Existir

09/01/2018

Um dia destes, falava com amigo músico que me dizia que se o disco dele não vendesse, não chegasse aos circuitos comerciais, de venda e divulgação, ele não existia artisticamente. Para existir, tem de haver quem nos reconheça. Nos veja, pelo menos.

Há de ser esse o motivo de sucesso e o pesadelo em que que tornaram as redes sociais. Um like é um reconhecimento de existência. Por isso, há gente que posta sem parar no facebook, instagram e twitter. Por isso, há malucos de toda a sorte a comentar em sites de notícias.

Se não aparecemos, não se lembram de nós, não existimos. existir

E a frase: falem bem ou falem mal, mas falem de mim há de ter tido esse princípio, provavelmente inconsciente, por base.

Talvez daí também venha a obsessão com a razão, o poder, o ego desesperado por reconhecimento. E onde está a raiz dos ataques de pânico e de ansiedade.

O bem-estar que vem do reconhecimento, da sensação de pertença, é inconfundível. Quando lemos um texto no qual nos reconhecemos, sem nunca ter visto o autor. Quando ouvimos uma música que fala diretamente connosco até nos fazer chorar de comoção.

As emoções são o maior sinal de que o reconhecimento chegou

Para alguns, estar vivo e ser reconhecido passa pela briga, o conflito, o confronto. Vivem para e por isso. Não se dando conta de que os afasta mais e mais dessa presença. Para outros, o queixume é o mote.

Há formas de existir para todos os gostos.

E não existir, não ser reconhecido, é intolerável. Na nossa cabeça, há uma memória longínqua e devidamente enterrada num buraco escuro do qual não temos consciência, mas intuímos que existe e que guarda experiências de angústia, desespero, solidão, vazio. Um lugar que jurámos nunca mais visitar. E fazemos o que for preciso para não mais lá voltar.

Essa tentativa desesperada de reconhecimento é a fonte de obsessões e compulsões sempre que o procuramos junto de quem o usa em benefício do seu próprio poder e controlo.

O reconhecimento pelos outros, principalmente os que admiramos e amamos, é absoluto para a existência. Mas há formas de existir sem deles depender, embora seja mais divertido e quase mágico quando acontece pela vivência. Sem que quem o proporciona se dê conta. Para que seja tão surpreendido quanto nós. E haja conexão.

A magia que acontece quando dois seres se reconhecem

A verdade é que esse reconhecimento, essa sensação de estar vivo, vem de dentro. Da criação. De um respirar fundo, de olhos fechados, algumas vezes. Do contacto com o vento gelado, a água do mar, algo que nos toca profundamente e que vai além do intelecto, do entendimento cognitivo. Que fala com o nosso corpo todo, nos dá arrepios e nos faz inclusive ver melhor.

E que passa sempre, sempre pela emoção.

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