Dia Internacional da Mulher – O medo do feminino

09/03/2019

No outro dia, amigo chocado dizia que uma mulher na Índia havia sido queimada com ácido por algo tão prosaico como, sei lá, querer conduzir, ter um amante, não sei bem. Disse-lhe que na Índia é o prato do dia. Ouvi o mesmo método ser usado no Brasil, o país onde o sexo é tudo menos tabu. E sempre que uma mulher se atreve a ser autónoma.

Congratulámo-nos todos muito por, aqui no Ocidente, sermos civilizados.

Foi nos Anos 60, ontem, que as mulheres eram tratadas com paternalismo e enviadas para a cozinha, para cuidar das crianças. Ou apareciam em público apenas para que ornassem bem com os maridos. Não lhes era permitido emitir qualquer tipo de opinião, sequer frequentar universidades de medicina ou Direito.

É preciso ser mulher e carregar em todas as células a violência, o abuso, a prepotência do masculino para saber que só à superfície as coisas mudaram.

Basta olhar para as relações pessoais…

Quantos homens são capazes de parar quando a mulher lhes diz que não? Quantas mulheres cedem, mesmo não querendo, quando têm o seu homem em cima delas? Quantos homens invadem o corpo de uma mulher que não conhecem na rua, com olhares e bocas? Hoje, em Portugal? Quantas mulheres não têm medo de andar na rua sozinhas, de noite ou de dia? Quantas mulheres apenas se sentem valorizadas com um homem ao lado? Quantas mulheres são olhadas de esguelha por não terem um parceiro? Não precisarem de um homem para se sentirem realizadas?

Quantas não se sentem julgadas o tempo todo por causa disso? Por si mesmas, por outras mulheres e homens?

Depois dessa conversa, lembrei-me dos números de mulheres mortas por violência doméstica em Portugal ainda o primeiro trimestre do ano sequer tinha começado. 10, em janeiro/fevereiro. Dos números que se conhecem…

Há um documentário muito interessante na Netflix chamado: Sex and Love around the World. A única cidade ocidental que figura numa série de 6 episódios é Berlim, em que a amostra de mulheres escolhida é a de duas jovens adultas que, possuídas pela liberdade e o poder que têm sobre si e a sua vida, se divertem a filmar os seus encontros arranjados pelo Tinder. Vários por dia.

Para afirmar o seu feminino, a mulher ocidental masculiniza-se.

Não há qualquer tipo de julgamento moral aqui, tenho mais que fazer. Mas, essa sede de poder é igualmente um atentado contra o feminino. É escolha pessoal, tudo bem.

Estamos no século XXI e o masculino continua a temer o feminino.

Em todos os exemplos de cidades mostrados, à exceção de Berlim, Tóquio, Nova Deli, Xangai, Beirute, Acra (Gana), o feminino é esmagado pela devoção ao marido, ao homem. O patriarcado é mundial. No Japão, é normal o sexo acabar depois do casamento. Se não me engano, em todos os exemplos, manifestações de afeto em público são absolutamente impensáveis. Como eram em Portugal não há tanto tempo assim.

O medo do feminino vem da impossibilidade de o controlar

As mulheres com todo o tipo de poder, seja de cura, seja de conexão, seja de conhecimento, foram perseguidas e queimadas pelo masculino. Por serem temidas e incontroláveis. Pelo poder que detinham para resolver uma série de coisas que homem nenhum conseguia resolver.

Hoje, os melhores médicos são os que mantêm uma conexão além da medicina. Os que ouvem, sentem, se conectam com o paciente.

A paixão, o amor, o sentimento que nos toma e que razão ou lógica (masculinas) nenhumas dão conta.

Uma das figuras femininas da mitologia são as fúrias. Que reagem com raiva a tudo quanto viola o seu princípio feminino. Que se recusam a ser dominadas, a obedecer porque sim.

As fúrias, quando combinadas com uma sede de poder e controlo, são das forças mais destrutivas da natureza humana.

É a impossibilidade de controlo do feminino que nascem as coisas mais belas e as mais horríveis. Um feminino descontrolado num homem leva-o a crimes hediondos impensáveis em sociedades civilizadas. No entanto, acontecem. Com uma violência de que só o masculino é capaz.

A psicopatia é manifestamente mais frequente em homens do que em mulheres.

Tal como a violência exacerbada. Não há uma única líder feminina capaz de fazer o que inúmeros líderes masculinos fazem e fizeram ao longo da História, com povos inteiros. Porque o feminino tem essa capacidade, a do sentimento, de gerar vida, que é sagrada. A capacidade de empatia.

O feminino tem em si o arquétipo do poder, em Hera.

Mas não é isso que move as mulheres. O feminino é orientado para a relação, seja ela qual for. O masculino para o poder. E, em nome dele, faz o que for preciso.

É preciso reconhecer o feminino em todas as suas valências. Sem ele não há vida. E dar-lhe a autonomia a que tem direito. Equilibrado com o masculino, para que haja harmonia. E não uma tentativa permanente de domínio por parte de um e/ou de outro.

Somos mais fortes juntos do que um a lutar contra o outro…

Temos de arranjar espaço para os valores do feminino, no mundo consumista, pró-ativo, no mundo do fazer, do aparecer, do produzir. O tempo de quietude, de ouvir, de estar sem agir ou falar. O tempo de empatizar, sem tentar resolver… O tempo de sentir, de conectar…

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