Húmus

26/10/2018

Uma vontade instintiva e irresistível de me fusionar com a terra tem superado as lágrimas de comoção que a acompanham. Desconheço a sua origem, o seu destino. Sequer as compreendo, mas sei que são sinal de vida. Desde que nasci. Deixo-as correr, porque a atração pelo húmus é mais forte do que eu. Do que os meus medos, a minha teimosia, o meu pavor da vulnerabilidade.  terra

A vivência não mente. E a vida é soberana.

Sabe do meu propósito maior muito mais do que eu e encarrega-se de me pôr no caminho. Por meios que não conheço, mas nos quais aprendi a confiar.

Não me assusta mais expirar folhas secas que há muito caíram, porque sei que na natureza nada se perde, tudo se transforma. Que essas folhas rapidamente serão o húmus, que agora inspiro. E me fertiliza, dando lugar a uma nova planta, adaptada às condições exteriores, para que vingue, cresça e floresça. Sem perder a essência. Com maturidade e sabedoria.

Nada do que é verdadeiramente nosso se perde.

O que se transforma é o que não serve mais. Para que o propósito maior se cumpra. Mesmo que não saiba como, quando, sequer como será. Os princípios básicos estão garantidos. E isso é suficiente.

Perante o novo, há temor, há insegurança espelhada nos desgostos passados, nas coisas que não superámos e que enraizámos como incapacidade. Há uma infantilidade que se resume no medo do mundo, como se a pessoa que temos em nós fosse a mesma, com a mesma escassez de recursos, a mesma imaturidade, as mesmas muralhas intransponíveis, a mesma estrutura débil, assente em fantasias várias.

Impermeáveis à permissibilidade, temendo que o todo de nós pudesse ser tomado pelo mundo e nos transformasse noutra pessoa. Que não somos nem seremos.

Medo esse que só superamos quando, perante situação similar, resolvemos ter uma postura diferente, em vez de fugirmos ou nos calarmos, nos abstermos de participar, de contribuir. Para que, perante o inexorável, fizéssemos o melhor que  pudéssemos e soubéssemos. Não descartando toda a sabedoria e conhecimento que fomos adquirindo ao longo da existência, usando-os e aplicando-os cirurgicamente, onde possam ser mais valia. Pois nada do que vivemos é perda de tempo.

Deixando que a vida faça o resto.

Permitindo que a pessoa em quem entretanto nos tornámos encare a situação com a inocência, a esperança, a vontade, a força, a fé de um adolescente, ainda não poluído pelos interesses instalados, a preguiça sistémica, a desistência, a frustração, as mazelas que se nos foram acumulando no corpo e na alma, fruto de desilusões, do desmoronar da fantasia, do desejo narcísico e da megalomania do ego.

Mesmo sem saber como, vamos para o mundo, de novo, com confiança, fé, coragem, uma determinação fluída, sem a intransigência característica do medo de sermos engolidos pela terra.

O novo ano, que começou ontem, avizinha-se desafiador. Mas os recursos estão cá. E eu não mais tenho medo de mim.

Posso sempre voltar à terra, ao feminino, o único capaz de gerar vida. Não faltarão raios de sol. E a natureza encarregar-se-á de eliminar tudo o que não contribua para a permanência da existência vital.

Não faço balanços, não conto vitórias, muito menos derrotas. Mas agradeço. Ao Nuno, à Biodanza, ao mundo, à vida, que me vai pondo as pessoas certas no caminho. Pessoas essas que fizeram questão de não me deixar passar o dia de ontem em branco. Celebrando comigo a vida que persiste em não querer abandonar-me. E a mim. Por ter a capacidade de ainda conseguir ver alguma coisa, apesar da escuridão que me habita.

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