Há esperança na humanidade

12/06/2018

Dizem-se maravilhas da globalização, nela projectámos toda a esperança. Ao pôr ao alcance de todos realidades a que jamais teríamos acesso sem sair do lugar ou gastar uma fortuna em viagens.

E da Internet, enquanto veículo de informação para todos os gostos.

Nos últimos tempos, quem se fica por aqui, pelas redes sociais onde se emitem opiniões, como o twitter e o facebook, e até pelos jornais, alguns, pelo menos, fica com a sensação de que as únicas vias possíveis são a polarização: estás comigo ou és contra mim. Ou a alienação. Não estando nem aí para nada. Na verdade, apenas não têm paciência para discussões que não levam a lado algum.

Possivelmente sempre foi assim, mas, como só tínhamos acesso a conhecidos e colegas, era fácil: são nossos amigos, convivemos, são nossos colegas, aguentamos, tudo o resto, que se lixe. 

Hoje, somos invadidos por opiniões de desconhecidos o tempo todo.

E talvez pela situação que se vive em vários pontos do mundo, líderes radicais em países influentes, crises sociais e económicas violentas em países em vias de desenvolvimento, guerras eternas no Médio Oriente, gera-se esta polarização.

A dicotomia faz parte da evolução psíquica, que, consciente ou inconscientemente, vai obrigar-nos a integrar e a conviver de forma amena entre os opostos. Além disso, diz-se muitas vezes dos mais novos que não estão nem aí.

A apatia e a inércia é característica da condição de jovem, de quem tem todo o tempo do mundo.

Aqui há tempos, passou uma série de jovens na RTP Play que me deixou horrorizada pelo sucesso que teve, dada a ausência de conteúdo. Entrega à inércia e a uma total ausência de perspetiva.

Já temia pelo futuro da humanidade quando, no passado domingo, fui ver a primeira peça de uma sobrinha do coração.

18 anos de miúda

A peça era composta apenas por miúdos, cujas idades não ultrapassavam os 20 anos. Um deles chinês e outro basicamente uma criança.

À exceção de excertos de peças antigas de Carlos Pessoa, o texto era original. Do professor e encenador, de 33 anos. Que conseguiu domar, cativar, conquistar e fazer que um bando de adolescentes frequentasse aulas, ensaios e, em seis meses, levasse a palco uma peça difícil, emocional e intelectualmente, com imenso conteúdo, sentido crítico, alguma crítica à velha Europa, alguma solução, sem se encostar à reclamação e ao mesmo tempo sem cair no excesso oposto, do tofu e da felicidade idealizada.

E com graça, imensa graça. Sem ser estupidificante ou condescendente.

Uma geração que já nasceu e cresceu com a internet e a tecnologia, que aguenta ensaios e texto que não implique uns olhos num ecrã, os dedos num teclado.

No fundo, no fundo, sabemos sempre que haveremos de sobreviver. Que o mundo arranja forma de se organizar pelo equilíbrio. Que as massas são polarizadas, mas que há sempre os introvertidos para salvar a humanidade da mundanidade. Com a sua paciência, dedicação a um tema, tranquilidade. Temos sempre essa esperança.

E não há muita paciência para os velhos do Restelo

Que, de forma narcisista egoísta e auto-centrada, acreditam que a juventude está perdida. E que a deles é que foi verdadeiramente importante e revolucionária.

Mas é tranquilizador quando somos disso testemunha. Num desempenho tão bom quanto o dos miúdos do teatro de garagem, na peça com que presentearam amigos e familiares no fim-de-semana passado.

E a cultura, neste caso, o teatro, como sempre, a garantir que a estupidificação não tome conta da humanidade. Apesar da suposta ditadura do mercado. E num espaço que adoro, o Teatro Taborda.

Por isso, parabéns a todos. Orgulho particular da Leonor, que vi nascer, crescer naquele palco e está cada dia mais linda.

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