Há vida para além dos opostos…

05/06/2018

Pior do que a literalidade que grassa por esse mundo, virtual e presencial, e que me faz revirar os olhos e quase desistir, é o pensamento dicotómico. Que diz que se falamos bem de uma coisa estamos invariavelmente a falar mal de todas as outras suas concorrentes. Que dita que uma coisa tem de ser melhor do que a outra, que para uma coisa ser boa, nenhuma das outras presta.

Há vida para além dos opostos…

A dicotomia parece ser ainda mais gritante, e particularmente irritante, em grupos. Por isso não sou chegada em coisas em grupo. Cansam-me. Tanto ou quase quanto me cansam as pessoas e as suas coisinhas, as suas manias, as suas insegurançazinhas, os seus egozinhos cheios de medinho. As suas certezinhas, as suas insistências. O nada se poder dizer sem que seja contestado. Como se tudo se tratasse de opinião. A unanimidade mandatória, a discordância a única forma de sobrevivência. E a existência fosse passível de mudança.

A existência pede profundidade…

E os grupos escancaram, trazem para cima da mesa, toda a minha introversão, a minha sensibilidade, a minha necessidade absoluta e incondicional de ligação, de conexão, de significado, de transcendência, de fusão, de comunhão absoluta e intransmissível. E a consequente frustração.

A dicotomia é a segurança dos fracos, dos tediosos, de gente pouco criativa. A quem falta mundo, imaginação, sensibilidade para ver além do óbvio. O fascínio pelo mistério. A magia…  

Sensibilidade essa que é uma bênção e uma maldição

Uma bênção porque permite uma conexão além das palavras; uma maldição porque, uma vez lá, nada mais importa aqui. Só quero viver para isso, aí, na transcendência, na plenitude, no maravilhamento, na conexão total, na paz absoluta que daí advém, me invade, toma conta do meu corpo e da minha cabeça, fazendo de mim uma só.

Só aí quero viver…

Tudo o resto me é tedioso e a mundanidade mata-me aos poucos. Há uma série de coisas, pessoas ou lugares que já não preciso de experimentar. O que me mantém viva funciona como uma espécie de pára-raios da alma. Capta, e filtra, o que e quem vale e não vale a pena, acrescenta e é uma perda de tempo.

É muito difícil ter sensibilidade nesse planeta, dizia-me a M um dia destes, em que desesperava pelo whatsapp com alguém que estava a um oceano de distância. E que me lê melhor do que eu, às vezes.

Sensibilidade não é ser flor de estufa

Sequer nos tratamos de génios incompreendidos. Mas não nos safamos da sensação de isolamento. Que nos mata a cada vez. De que a maioria é daqui e de que somos de um planeta distante. Principalmente em grupo, sempre, sempre em grupo. O grupo é o maior inimigo dos introvertidos, apesar de ter desenvolvido uma persona que em nada revela a minha introversão e timidez. Deus me livre da obviedade.

E, enquanto “o gado vai engrinaldado para o sacrifício”, sigo nessa busca. Já não tão solitária assim. Com a diferença de que agora já sei o que procuro e o que quero. Só preciso de parar de perder tempo com uns e não desistir dos outros. E de me certificar que o pára-raios segue afinado…

Se a maioria não consegue ver a curva do mundo numa planície no Alentejo, o problema não é certamente meu…

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