[Guest Post] Por um ativismo interior*

02/10/2018

*Por Rita Morgado, ontem.

Hoje mudei a foto de perfil da minha página de facebook para uma imagem negra. Aderi, portanto, a uma campanha que pretendia expor o abuso e a violência sobre as Mulheres, “eliminando as caras de Mulheres” do facebook para que se entendesse o quão pobre e triste ficaria o Mundo sem elas. 

Como os tempos têm sido demasiado polarizados e é essa polarização que nos tem devolvido tanta violência, queria esclarecer algumas coisas e talvez até ajudar à melhor compreensão do meu post da semana passada

(“Aos Homens e Mulheres da minha geração”).

Falei nesse post de um desequilíbrio ancestral das energias femininas e masculinas e da falta de Feminino fora e de Masculino dentro. Falei propositadamente em Feminino e Masculino e não de Homens e Mulheres. E porquê? Porque, como expliquei na intro do meu post, estas polaridades estão presentes nas psiques dos Homens e nas psiques da Mulheres e, por isso, este trabalho de reequilíbrio é uma responsabilidade de ambos os géneros.

Claro que a falta de equilíbrio destas energias internamente depois se reflecte fora (nas nossas relações, vidas, comunidades, sociedades, etc) e assim, penso que será útil concretizar de que forma isto se poderá traduzir, agora sim, nos Homens e nas Mulheres.

Os Homens terão, até agora, reprimido o seu Feminino (a sua Anima para Jung) com tendência a expressar as suas energias mais conscientes que terão uma natureza predominantemente masculina. Ao reprimir as suas energias femininas não as resgatam e integram, manifestando dificuldade em expressar o que sentem, em mostrar a sua vulnerabilidade, em ser mais compreensivos e atenciosos. Ao trazerem o seu Feminino para fora, poderiam escutar-se mais, ouvir mais a sua sensibilidade, respeitando-a e assumindo-a, ficando por isso menos susceptíveis às pressões exteriores para serem eficazes e bem sucedidos, para não escutarem o seu corpo e as suas vulnerabilidades, às pressões para se comportarem “como homens”. Teriam então menos depressões, menos burnouts, respeitariam mais as mulheres e seriam menos boçais e agressivos, reconhecendo que expressar emoção e respeitar a sua impermanência não é uma questão de ciclo mestrual… Poderiam então abrir as portas do mundo público às mulheres e reconhecê-las com respeito, admitindo que o espaço público ganharia muito com mais presença do Feminino porque se tornaria mais inclusivo e mais respeitador de outros valores que não só o da conquista material.

As Mulheres terão, até agora, reprimido o seu Masculino (o seu Animus para Jung) com tendência a expressar as energias mais conscientes que terão uma natureza predominantemente feminina. Ao reprimir as suas energias masculinas não as resgatam e integram, manifestando dificuldade em afirmar-se, em ser ouvidas, em ter coragem, em assumir ou ir atrás do que pretendem alcançar. Ao trazerem o seu Masculino para dentro poderiam verticalizar-se e, apoiadas pelo seu Masculino interno, poderiam afirmar-se de um modo integrado e fazerem-se verdadeiramente ouvir. Poderiam então exercer lideranças seguras e ao mesmo tempo inclusivas, cumprir-se sem ter de projectar as suas aspirações nos seus homens que, claro, jamais as poderão viver por elas. Poderiam então abrir as portas do domínio privado aos homens e dar-lhes espaço para fazer ao seu modo, ouvir a sua opinião e reconhecê-los com respeito, admitindo que o espaço privado ganharia muito com mais presença do masculino, com a sua participação activa, inspirada e companheira.

Como o que está dentro se expressa também fora, o Mundo está a expressar este desequilíbrio, acentuando as polarizações com uma enorme escalada de violência. As mulheres estão furiosas e aos gritos porque querem ser ouvidas e os homens a fazer o costume, a ignora-las, a abandona-las a desrespeita-las. São os Animus descontrolados das mulheres e as Animas vingativas dos homens. E não é bonito de ser ver!

Claro que também tenho de admitir que há cada vez mais Homens e Mulheres de boa vontade a querer integrar e respeitar estas polaridades. Mas a verdade, é que isto está tão enraizado na psique colectiva que à mínima provocação, as nossas polaridades saltam furiosas. Precisamos estar atentos e olhar com algum distanciamento para não nos polarizarmos também. E precisamos direcionar o trabalho para dentro! “SER a mudança que queremos ver no Mundo”, como dizia o Grande Ghandi. E este trabalho não se faz num dia! Há que trabalhar diariamente nisto, minuto a minuto! Não conseguiremos fora o que não temos dentro e, por isso, tantas vezes estas lutas colectivas são inglórias porque o nosso inconsciente tem sempre forma de nos desmascarar…

Hoje mudei a foto de perfil para negro porque quero que ela denuncie o abuso e a violência. Não aceito abuso e violência sobre Mulheres. Mas também não os aceito sobre Homens. Hoje mudei a foto de perfil para negro porque quero que ela mostre o quão pobre e triste ficaria o Mundo, sem Mulheres ou sem Homens, presentes activamente e respeitados, tanto na esfera pública, como na privada.

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