Lispector

10/07/2017

A comparação é, para dizer o mínimo, generosa. No limite, impossível. Ainda que Clarice Lispector tenha sido mencionada mais do que uma vez, por pessoas diferentes, sem que tenham falado umas com as outras.

A única coisa que tinha lido era Laços de Família. Um livro pequeno de contos que li de uma penada. Ficou-me a ideia de que era demasiado deprimida para o meu gosto. Não ao nível de Virginia Wolf, mas deprimida ainda assim. Só que me vez de se matar, mandava para fora.

Até me identifico com a depressão, mas não com a crueza.

E nunca mais pensei nisso. Lispector

Recentemente, amiga de SP, uma das primeiras pessoas a mencionar o que escrevo e Clarice Lispector na mesma frase, esteve em Lisboa e trouxe-me o Todos os Contos. Um livro com cara de ter acabado de sair.

Comecei a lê-lo ontem e apaixonei-me logo pelo prefácio. Há muito tempo que não me acontecia, o dia a ir-se embora lá fora e eu a não conseguir levantar-me para acender a luz.

Entendo a referência, Lispector diz o que ninguém quer ouvir e eu faço muito isso no que escrevo. Mas ela é um génio. Tenho ideia que li um conto inteiro, Obsessão, sem conseguir respirar. A sensação de que Clarice conhece todos os meus segredos e os descreve com uma poesia e uma arte que me faz sentir menos miserável na minha existência está a fazer da leitura voraz.

A possibilidade de haver literatura, poesia, beleza, no que mais nos envergonha é coisa para me fazer suspirar de alívio e de esperança.

Estava a precisar disto como de pão para a boca…

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