Dizer não de vez*

15/12/2017

Fácil é dizer não, virar as costas, bater a porta, ignorar, deixar ladrar os cães enquanto a caravana passa. Erguer um muro e deixar fazer ricochete. A ameaça à sobrevivência emocional e física é por demais evidente para ser encarada com leviandade.

O difícil é dizer não de vez a quem é simpático, de falinhas mansas, jeito afetuoso e perfil cuidador. Prestável, elogioso, protetor, disponível. Presente, pelo menos, aparentemente. Dizer não

É largar o conforto, a cama, mesa e roupa lavada. A mesada, a sopinha acabada de fazer no dia em que chegamos tarde. Dizer não à oferta: deixa que eu faço, eu pago, eu resolvo.

Eu cuido

Sem os meus cuidados, o meu amor, a minha dedicação, o meu afeto… não sobrevives. Ninguém cuida de ti melhor do que eu.

São relações de co-dependência

E minam a autoconfiança de quem se entrega para não ofender, não desapontar, não fazer a desfeita.

Não há altruísmo, generosidade, dedicação. Quem a tal empreitada se propõe, alimenta-se disso. A sua sobrevivência depende de alguéns dispostos à infantilização total.

É a sombra do arquétipo da Deméter, a mãe boa.

Mas que não se pense que funciona apenas no feminino. No caso dos homens, tem outros contornos. Igualmente difíceis de descortinar. São os conquistadores, os Don Juans. Viciados em sedução. Afetuosos, um pouco femininos, sensíveis qb.

Autonomia precisa-se e o jeito é sair. Não necessariamente romper, mas se for preciso, afastar.

Se o amor for puro, deixa voar. E acolhe sem cobrança.

É o passarinho que precisa voar além do ninho. O filho que precisa ir à vida, garantir-se. Sem depender da mãe, ou da mulher, para tudo. É uma questão de sobrevivência, esta do dizer não de vez.

Estar preparado para a luta, a chantagem emocional, a manipulação a vários níveis. E resistir.

*Título roubado aos Xutos & Pontapés, em jeito de homenagem ainda a tempo ao porreiraço do Zé Pedro, que descanse em paz. Ou não… Que faça uma mega festa lá no céu, ao som de Rock ‘n Roll.

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