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06/07/2016

No Sex & the City 2, há um momento em que Carrie decide aceitar o convite que Aidan lhe havia feito para jantar, no hotel deste. Inicialmente, não lhe pareceu uma boa ideia. A decisão foi tomada depois e o momento em que o anuncia é revelador. Carrie está defensiva, é rude com as amigas do coração, ausência de discernimento total. Tinha acabado de ler uma crítica ao seu último livro, que havia saído na New Yorker, a sua revista de eleição. Crítica essa negativa e que a afetou. A deixou mal, a levou para o lugar onde ninguém quer estar, em que não somos reconhecidos, amados, queridos. O lugar onde o nosso valor é desconsiderado.

Com a experiência que tem como colunista, podia simplesmente ignorar, fazer o que fazem todos os cronistas com as críticas, usá-las para o texto da semana seguinte; racionalizar, sabendo que todas as críticas sem exceção dizem muito mais de quem critica do que de quem é criticado, que não passam de projeção, que é uma crítica ao livro, e não a ela, e que vale o que vale. Não foi o caso.

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Um livro, muito mais do que uma crónica num jornal, essa preenche outra necessidade, é uma forma de nos mostrarmos e consequentemente de sermos vistos. É parte de nós, pela qual demos sangue, suor e, às vezes, lágrimas. Uma má crítica a um livro atinge-nos no âmago. Já a New Yorker era, para Carrie, um símbolo, uma representação. Uma crítica positiva naquela revista seria o reconhecimento de que precisaria. Como não aconteceu, sentiu-se péssima. Para minimizar o estrago, disfarçar a dor, resolve encontrar-se com um ex-namorado, mesmo estando casada e, apesar de algumas divergências quanto à ideia de casamento, feliz com o seu grande amor. Tendo sido ela a romper com o ex-noivo, sabendo que daquele mato não saía coelho, que lhe agradasse, pelo menos. A brincadeira acabou com um beijo indevido e ela a fugir pela porta fora, cheia de pesos na consciência. O encontro foi, apesar de divertido, um erro.

O que Carrie fez é o que fazemos todos os dias, com as profissões que exercemos, a roupa que compramos, o carro que guiamos, os livros que lemos, as coisas que dizemos, as pessoas que admiramos, o que comemos e o que bebemos. Os lugares que frequentamos e o que almejamos. Mascaramos necessidades, desconhecidas e não satisfeitas. De afeto, de reconhecimento, de aceitação, de utilidade, de pertença, de integração. De sermos vistos. E tentamos preenchê-las de qualquer maneira, arriscando tudo por uns minutos de valorização. Necessidades essas que não vão ser satisfeitas, apenas vai ser preenchido um vazio de dor, que rapidamente se desvanecerá, deixando-nos ainda mais vazios, mortos de arrependimento e com uma ressaca moral que nos envergonhará por dias.

Não sendo particularmente aficionada do cilício, da fustigação, do sofrimento, acredito sim que valha a pena considerar que necessidade está por detrás de cada frustração, cada compra, cada ato irrefletido, cada beijo roubado, cada one night stand, cada caso avulso. Para que consiga satisfazê-la de forma eficaz, em vez de gastar fortunas a mascará-la, ou, pior do que isso, acabar com os sentimentos na lama, as emoções desreguladas, o corpo a pedir clemência e três quilos a mais.

Adepta, isso sim, da liberdade, tenho-a como um dos meus princípios invioláveis, da experiência vivida, muito mais do que dos bens adquiridos e da riqueza acumulada, e vendo símbolos em tudo quanto mexe comigo, ainda assim, quando valores mais altos se levantam, está em causa a minha estabilidade, o que quero realmente, o que de facto satisfaz as minhas necessidades, e, passado o momento de avaliação inicial, travo a impulsividade que me é tantas vezes característica para parar para pensar se vale a pena sair da zona de conforto, que símbolo representa o estimulo que tenho pela frente, que necessidade está por detrás dele, o que acorda em mim que não vivi e preciso psiquicamente de viver. Até porque se valer a pena, quando vale, não terei grandes dúvidas, há uma voz que não se cala e tudo à nossa volta se alinha. É isso que nos dá a certeza, ou, pelo menos, a convicção…

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