Onde está o Estado?

19/10/2017

Faz-me confusão que seja a população a fazer o papel do Estado. Mais concretamente de governos locais e nacionais no sentido de ajudar as vítimas dos incêndios. Afinal, é para isso que votamos e pagamos impostos. É para isso que sustentamos, enquanto país, o funcionalismo público. A Assistência Social. Para que questões básicas de sobrevivência em países ditos de primeiro mundo estejam sempre, em qualquer circunstância, asseguradas. estado

Sendo elas educação, saúde, segurança e justiça.

Mais confusão ainda me faz que, na hora de sermos solidários com um semelhante que perdeu investimentos de uma vida, casa, bens próprios e muitas vezes entes queridos, o dinheiro que tiramos dos nossos bolsos, já depois de sermos taxados forte e feio, tenha de passar pelas mãos de entidades externas às catástrofes.

Pedrógão alertou-me ainda mais para isto.

Quando vi a quantia angariada pelo concerto que levou vários artistas a palco no Meo Arena, entre os quais Salvador Sobral, que já havia doado o dinheiro da venda dos CD que pagou do próprio bolso para as vítimas dos incêndios, pensei: quanto deste dinheiro chegará às populações? Para que reconstruam as suas casas, comprem máquinas para poderem trabalhar a terra, se reergam da tragédia que os assolou?

A cada vez que ouço falar de doações para uma conta faço-me a mesma pergunta.

Hoje, li que “o presidente executivo da CGD, Paulo Macedo, disse que “cerca de 500 mil euros vão ser aplicados junto de instituições de saúde para equipar as que têm ajudado as populações, quer nas unidades de queimados quer noutras da zona de Coimbra”.

E a conclusão de Luis Paixão Martins, via Twitter: “Portanto, donativos para as vítimas de Pedrógão Grande destinam-se a equipar um hospital do Estado, vítima do Orçamento do Estado.”

Leio também que civis foram a uma aldeia levar água e comida às populações, sendo os primeiros a chegar, deparando-se com os sobreviventes a implorar-lhes água para beber, por não terem comida, eletricidade, água há dois dias. Como se vivêssemos num território imenso e sem acessos.

E pergunto-me se o problema está nas pessoas que se abstêm ou na credibilidade das que pretendem ser eleitas para gerir os destinos de uma nação.

Gente que não se coíbe de ir às reformas dos velhinhos para pagar juros de dívidas que apenas pretendem submeter nações inteiras a meia dúzia de patológicos do poder. Gente que não se coíbe de, depois de cobrar este mundo e o outro em impostos de todo o tipo, usa o dinheiro que foi doado pela população para sustentar hospitais. Gente que assiste a uma tragédia como a de Pedrógão, que vê a tragédia repetir-se quatro meses depois sem que nada tenha sido feito para evitá-la, fechando todos os postos de observação de incêndios a 1 de outubro, e tem a desfaçatez de se apropriar de dinheiro doado para as vítimas é que é o problema da democracia.

Não são os abstencionistas.

Enquanto cidadãos, temos de cobrar, exigir e não descansar enquanto não se apurarem responsabilidades. Este sacudir de água do capote durante quatro anos, de uns beijinhos e uma poluição sonora e visual na hora das eleições não pode mais continuar.

A responsabilidade não está só nos criminosos que põem fogo às matas. A mando de quem, são só maluquinhos? Que interesses estão por detrás disto? Que indústria está a ser alimentada à conta dos eucaliptos? Que meios há ao dispor para prevenção e combate? Descobrem-se células terroristas do Daesh e não se descobre isto? Não ponham as culpas na população que não limpa as matas, que as polui em primeiro lugar. É um bom bode expiatório, mas não chega.

Nem debate sério há sobre isto, gente especializada, que conhece, que sabe do que fala, como Gonçalo Ribeiro Telles, por exemplo. Há interesses obscuros nesta história e enquanto povo não podemos descansar enquanto isto não for investigado.

Responsabilidade Civil é isto.

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