Desavisado

21/10/2016

E se não for? E se o método tradicional estiver demodé? Se escarafunchar na ferida for uma manobra de diversão do teu cérebro, fiel depositário de todas as tuas neuroses, para te distrair da tua responsabilidade? E te manter enclausurado numa tristeza e numa impotência sem fim? E se isso que tu chamas ferida, trauma, dor, for outra coisa? For o grito surdo que tentas calar? O instinto que reprimiste? O que não disseste? Não fizeste? E ficar aí, nesse buraco escuro, a chorar a dor e a aceitá-la como irrevogável, irrefutável, negar a possibilidade de ter sido outra coisa? De seres outra coisa? Porque enquanto te vires vítima das circunstâncias serás sempre vítima da vida, desgraçado ou revoltado. E não estarás a aceitar quem te calhou em sorte, ao mesmo tempo que esperas ad aeternum que quem te calhou em sorte se transforme noutra pessoa, num passe de mágica, seguindo frustrado e desgraçado, eterna vítima. Pior, verás apenas os seus defeitos, as suas carências e neuroses, e, cheio de superioridade moral, como se isso te resolvesse o problema, afirmas, imbuído até aos olhos de condescendência: coitados, não sabiam fazer de outra maneira, fizeram o melhor que souberam e puderam. Há gente com vidas piores. Como se isso não fosse uma forma inconsciente de garantires a aprovação e a proteção de quem te queixas não ter-te protegido, amado, acolhido, cuidado. Como se isso te mudasse, como se contar meia dúzia de histórias para boi dormir resolvesse anos e anos de repressão, de contenção, de vida não vivida, de sentimentos engarrafados, necessidades inexpressas, carências não assumidas, ódios preenchidos com cigarros e comida, álcool e drogas. E compras, e sexo, descomprometido e indolor. Trabalho em excesso, exercício físico em excesso, rigidez, lassidão, o que for, em excesso, obsessivo, esquizofrénico. Como se fingires que não aconteceu resolvesse. Como se atribuíres a responsabilidade pelas tuas frustrações, as tuas não-ações, os teus vazios verbais a quem quer que seja não fosse já de si suficientemente esquizofrénico. Não se trata de negação, muito menos de fuga, é impossível fugir da dor. Mas de objetividade, se queres andar para a frente, tens de fazer como as aves, empurrar-te a ti próprio para fora do ninho, para poderes voar com as tuas próprias asas. Já sabes que podes ser uma boa mãe de ti próprio, mas uma boa mãe é nutridora e bruxa e está na hora de parares de te proteger demais. Também não é de desprezo que falamos aqui, de camuflar fragilidades, mas de as assumir, eu não tive coragem de gritar, de esbracejar, de pontapear, não interessa porquê, o que faltou, não tive coragem de enfrentar, de dizer, de assumir, de mudar ou partir. E amar essa pessoa que não teve coragem, não conseguiu, acreditou no que quis, priorizou outras coisas. Nunca lhe exigir muito menos cobrar o que não tem, não teve, não pôde. Jamais. Reconhecer-lhe o esforço em se manter viva, porque foi isso que fez, lutar pela sua sobrevivência. Exigir mais seria cruel, desvalorizar seria quase sadismo, tortura, abuso emocional. Validar, só isso, é só isso que podes fazer. E mostrar-lhe que agora pode ser diferente, que não está presa num novelo familiar neurótico, a família é uma neurose, que te protege e te envolve numa teia muito própria e da qual não necessariamente tens de sair, mas onde terás de te afirmar. Para que possas ser tu a decidir a tua vida, em vez de andares à mercê da neurose, controlado por ela, deixando que te defina.

No peito dos desafinados também bate um coração

  • margarida 21/10/2016 at 14:58

    Isa, adoro-te!
    “… Eu não tive coragem de gritar, de esbracejar, de pontapear,… De mudar ou partir. E amar essa pessoa que não teve coragem.. E mostrar-lhe que agora pode ser diferente..”
    Enquanto houver esperança vamos caminhando.

    • Isa 21/10/2016 at 15:10

      Desenvolvi essa parte, minha querida <3 <3 <3

      Sim, possibilidade, sempre, sempre a possibilidade.

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