Deus é mulher

12/08/2019
Deus é mulher é o título da tour da Elza Soares deste ano.

Elza é provavelmente uma das maiores defensoras das mulheres, do Brasil. Nos seus shows, e muito por causa da sua história de vida, sem se vitimizar, apela sempre à força das mulheres, à união.

Já o tinha testemunhado no show anterior, Mulher do fim do mundo.

Neste, eram frequentes os pedidos: cadê as mulheres? E só as mulheres gritavam ou acenavam. Quero ouvir só as mulheres. E lá íamos nós.

Os homens poderiam fazê-lo, poderiam celebrá-las, às mulheres das suas vidas, mães, irmãs, sobrinhas, mulheres, namoradas. Poderiam aplaudir. Mas não. Ficavam quietos, braços ao longo do corpo, quase imóveis, à espera que acabasse a ovação.

Juntamente com o clássico em todos os shows: “você vai-se arrepender de levantar a mão para mim”, repetido até à exaustão, para que nos fique gravado na memória e o possamos acessar rapidamente.

Foi isto o show inteiro.

E se na grande maioria do tempo estive meio de lado e mal me apercebi, antes do encore fui à procura dos meus amigos, que estavam bem atrás, ao pé do técnico de som. Aí, dava para ter uma perspetiva boa de toda a gente, por estar mais central. E era impressionante…

Ninguém ousou desafiar a deusa…

Reação semelhante acontece quando, perante alguém, mesmo mulher, que esteja a abusar, a exercer posição de poder sobre outrem, tentando subjugá-la, dizemos: acabou o patriarcado.

E nem precisamos de levantar a voz.

Acabou o patriarcado dito na hora certa, e não a propósito de tudo e de nada, com o objetivo de calar o outro, isso também é patriarcado, toda a forma de opressão o é, seja perpetrada por homens ou mulheres, faz-nos apossar-nos da nossa estrutura interna. Aquela que nos dá segurança emocional para não mais permitir abusos de qualquer espécie. A que não revela qualquer tipo de neurose, pelo contrário, apenas autonomia emocional.

Não há resposta masculina para isto. Há um simples silêncio.

Não depender financeiramente de um homem foi uma conquista imensa para as mulheres. Mas se com isso perdemos a conexão com o feminino, então também nós temos uma crise interna para resolver. A reconexão com os temas do feminino psíquico: a nutrição, o sentimento, o acolhimento, a receptividade.

É, entre outras coisas e acima de tudo, de segurança emocional que precisamos.

Sendo o tema arquetípico das mulheres a relação, entre pessoas e coisas, eventos, símbolos… É natural que as mulheres façam tudo e aguentem mais um pouco para preservar uma relação. É a relação que inconsciente e biologicamente lhes garante o lar, a estrutura para que possam ter filhos e criá-los.

E, em nome dela, estamos dispostas a muita coisa.

Os filhos, apesar de serem feitos por duas pessoas, ainda são a primeira escolha de muitas mulheres. E bem, somos leoas, protegemos as nossas crias. E não há construção social ou psicológica que mude isto.

É biologia, instinto.

Apesar de haver, claro, histórias de mulheres que largam tudo e se fazem à vida. Não conheço uma que não se culpe a vida inteira por tal. É biologia, não religião, igreja, melhor dizendo…

E, ao que se sabe, para que a espécie perpetue, ainda não se inventou outro método a não ser este, o biológico…

Só que a relação não pode sobrepor-se à integridade física e emocional do ser individual. E, pensando bem, que tipo de coisa estamos a perpetuar? Que tipo de exemplo estamos a dar aos nossos filhos?

Que tipo de contributo social queremos passar adiante?

Não quero com isto dizer que à mínima contrariedade, ao mínimo desfazamento, a coisa se desfaça. Mas as cedências têm de ser de parte a parte. E as pessoas precisam de se apaziguar com o papel que representam. E querem representar.

O projeto filhos, por exemplo, é um projeto comum…

Mesmo que nos dois primeiros anos dificilmente exista mais alguém na relação mãe-filho. Mas é algo que precisa de ser “contrariado”. O desejo da mãe de se sentir útil, querida, de ter uma coisa que é só dela e é incrível, e com isso chamar para si toda a responsabilidade, excluindo o pai do processo. E o do pai, de se ligar, de contribuir, de fazer a sua parte. Sem ser preciso pedir… E aguentar o choro…

Há instintos biológicos que não vale a pena sequer discutir.

Mas também foi para isso que se fez o cérebro. Para os controlar, os adaptar à realidade psíquica, consciente e civilizacional.

A crise de identidade masculina está há tanto tempo no ar ao ponto de se ter tornado um clichê. É crise para a qual me interessa particularmente contribuir de forma construtiva. Não quero um homem sem saber ser homem. Nem que os meus sobrinhos sejam abusados ou abusadores por não saberem o papel deles.

É acompanhar os textos sobre o caminho arquetípico do masculino, em fazendo a gentileza.

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