Os extremos e o poder

19/10/2018

A política pela política não me interessa muito. É protagonizada por um bando de gente que só quer poder, se move por ele, a qualquer custo, que está pouco se borrifando para o povo que os elege. Limita-se a defender interesses pessoais, desconsiderando o facto de que representa um cargo, em vez de ser o cargo. Que não está minimamente preocupado com o número de abstenções, que sequer é considerado na hora de contabilizar votos. Ou com a percentagem de brancos e nulos.

Manipulando populações inteiras, atribuindo-lhes responsabilidades que não lhes cabem.

Não é o indivíduo, com o seu voto branco, nulo, a sua abstenção, que contribui para o partido mais votado. Isso é uma perversão abjeta do sistema, que desresponsabiliza políticos pelas suas ações. Em vez de os obrigar a olhar para o panorama e tentar entender o que leva a que as pessoas desprezem um direito tão caro. Ou não se vejam representadas por qualquer força política, preferindo anular o seu voto. Ou deixá-lo em branco, garantindo que participam, assegurando a sua expressão, mas que não confiam em nenhuma das proposta.  Ou em nenhum candidato ou partido.  

Sem desrespeito pela vontade popular.

Interessa-me, isso sim, o que motiva as pessoas a votar em massa num ou noutro extremo. A psicologia por detrás da escolha. Que representa uma vontade clara, ainda que inconsciente, por parte dos eleitores. No caso de se votar em extremos, um desejo profundo de que algo mude, ou se apazigue, em si, que se reflete na hora de votar.

O desejo de maioria absoluta dos governos em Portugal impede que forças políticas opostas dialoguem entre si para que ambas as vontades e necessidades sejam satisfeitas. Pois obriga a cedências de ambas as partes. E ninguém quer abdicar do totalitarismo por detrás da sua vontade… Por isso, temos neste momento um governo que não foi eleito, que não representa a vontade popular expressa nas últimas legislativas.

A de que forças opostas dialoguem entre si.

Há anos que venho alertando para a tendência de polarização partidária na Europa. Nomeadamente nas eleições para o Parlamento Europeu. Tendência essa que se vem verificando individualmente em cada vez mais países europeus. Como é o caso da Itália, neste momento. Mas de outros, de Le Pen em França. Da Holanda, da Áustria e parece que até na Suécia, um país que sempre manteve um equilíbrio saudável entre os dois pólos.

Recentemente, essa polarização refletiu-se na eleição de Trump e na batalha campal em que se tornaram as eleições no Brasil.

A extrema-direita representa o lado negativo do arquétipo patriarcal, o desejo de ordem, de rigidez, de implacabilidade, de domínio sobre o seu oposto. Sem complacência, sem Eros. Sem considerar as nuances de cada coisa. E que, nestas eleições no Brasil, é representado por Bolsonaro.

A extrema-esquerda representa o arquétipo materno na sua polarização doentia, dependente, da mãe que não quer deixar os filhos crescer e tornarem-se independentes. Representa o desejo de um Estado-colo. Que, em vez de ensinar a pescar, dá o peixe. Que impede o desenvolvimento da personalidade, o assumir de escolhas próprias e respetivas consequências.

O único poder que me interessa é o da autonomia individual

Que me permite decidir o que quero para mim. Jamais o de domínio sobre o outro. Porque esse me subjuga à sua vontade, com a falácia da proteção. À qual é inerente um desejo narcisista de controlar o outro, que o impede de viver a sua vida na sua totalidade.

O que faço agora quando não mais tenho de quem cuidar? Todo o sentido da minha vida se esvai e isso é a última coisa que quero, o confronto comigo mesma, com as minhas escolhas, com o que não vivi.

Ambos se odeiam, opondo-se um contra o outro, obrigando a escolhas unilaterais, impedindo que os opostos dialoguem entre si, criando falsos inimigos, com base no medo, o que leva, em ambos os casos, à dependência, prejudicando a maturidade. O pai opressor, que quer ser obedecido e não confrontado, aplicando cegamente leis e castigos, punições, a quem se atreva a questionar, a pensar por si, a querer algo diferente. Enquanto tiver a proteção do meu pai, estou a salvo.

Anulando as diferenças saudáveis em comunidade e em democracia

Só o que é diferente nos tira da visão unilateral da vida e dos acontecimentos.

A mãe protetora, que impede o crescimento e o desenvolvimento da personalidade para que o indivíduo possa fazer as suas próprias escolhas sem temer perder o amor materno. É o arquétipo que impede a independência do filho e o subsequente desenvolvimento da personalidade.

Ambos instrumentalizam os filhos, fazendo destes depósito de expectativas não realizadas por si. E de vidas não vividas por ambos. Essas vidas não vividas são exigências psíquicas inadiáveis e fundamentais ao desenvolvimento da personalidade, para chegar à amena convivência entre opostos e, por sua vez, ao equilíbrio de forças dentro da psique individual.

Ao facilitismo do arquétipo materno, eu aceito-te desde que fiques debaixo da minha asa, falta razoabilidade, equilíbrio, face ao desejo primário, narcisista, de que tudo é aceitável. É o legalize. O que quer que o mundo se subjugue às neuroses pessoais. O desejo sem controlo. Que, quando não satisfeito, leva à birra, ao espernear. Se tivermos uma arma na mão, ao matar, para que não sejamos confrontados com a frustração de não podermos ter tudo o que queremos, na hora que queremos.

Quando tudo se permite, sem questionamento, sem que haja um basta, há um rio que sai da margem e invade e alaga tudo em volta, destruindo a possibilidade de vida, que subjaz na terra e nas sementes que esta contem.

Quando tudo se permite, vem o desejo visceral de pôr ordem na casa.

Com regras, punições, numa cegueira perigosa e patológica.

A alteridade é a fase da consciência que permite o diálogo entre opostos, a maturidade, “que aceita as frustrações e os opostos e vai além da ilusão adolescente que é fascinada pela unilateralidade e pela solução mágica dos conflitos*”.

Nenhuma das polaridades é saudável ou melhor do que a outra.

Ambas são alvo de pura manipulação, dividindo a população ao meio, levando a crer que um e outro são os maus da fita e temos de os combater, porque nos ameaçam. Claro que ameaçam, o ego odeia conflito, ter de lidar com as contradições que fazem parte de todos nós. E, assim, tende a escolher um lado com o qual se identifica.

Se eu me vejo continuamente desprezada pelo meu governo, que insiste em proteger apenas uma parte da população, ignorando o facto de que também faço parte dela, também tenho direitos enquanto pagadora de impostos, e necessidades, que quero ver pelo menos contempladas, é óbvio que na eleição seguinte vou votar em quem promete pôr fim a isso. E nada nem ninguém me vai impedir de votar nessa direção. Quanto mais tentamos convencer alguém de algo que vai contra a sua vontade, mais resistência vamos encontrar. Porque, mesmo cedendo, tudo fará para tornar a vida do outro num inferno.

Insistir na polarização é querer permanecer na adolescência.

Uma coisa é lutarmos pelos nossos interesses, pelo respeito pela individualidade de cada um, com a respetiva responsabilidade. A luta pelo reconhecimento de que eu existo e mereço ser contemplada nas políticas de governo. Outra é querer que um país inteiro se vergue perante mim e as minhas neuroses de eterna adolescência, obrigando outros a sustentarem a minha escolha.

O papel do Estado é, apenas, regular, só assim se mantém o equilíbrio. Evitando o poderio absolutista. Os mais fortes têm de aprender que não podem dominar os mais fracos. E os mais fracos têm de aprender a ser autónomos.

*Vale a leitura deste texto, por Carlos Byington, psicanalista brasileiro que, aqui, contextualiza o que se passa atualmente no Brasil. No que se refere à História política e psíquica da Humanidade. 

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