velhas e os gatos de Alfama para lá alojar viajantes, acho mal. Alfama é das velhas, dos gatos gordos nas janelas e do cheiro a alfazema dos lençóis pendurados nos estendais, ocupando as vielas. Dos fados a sair das janelas e dos boémios.

Mas a culpa não é dos turistas, arranjem lá outro bode expiatório. E bem sei que o desporto nacional é reclamar, arranjem outro motivo, e…

Deixem os turistas em paz.

Para uma cosmopolita, alguém que ama a sua cidade e a quer ver feliz, não há nada melhor. Ignorem-nos, contornem-nos, vão à vossa vida e deixem-nos curtir.

Artist’s Date 173/365 – Go People-watching Downtown

*A segunda foto é da minha loja preferida de todo o sempre, onde já deixei verdadeiras fortunas. A fachada faz jus ao conteúdo, é linda, alternativa, com pinta e diferente.

  • Raquel 23/06/2017 at 16:34

    Lisboa é uma cidade linda, com muito para visitar. Gostava de ir lá mais vezes, apesar de ser de lisboa não estou a morar lá!

    • Isa 23/06/2017 at 17:09

      Pois é :) eu também sou de Lisboa mas moro a vinte minutos de lá, o que é perfeito.

  • Elaine 24/06/2017 at 00:59

    Este texto arranha meu coração e embala a minha alma. Obrigadinha, miúda irmã.

    • Isa 24/06/2017 at 09:34

      Obrigada eu, como te dizia ontem, se não são vocês eu não saio do tugúrio… :) Bjo

    error: Content is protected !!