Gayle

15/01/2018

Houve uma época, ali à volta dos 30 anos, em que a obsessão da vez eram autores britânicos com profundidade e leveza e bom humor. O meu preferido, por juntar os três ingredientes que não dispenso de uma forma perfeita e orgânica, era o Mike Gayle.

Mas li de um tudo, Tony Parsons, Nick Hornby, David Lodge…

O que me encanta na literatura e no cinema europeus em geral, e nos britânicos em particular, é precisamente o realismo das suas histórias. Não há heroísmos desmedidos, há gente de carne e osso, com os mesmos defeitos que nós, a tentar sobreviver neste mundo louco que nos calhou. E do sentido de humor, a sua capacidade para brincar com eles mesmos, de se olhar no espelho, da ausência de miserabilismo e de autocomiseração.

Geram identificação, e não frustração…

Gayle

Não me lembro onde comprei o primeiro livro de Mike Gayle, talvez no aeroporto de Berlim, tinha a mania de comprar livros em aeroportos, no tempo em que vendiam literatura, agora só vendem manuais de tudo e mais alguma coisa para totós, o que é lamentável. Não sou totó nem tenho paciência para manuais. Mas lembro-me do motivo. Porque tinha a palavra “compromisso” no título e, acima de tudo, por causa da imagem.

Sou das que se rende a uma boa capa. É meio livro vendido.

Devorei-o e, como sempre acontece com os autores de que gosto, obcequei. Li mais alguns e a identificação era sempre enorme. O conteúdo foi devidamente absorvido e integrado na consciência e parei. Nem sei se ainda os tenho, talvez até os tenha doado.

Recentemente, andava na plataforma internacional que uso para comprar livros e, por causa do romance que pretendo escrever, achei que era boa ideia voltar à literatura do género. Foi aí que me apanhei em frente ao Mike Gayle de novo. Nem sei como… Talvez o meu inconsciente me tenha levado até lá, não me lembrava dele há 15 anos… Vi que tinha publicado uma série de livros entretanto, entre os quais um chamado Turning Forty.

Num impulso, encomendei.

Tinha lido o Turning thirty e adorado. Gayle é do ano anterior ao meu, exatamente um ano mais velho do que eu, daí que coincidimos nas efemérides. Posteriormente, até tentei anular o pedido. Os 40 já passaram por mim e tive medo de estar a perder o meu tempo. Também porque tinha visto uma prévia do livro que vai lançar este ano e preferi-o.

A encomenda já tinha sido processada e, mesmo com a oferta de devolução do dinheiro na totalidade, desde que eu lhes reenviasse o livro, deixei para lá.

Chegou na semana passada e, inexplicavelmente, já estou agarradinha.

Um dia destes, o João Pereira Coutinho escreveu, a propósito das pessoas que insistiam com ele para viver, e com a graça do costume:

Passei a vida com gente dizendo para eu viver a vida. Esse conselho não solicitado era oferecido sempre que eu estava no meu canto, absorto e feliz, com um livro na mão. Na ideia simples dos simples, quem lê não “vive” realmente. […] Quando escutava esses conselhos, o prazer da leitura era suspenso por uns tempos. E uma culpa absurda descia sobre a minha cabeça egoísta. Que fazia eu com um livro quando havia uma “vida” para viver? Foram precisos anos e anos de luta contra a estupidez para perceber que o problema não estava em mim. Estava nos outros. Eles falavam da vida que não viviam —e inquietavam-se com alguém que parecia vivê-la mais intensamente, embora sem sair do lugar. […] Mas há sempre a sensação desconfortável de que não estou a viver realmente sem um livro na mão. Mesmo os sentimentos mais nobres —o amor, a compaixão, a justiça— me parecem mais reais e fortes nos romances que li do que nas experiências que vivi.

E eu não podia concordar mais. A vida sem livros é uma tristeza sem fim…

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