Pessoa e os Deuses

14/05/2018

Creio nos Deuses como numa verdade e numa salvação, A sua presença adoça e simplifica. Nada lógico me leva a preferir-lhes qualquer outro deus, mais antigo ou mais recente. Ver as fontes e os bosques habitados realmente por entes reais de outra espécie não me parece mais absurdo do que aceitar que tudo derivou do nada, que Deus é a essência disto tudo. E eu tive a felicidade de tal nascer que naturalmente sinto a presença de entes reais nos bosques e nas fontes, que, sem preconceitos clássicos, Neptuno (Poseidon) é para mim uma personalidade real. Vénus (Afrodite) um ente verdadeiro e Júpiter (Zeus) o pai terrível e existente dos calmos deuses todos. 

Nada me interpreta a natureza melhor, nem me faz amá-la mais. A presença de uma nereida alegra-me quando me encontro ao lado de uma fonte. E é grata a companhia dos silenos quando atravesso humanamente sozinho o sossego sóbrio dos bosques frescos.

Os amores dos deuses, a sua humanidade afastada não me dói nem me repugna. Repugna-me a morte de um Deus, Cristo na cruz, vítima de seu próprio pai numa religião que pretende ser enternecida.   

Fernando Pessoa e os Deuses, pela pena de Ricardo Reis, nesta edição magnífica da Tinta da China.

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