Descartável

03/11/2017

Sou adepta do descartável por motivos de saúde e higiene. Das fraldas, giletes, agulhas e luvas descartáveis. Do que posso usar e deitar fora que me impeça de passar horas na cozinha a lavar pratos e copos. Talheres e guardanapos. Mas acho um exagero que tudo se descarte. O estragou, deita fora e compra outro. Da dificuldade que há hoje em dia em mandar arranjar eletrodomésticos. E do preço que se cobra por isso. Que induz que mais vale comprar outro que fica mais barato. Da esquizofrenia em que se tornou o consumismo.

Por causa do ambiente e do descaso.

Tanto quanto a ansiedade que me dá o apego e o acúmulo. Que me tornam apática por causa da ausência de novidade. E infeliz por causa da chatice da rotina. Mas sem exageros.

Descartar sentimentos e monumentos não.

Sou a favor de manter o que é bonito, contém uma história, dá um charme extra a uma cidade. Das coisas que mais me transcendem no Rio é o estado absolutamente decadente em que se encontram as igrejas da Lapa e os edifícios mais antigos. Sendo o cartão postal do Brasil, é chocante a ausência total de preservação. Por oposição a Salvador, que recuperou todo o Pelourinho, dando-lhe um colorido encantador. E de em São Paulo se terem mandado abaixo uma série de edifícios históricos na Paulista para se construir prédios altos, em nome da economia e sabe deus que mais patranhas. Para estar tudo meio abandonado, entregue aos Call Centers, e a Berrini se ter transformado no novo centro financeiro da cidade.

Das coisas que mais me encantaram quando voltei à Europa, a antiguidade e boa conservação de edifícios com boas centenas de anos ocupa um lugar cimeiro.

Sou do tempo em que o centro de Lisboa estava ao abandono.

Edifícios lindíssimos, com fachadas de fazer cair o queixo, estraçalhadas pelo tempo. Por isso, fiquei felicíssima com a reconstrução do Palácio de Santa Catarina.

Estive lá num lounge da Experimenta Design em que a entrada era controlada porque havia o risco de o chão ceder. O espaço estava à pinha, era o dia da inauguração, e dava para ver a beleza imponente de outros tempos, e para chorar por aquele chão.

Hoje é um hotel e eu fico feliz que a corrupção e a ganância disfarçadas de esquizofrenia da modernidade não cheguem a Lisboa. Que não se deitem abaixo edifícios históricos para se construir mamarrachos que descaracterizam as cidades. Lhes escondem a História e lhes acabam com o encanto.  descartável

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