Hospício

15/11/2017

Ando cansada da esquizofrenia em que se tornaram as redes sociais. O twitter, acima de tudo. Plataforma de que gostava tanto para expiar a bílis. Por ser de certa forma livre. Ao que parece, isso acabou. Lamentavelmente, tornou-se um hospício a céu aberto.

Fala-se que nunca mais na História pode haver uma desgraça como a da Segunda Guerra. Que nunca mais um tipo como o Hitler pode tomar conta dos desígnios de um país. No entanto, todos os dias, assisto a tentativas de desmando por parte de ditadorzinhos nas redes sociais. hospício

Quem quer que seja que se atreva a uma opinião diferente que não condiga com a persona coletiva e a manifeste é alvo de tentativas sucessivas de silenciamento.

Quem responda na mesma moeda, ou tente, de uma forma mais assertiva, defender-se de um ataque ou chamar alguém à razão é ameaçado de denúncia. De que se vai apelar às instâncias superiores, as pessoas que administram as plataformas, para que a pessoa seja banida e impedida de se expressar.

Aqui há tempos, uma miúda qualquer escreveu um tweet em que basicamente chamava bestas a toda a gente que aparentemente defendia uma coisa diferente da que ela defendia. Citei o tuite e disse: da neurose não te safas. Ao que ela respondeu: não preciso de ir ao médico, sou diagnosticada aqui no twitter.

Por mim, a conversa tinha acabado ali. Ela tinha respondido com graça a uma interpelação de uma pessoa que não conhecia. Nem nos seguíamos, sequer.

Até que um seguidor dela resolveu meter-se na conversa. Que nem sequer era com ele. Ao ponto de começar a citar a ordem dos psicólogos em tuites com a minha arroba, chegando a dizer publicamente onde o meu site estava hospedado, quem o administrava. Insistindo com a ordem para que fizesse alguma coisa (no sentido de me impedirem de trabalhar). Felizmente, a ordem dos psicólogos tem mais que fazer. Não lhe chegou saber que em momento algum da minha vida eu me auto-intitulei psicóloga, simplesmente porque não o sou. Querendo à viva força que se fizesse alguma coisa.

Para além de já me terem desejado a morte, tentativas de me mandar calar, no twitter e no facebook, já foram entretanto mais duas. É gente que, quando era pequena, em vez de se defender, ia fazer queixinhas. Não há pior do que um queixinhas. Principalmente quando não assume responsabilidades pelo que diz.

Os brasileiros têm uma frase de que gosto muito: não sabe brincar, não desce pro play(ground), que é como eles chamam aos pátios dos prédios para onde as crianças vão brincar.

E o Ricardo Araújo Pereira dizia no outro dia uma coisa que aparentemente me fez questioná-lo mas com a qual acabei por concordar. É preciso uma certa dose de contradições na vida. De pais e educadores que não digam amén a tudo o que fazemos. Apesar de achar um exagero a forma como a coisa era feita no tempo dele e no meu, em que nada que fizéssemos prestava, naquela crença estúpida de que um elogio estraga uma pessoa.

A vida exige resiliência e nós temos de aprender a defendermo-nos. A não sermos maricas, palavras dele, penso, a batermo-nos pelas causas que defendemos e a apresentar argumentos convincentes. Se acaso houver discussão. Casos há em que a questão não está aberta a discussão. É uma crença, uma opinião e não está aberta a tentativa de convencimento. Chegámos onde?

O que me choca neste hospício virtual é a ausência de consequência

Desta gente que sem pensar duas vezes quer acabar com a possibilidade de outra pessoa trabalhar, comer, pagar as contas e viver. Sem o menor pudor. E no dia seguinte, acorda de cara limpa pronta para fazer o mesmo: indignar-se nas redes sociais.

Tenho uma péssima notícia para vos dar.

Nem que fosse possível prender toda a gente, limpar o mundo dos incautos, o vosso problema estaria resolvido. O Estado não pode legislar de acordo com a vossa neurose. Simplesmente porque é um problema vosso. É vossa a sombra, é vosso o desejo escondido, é vossa a neurose. São os vossos fantasmas.

A opinião pública e a fantasia coletiva não fazem uma pessoa, nem uma verdade. É isso que é perigoso. Para isso se inventaram os tribunais.

A queima na fogueira virtual não resulta.

Resulta cada um ser denunciado às instituições criadas para o efeito, julgado e eventualmente condenado pelo crime que cometeu. E o resto da humanidade fazer o trabalhinho de casa e ver o que incomoda, onde, porquê e para que serve.

O Hitler também queria a perfeição. E viu-se o resultado de alguém que confunde o poder do cargo com poder pessoal.

Outra coisa a ter em conta é o aproveitamento do sistema em benefício próprio. Este catalogar tudo e mais alguma coisa com abuso, assédio e racismo. Ao ponto de nada mais se levar a sério. Esse é o perigo. E é um problema público, de justiça, de credibilidade das instituições. De confiança.

A histeria feminista acaba por ser mais prejudicial do que construtiva.

Não é proibindo tudo e mais alguma coisa que resolve. É dar autonomia emocional às mulheres para que integrem de uma vez que é possível dizer não. Independentemente da tentativa de manipulação que houver por trás, seja uma rejeição amorosa, laboral, o diabo. Sem ter medo das consequências. E que essas consequências existam cada vez em menor escala. Sinal de que não houve ação prévia que se justificasse.

Acabar com a confusão emocional

Parar de confundir proteção com controlo, submissão com aprovação. Para que quem paga também não ache que pode tudo.

As pessoas estão tão desesperadas para provar que não são racistas, machistas, xenófobas que se agarram à primeira chance para apontar o dedo e assim se colocar ao lado do “bem”. Sem falar na quantidade de gente oportunista, desesperada por likes, que não pensa duas vezes antes de empunhar a espada da justiça e acabar cometendo o contrário. Mariliz

Foto: IZ, Toronto, Canadá.

  • Renata 15/11/2017 at 17:54

    Que texto maravilhoso, Isabel. Obrigada por escrevê-lo.

    • Isa 15/11/2017 at 17:58

      Obrigada eu, querida <3

  • Ana Dias 15/11/2017 at 23:54

    Bom dia Isabel. De facto, nunca se auto-intitulou psicóloga. Pelo contrário, afirma explicitamente que não o é. Por outro lado, ali ao lado, em «Aconselhamento», propõe-se a fazer «Orientação; Esclarecimento de questões psicológicas por trás de comportamentos que se repetem; Identificação de gatilhos que levam à adoção de comportamentos autodestrutivos». O que, para todos os efeitos são… atos do âmbito da psicologia.

    Portanto, a minha questão é: Perante um curioso do direito que oferecesse «profissionalmente» pareceres jurídicos, ou um curioso da engenharia que oferecesse pareceres técnicos, ou um curioso da arquitetura que oferecesse projetos de arquitetura… Consideraria que isto são questões do âmbito da liberdade de expressão? Ou algo sobre o que as ordens respetivas teriam algo a dizer? Ou a própria lei (usurpação de funções: «exercer profissão ou praticar ato próprio de uma profissão para a qual a lei exige título ou preenchimento de certas condições»)?

    A minha outra questão tem a ver com a utilização de palavras que correspondem a diagnósticos no âmbito da saúde mental: esquizofrenia, neurose, etc… Evidentemente que pode usar as palavras que quiser, da forma que quiser, e que a maioria das pessoas não as vai receber de forma literal. Por outro lado tendo em conta o estigma (ainda) associado à saúde mental, custa-me ver essas palavras usadas como forma de insultar ou diminuir um interlocutor. Acho que só serve para alimentar a desinformação e o preconceito.

    Não leia isto como uma ameaça de denúncia, porque não o é. Mesmo. Isto sou apenas eu a exercer a minha liberdade de expressão.

    Ana

    • Isa 16/11/2017 at 10:02

      Ana,
      Não sou oficialmente psicóloga porque não me licenciei, mas também não sou só curiosa. Estudei e estudo psicologia analítica que é a única linha com a qual me identifico e não implica diagnóstico.

      Não são atos da psicologia, são do foro psíquico, para os quais estou e me sinto perfeitamente habilitada. E com resultados práticos que a ética me impede de divulgar.

      Quanto ao uso de expressões, chame-lhe liberdade poética. Só gente mal intencionada associaria um texto como este a um artigo técnico-científico em que esses termos são levados à letra. O insulto e a diminuição são interpretação sua, não intenção minha. E portanto da sua responsabilidade.

      Obrigada pela oportunidade

  • Isa 16/11/2017 at 14:39

    Como vê, é possível responder. Se não conseguiu, deve-se a uma falha ou condicionamento do wordpress.

    “Sou a pessoa que comentou o seu blog, e a quem respondeu.

    Aguardo então que me explique a diferença entre «atos da psicologia» e «atos do foro psicológico», porque eu não estou a ver… Outra coisa: se não é «oficialmente psicóloga», não é psicóloga. O facto de se considerar e sentir «perfeitamente habilitada» para exercer numa área profissional não a autoriza, por si só, a exercer nessa área profissional. Para prevenir esse tipo de situações existe o enquadramento deontológico e legal da prática profissional.

    Relativamente às expressões que utiliza, em lado nenhum do que escrevi associei os seus textos a artigos técnico-científicos, nem lhe atribui responsabilidade equivalente. Limitei-me a constatar que, quando usados fora do seu contexto próprio, essas expressões servem, frequentemente, para insultar ou diminuir. Poderei estar enganada. Futuramente estarei atenta a exemplos de utilização dessas expressões para enaltecer ou valorizar.

    Mas, se preferir, ficamos assim. A Isabel é «psicóloga». Os comportamentos e as pessoas que a irritam são «neuróticos» e/ou «esquizofrénicos». Resta-me despedir, e desejar-lhe felicidades para a sua prática «profissional»

    Acrescento que o facto de não me ter permitido responder no blog me diz imenso sobre o quanto valoriza a liberdade de expressão.

    Ana”

  • Isa 16/11/2017 at 14:42

    Ana, você não está aqui para exercer o seu direito à liberdade de expressão. Você está aqui para me questionar. Para me julgar. e para tentar expor-me. Nem sequer se dá ao trabalho de se questionar, de se ler e de me ler em condições. Fosse outro o seu tom, um que me dissesse de facto que gostava de ser esclarecida, em vez do seu, que me diz que só quer é bater boca e arrogar-se o direito de determinar quem pode fazer o quê, onde e em que condições, até lhe respondia. Inclusive dava-lhe umas aulinhas sobre liberdade de expressão, a ver se não se confunde tanto nos seus direitos. Lamentavelmente para si, eu não lhe devo satisfações. Não gosto do seu tom, não gosto das suas intenções, não gosto da sua postura, não gosto da sua abordagem. Quer respostas, vá então procurá-las junto das entidades e das pessoas habilitadas para o efeito.

  • Ana Dias 16/11/2017 at 17:18

    Isabel, procurei ser objectiva e educada, e acho que o consegui (pelo menos até certo ponto… o final do meu último comentário foi escrito sob a irritação de me ter sentido «censurada»). Em todo o caso, a tal da liberdade de expressão também serve para questionar, expor e etc. Serve sobretudo para isso, acho eu. A Isabel, por outro lado, começou por distorcer as minhas palavras e acabou por se escudar numa postura defensiva. De qualquer forma, não preciso das suas respostas. Eu sei-as, e penso que a Isabel também as sabe.

    Cumprimentos,
    Ana

    • Isa 16/11/2017 at 17:26

      Não, Ana, você não sabe nada. Nada que me diga respeito, pelo menos. Olhe para a sua postura, analise bem os seus comentários, imagine que os recebia de uma pessoa que nunca viu na vida nem sequer tem por hábito ler, não conhece o percurso, e pense melhor antes de vir a casa de alguém deixar comentários maldosos e maliciosos, usando um direito tão precioso como o da liberdade de expressão para se escudar de responsabilidades. Continua com uma postura agressiva-passiva em vez de assumir de uma vez ao que vem. Quem se permite dizer o que quer, ouve o que não quer. Isto sou só eu a usar o direito de liberdade de expressão que me assiste numa casa que ainda por cima é minha. Ainda sou eu que pago as contas aqui. E agora, se me permite, vá arranjar o que fazer, parece-me que o seu problema é excesso de tempo livre e falta de noção de si mesma. E não se preocupe, não trabalho com diagnóstico.

  • Ana Dias 16/11/2017 at 19:04

    Disse ao que vinha logo no primeiro comentário que fiz. Foquei-me naquilo que publica aqui, e que (achei eu) estava aberto a discussão. Não teci qualquer comentário sobre si ou sobre a sua vida. E penso que as questões que coloquei são legítimas. Quanto ao passivo-agressivo, não foi de todo a minha intenção, mas percebo que me possa ter lido dessa forma. Mas numa coisa concordo consigo: já perdi (perdemos) tempo demais com uma conversa que, claramente, não vai chegar a lado nenhum. Vou arranjar o que fazer :)

    Ana

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