Introvertidos

04/04/2018

Para que tenhamos consciência da diferença entre introvertidos e extrovertidos, para Jung e a psicologia analítica, há uma pergunta que se faz comummente: 

Que tipo de silêncio te incomoda?

Por piada, dizemos que quando a pergunta é feita a um introvertido, a resposta é, invariavelmente: como assim?

O silêncio nunca incomoda…

É o meu caso, raramente o silêncio incomoda. Nem em relação. Passadas as inseguranças iniciais, o silêncio do outro para mim representa o tempo dele. De que precisa para lidar com as coisas dele e do mundo.

Os introvertidos funcionam assim.

No entanto, recentemente, apercebi-me de um silêncio que me incomoda. Por uns dias, achei que fosse o da falta de assunto. Neste momento, a secar o cabelo, acabo de me aperceber que, como sempre, é mais profundo do que isso. A falta de assunto apenas o escancara.

O silêncio que me incomoda é o da ausência de intimidade.

Que, para os introvertidos, é fatal. Nem é tanto incomodar… Quase me entristece, só não chega a tanto porque não me surpreende… Estamos habituados a refazer a vida a toda a hora. Já que não temos jeito para conversa de circunstância, impacienta-nos. Nem para trivialidades, mundanidades, entediam-nos de morte. A superficialidade faz-nos revirar os olhos. Não mantemos relacionamentos nessas condições, vamos à nossa vida, estamos sempre bem connosco mesmos, na nossa intimidade, na nossa preciosa introversão, no nosso maravilhoso mundo interno. Para nos darmos ao trabalho de sair de casa, de nos relacionarmos, essa é uma condição:

A permissibilidade para a intimidade.

Não conheço os outros tipos tão bem quanto o meu, mas, no caso dos INFP, essa intimidade está diretamente relacionada com profundidade. Nada mais me interessa.

Para os INFP, a busca da identidade é a busca de uma vida, nós queremos entender quem somos e o que viemos cá fazer. Interessa-nos mais o que pode ser do que o que realmente é. Vemos potencial em tudo e o mais humano de quase todas as pessoas. E certamente de todas as experiências.

E é muito bom quando alguém dá um nome a isto, sem o confundir com narcisismo, auto-centrismo, egocentrismo e outros ismos.

Jung salva a minha vida todos os dias. O MBTI, e os arquétipos, harmonizam-me. Nesse casamento incrível entre intelecto, mundo interno, valores pessoais. Sempre que comportamento e crença caminham juntos. Quando a vida arquetípica interna e a vida no coletivo são expressões uma da outra, sendo verdadeiros em relação a quem somos, no fundo e à superfície.

Isso é sentirmo-nos em casa.
  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 05/04/2018 at 01:18

    Oh Isabel!Como a compreendo em cada linha, em cada palavra revejo o meu percurso e o aconchego desde lugar de silêncio que nos é tão caro e, tantas veez, mal compreendido! O silêncio não precisa de assunto. Nele estão contidos todos temas que afloram na alma em cada encontro com a vida. Está no caminho certo, creia. Um dia, o silêncio falará consigo e por si e isso trazer-lhe-á a segurança de quem traz o mundo consigo e desconhece a solidão.
    Estar só, amar a privacidade e o silêncio não é estar contra nada nem contra alguém. É amar tudo e todos com a distância da reserva de que necessitamos para a verdade do amor que temos para dar.
    Um dia os arquétipos deixarão de lhe fazer falta. Continuarão como figuras de recurso perante qualquer inusitado mistério, mas já não serão mais os ‘compagnons de route’ que são agora. Porque à volta desse silêncio muita coisa maravilhosa e real está ainda para acontecer.
    Que tenha tido uma Santa Páscoa e a conserve consigo nas danças que se desenham no ar, na beleza da sua escrita, no enorme afecto que tem para dar.
    Foi bom tê-la encontrado aqui!

    • Isa 05/04/2018 at 09:54

      Que maravilha de comentário, muito, muito obrigada :) Beijo grande. PS: ainda não me disse como me encontrou :)

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