Elaborar

29/08/2018

Numa dessas circunstâncias da vida – que tem tanto de engraçada quanto de tediosa e até assustadora – tive a oportunidade de elaborar uma das mais fascinantes experiências pelas quais passei.

Deus concedeu-me a divina graça do tempo. E eu, que não vim a este mundo a passeio, usei-o para tal. No sentido de tentar compreender o porquê e o para quê. Integrar o resultado e a experiência na consciência. Crente de que, com isso, me livraria da saia justa em que eu própria me enfiei. De livre e espontânea vontade, com a curiosidade dos aventureiros e a ingenuidade das crianças. elaborar

Poucos adultos se predisporiam a tal, arriscariam perder, sair derrotados, de coração partido, convencidos que estão de que isso da paixão é coisa de jovem, com o resto da vida para se recompor, se tornar cínico e descrente dessas coisas do amor.

Viver sem amor é tortura, diz a minha poeta favorita.

Viver com paixão é loucura, digo eu, que só consigo viver com a intensidade dessa força arrebatadora, que me tira o tapete e me lança para o abismo. Sem rede de proteção nem trapézios aos quais me agarrar.

O tempo, esse sádico, é o melhor conselheiro. O cronológico e o outro. Correndo e passando enquanto a vida de todos os dias e suas solicitações me ocupavam e me distraiam.

Quis ainda o destino, e um propósito maior, que tamanha elaboração não fosse suficiente. E, para comprová-lo, o objeto da experiência com o qual acreditei nunca mais me confrontar veio ao meu encontro para o testemunhar.

Não podia crer na possibilidade de a psicologia me falhar, não agora, não desta vez.

E Jung salva-me, outra vez.

O que ocorre no ser que integra em sua consciência conteúdos inconscientes quase escapa à descrição discursiva. O único caminho possível se dá através da experiência.

A palavra, que me fascina e me protege, não chega para uma integração eficaz. Nem mesmo o amor, que apenas me predispõe. Só a experiência física, corpórea, me elucida quanto aos conteúdos a integrar na consciência. Integração essa que é feita pelo sentimento, já que o intelecto pouco pode perante tamanha inevitabilidade. A da experiência vivida, sem exigências insanas nem castrações protetoras. Orgânica, progressiva, contínua, confiante, sem retrocessos, travagens bruscas, corridas desenfreadas, histerias ou alienações.

Em presença, como deve ser.
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