Escolhas

31/01/2018

Ontem, no Fugiram de Casa de Seus Pais, o Miguel Esteves Cardoso, tomado por uma força superior, desabafava, meio em desespero: Diziam-me que quando fosse mais velho, iria acontecer. Mas esse tempo nunca, nunca vai chegar. O tempo em que és livre. A Ana Bola, convidada da vez, dizia o mesmo. Com 65 anos, cuidava da mãe que tem 93 e tinha de trabalhar, o que odeia, para além de ter um filho que adora, e netos, sentia que esse tempo não chegaria. Porque depois da mãe vêm os filhos e os netos com as suas solicitações. escolhas

Nas viagens que fui fazendo pelo mundo, conheci pessoas mais velhas, reformadas já mas ainda com boas pernas para bater, que viajavam sozinhas ou na companhia de um amigo, amiga, marido, mulher, namorada, amante, o diabo. E admirava-as.

Eu, que, antes dos 40, já tinha a liberdade que o Miguel e a Ana Bola nunca terão.

Sinto falta de outras coisas

Sei que estou sozinha porque quero, não aguento gente durante muito tempo, acho que só sei viver assim. E que jamais passaria um Natal sozinha se quisesse, tenho irmãos e sobrinhos. Amigos de sempre e uma família enorme. E falo do Natal por ser a época em que a solidão mais pesa. Talvez por sentir pena das pessoas que passavam o Natal desenquadradas das suas famílias, porque não as tinham ou eram apenas solitárias.

Fosse eu menos introvertida e não gostasse tanto de estar comigo, a fazer as minhas coisas, a cuidar de mim da melhor maneira, teria todos os dias o que fazer, com quem jantar, almoçar, beber um copo, fazer todo o tipo de programas.

E ainda assim…

A minha família é enorme, principalmente do lado do meu pai. Toda a vida morei num apartamento grande, somos 4 irmãos, a casa vivia cheia de gente. Uma série de pessoas à mesa todos os Natais. Os meus primos foram tendo filhos, as famílias crescendo e quis o destino que, de nós os 4, apenas um dos meus irmãos tivesse crianças. Daí que a nossa família enorme, de repente, se visse reduzida a 4 pessoas, as que moram cá.

Tenho nostalgia disso, das mesas cheias de gente, das discussões, da gritaria. Que já odiei, já me fez uma confusão imensa, já me apeteceu mandar Portugal abaixo e reconstruir de novo, por causa desta estranha forma de expressar afeto, pela agressão, passiva ou ativa, sendo o português um povo tão sentimental. Mas a que agora acho graça. Como no primeiro Natal sem o meu pai, em que fomos almoçar a casa da irmã dele ao fim de sabe deus quantos anos. Estiquei o prato ao meu primo e disse que só tinha um. Ao que ele me respondeu: então não comes. A minha gargalhada deve ter-se ouvido no espaço.

Do romantismo da casa cheia no Natal, de muita gente, de uma certa confusão e excitação.

Coisa que a Ana Bola e o Miguel Esteves Cardoso sempre terão e eu não.

Daí que a gente tem nostalgia da fantasia do que poderia ser uma vida completamente livre. Como tem nostalgia do que poderia ser uma família enorme e feliz como só existe nos filmes de domingo à tarde.

E que a vida é um inferno se não nos apaziguarmos com as nossas escolhas…

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