Exageros*

14/06/2017

Dá uma brisa, um alento, um sopro de vida, sair para a rua, ver como se divertem os autóctones, são giros, os miúdos, a Bica à pinha, no fim-de-semana que antecede o dos Santos, a juventude a querer voltar para estas pernas, velhas e cansadas, e para estes ossos, os olhos a brilhar, o corpo a sacolejar ao ritmo da música. Há até paciência para a multidão que se junta no largo lá em baixo, onde já se veem bandeirinhas, se cheira a bifanas e sardinhas. Alguém sugere o Lounge. Eu, que já me ia embora, arrasto-me até lá, o som seria bom com certeza. Não era, valeu a conversa incrível com um brasileiro e a confirmação de que quando estamos alinhados com os nossos quereres, as pessoas certas aparecem na nossa vida. Foi até às 5 da manhã, com direito a ver o sol nascer e tudo.Exageros

Dias depois foi Alfama

Sou uma lisboeta fajuta, uma péssima guia turística. Acho fascinantes aquelas pessoas que sabem sempre o que fazer, onde ir. Miraculosamente, os lugares que escolhem estão sempre compostos.

Paragem no largo do Intendente, que é diferente do costume, onde afinal o Rafa já tinha ido, no dia anterior. Felizmente, apareceu a Susana, que nos levou para Alfama, para um bar chamado Tejo qualquer coisa, de que uma lisboeta deveria envergonhar-se de nunca ter ouvido falar. Com música ao vivo onde conheci uma paulistana louca que se mexe melhor na noite do que eu alguma vez consegui. Outra vez até às 500.

É o diabo para um introvertido sair com extrovertidos.

Enquanto que para os introvertidos sair de casa já é uma festa, para os extrovertidos nunca nada é o suficiente. Bebe-se sempre mais uma, vamos sempre só mais ali àquele bar, fumamos só mais este, sei lá…

São os excessos que nos matam. Aquela cerveja a mais, aquele cigarro a pedir para ser fumado, aquela música, aquela conversa, aquela pessoa. Habituada a sentir as coisas intensamente, se vem devagar atiça a compulsiva que há em mim. E isto não tem fim.

E talvez o que esteja a ditar esse caminho, completamente à revelia da nossa vontade, do que o nosso corpo nos diz e a cabeça não quer ouvir, é a vontade de conexão com aquele lugar seguro, que nos deixa confiantes e em paz, sem histeria ou prepotência. Que buscamos nos fatores externos, como alteradores de consciência, amigos queridos e música. E que nunca chega porque apenas ilude, não nos liga de facto. Pelo contrário, torna-nos cada vez mais desconectados.

Porque essa ligação vem da presença, da consciência e do reconhecimento dessa presença.

Da presença de corpo inteiro, cabeça, coração e desejo. Da presença no momento concreto, da ligação pela sincronicidade mental, por estarmos a ouvir alguém que acabámos de conhecer falar de um tema sobre o qual havíamos escrito no dia anterior. Pelo toque, o toque é das formas mais eficazes de reconhecimento de presença e por isso de ligação.

E é precisamente da ausência de conexão connosco que vem o exagero, o descontrolo, a inconsequência. Como se nos apanhássemos à solta e fizéssemos todos os disparates que conseguíssemos, no menor tempo possível, enquanto ninguém nos trava, descobre, nos traz à razão.

*Há uma forte possibilidade de troca de títulos entre textos

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