Fidelidade e Traição

17/03/2018

Aqui há dias, meio Portugal comentava o facto de uma mulher ter exposto outra em cartazes afixados em postes. Acusando-a de tudo e mais alguma coisa, por ter tido um caso com o marido da primeira.

As opiniões dividiam-se

Mas parecia consensual que quem deveria ser chamado à pedra seria o marido, pois seria quem teria justificações a dar. Já que era o único que tinha assumido um compromisso formal, pelo menos, com a mulher com quem estava casado.

Nesse antro de moral e esgoto a céu aberto que são as caixas de comentários de blogs que permitem o anonimato, não faltou quem comentasse, cheia de certezas, que se quer outra, que acabe o casamento primeiro.

Poucos houve que mencionassem que se, e quando, há traição, a responsabilidade, usou-se a palavra culpa, mas não me parece adequada, é de ambos. E, acrescento eu, não é porque um não se chega à frente para agir que não é corresponsável pelo estado a que as coisas chegaram.

A passividade conta como decisão de não intervir.

Não pode ser desculpa para a desresponsabilização.

Independentemente da razão, há motivos emocionais para chamar nomes à vaca que andou a enfiar-se debaixo do nosso namorado e/ou marido. (Juro pela minha saúde que li isto, escrito desta forma).

E, mesmo que não o digamos, sentimo-lo.

Inconscientemente, talvez exijamos solidariedade às nossas companheiras de género, que se ponham no nosso lugar. Fidelidade ao outro em vez de sermos fieis ao que sentimos. Por outro lado, tal exigência evoca um comportamento muito português. Que se prende com a infantilização dos homens. Embora o patriarcado tenha algo a dizer na diabolização das mulheres, implícita na desculpabilização de homens feitos. 

De tão inculcada no nosso consciente coletivo, é difícil de discernir.

Se idealmente partimos do princípio que uma mulher só se envolve com um homem comprometido se não souber da sua situação, todos sabemos que o envolvimento acontece independentemente do estado civil dos intervenientes. E que um casamento não se acaba por um flirt. Eventualmente um caso, que não sabemos se é apenas passageiro se para durar. E tem pouco a ver com o que o estatuto, a instituição casamento, representa para algumas pessoas. Socialmente, há muito quem não consiga viver se não for em casal, independentemente de ser uma relação de fachada, apenas.

A atração entre os pares é involuntária e avassaladora.

Longe de mim estar aqui a fazer a apologia da traição, sequer a justificá-la, mas, psiquicamente, valores, salvo seja, mais altos se levantam.

Em sã consciência e plena posse das suas faculdades mentais, não sendo um sociopata ou uma devassa, ninguém se envolve com uma pessoa comprometida porque não tem mais e melhor que fazer. Envolve-se porque algo mais forte está em jogo, quanto mais não seja, a esperança. E pode começar até com um flirt inocente, a atração que leva à sedução, e eventualmente a algo mais sério, do qual alguém vai sair magoado, é na grande maioria das vezes incontrolável. Mais forte do que a razão e até o coração.

E não há racionalidade e civismo que nos salvem.

A vida, muito menos a sentimental, não é um código de leis do que pode e não pode fazer-se. Quando, onde, com quem e como. Também não é uma selva, é certo. E, moralmente, o mundo condena quem trai, julga quem é traído e quem é traidor.

A consciência individual também

No entanto, quantos estão dispostos a atirar janela fora a possibilidade de um relacionamento feliz, compensador, cúmplice, companheiro, inspirador e motivador?

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