História da miúda que se dizia cão

26/08/2019

Uma das minhas sobrinhas do coração, ali entre os 2 e os 4 anos, dizia que era um cão. Andava de gatas, ladrava quando alguém entrava em casa, era assim que nos cumprimentava, prendia uma trela à volta dela, e nos puxadores das portas, e ficava ali sentadinha.

E, num certo momento, depois de não sei quanto tempo nisto, pediu à mãe para lhe pôr um prato no chão, porque queria comer como os cães. Afinal, era um cão.

A mãe, que, tal como o pai, a deixou viver aquele símbolo, não o alimentou.

Disse-lhe: tem paciência, comes na mesa como toda a gente. A miúda há de ter insistido, mas a mãe, e bem, foi inflexível. E a miúda, que, como todas as crianças e adolescentes, precisa de limites, porque são estes que lhe dão segurança, e de orientação, e não de gente que lhes faça todas as vontades, pondo-a em risco sério de vida, de saúde física, emocional e psíquica, acabou por ceder.

Mas continuava a dizer que era um cão, a andar de gatas e a ladrar. Pôs inclusive o pai a fazer de cão também. Este alinhou e até deixava que ela o “passeasse” dentro de casa.

A minha amiga, mãe dela, confessou-me que, ao fim de não sei quanto tempo, (o pai diz que foi entre os 2 e os 4 e a mãe tem ideia que durou até aos 5 anos, mas não se lembram com precisão, apenas sabem que foi muito tempo) e depois de lhe ter passado, levaria a miúda ao psicólogo se a coisa se perpetuasse.

Felizmente, não foi preciso.

Deixou-a viver o símbolo até que a miúda integrasse o conteúdo inconsciente que estava simbolizado no cão.

Mas jamais alimentou ou incentivou.

Jamais lhe disse: eu aceito-te como és e aceito que sejas um cão. E por isso vou tratar-te como tal. Levar-te à rua com uma trela, vais fazer xixi como as cadelas, ou como os cães, e por aí fora… Ou seja, impôs-lhe limites, protegeu-a dela mesma, inclusive de sofrer de bullying.

E de ser considerada maluca e incapaz.
Por andar com uma criança por uma trela e a obrigar a fazer xixi na rua como os cães. E independentemente de todas as evidencias mostrarem que se tratava de um ser humano.

A miúda é linda, caminha em duas pernas e tem um namorado to die for.

Não dá para alimentar muito menos incentivar a fantasia de uma criança de 3 anos que diz que é cão ou seja lá o que for, inclusive do género oposto ao que nasceu. Ela não tem essa consciência. Só vê que tem um órgão sexual diferente, so far.

Consultem educadores de infância, que lidam com crianças todos os dias. Conhecem-nas melhor que ninguém, e à sua diversidade.

Não dá para afirmar taxativamente que ela é trans.

Simplesmente porque nem a psique dela está formada ainda.

O que dá é para, se for demasiado preocupante, se persistir no tempo e for além da fantasia, tentar entender de onde aquilo vem. O que pretende ao dizer que é de um género diferente do qual nasceu. E esmiuçar até ao tutano, para que não reste qualquer dúvida.

Os psicólogos sabem fazer (e servem para) isso…

As pessoas não sabem a que casa de banho ir, que balneário frequentar, é um problema individual. E para o qual eu sou sensível. Como o sou para todas as questões psíquicas, de identidade.

Mas não posso aceitar muito menos conceber que o mundo inteiro tenha de aguentar crises de identidade individuais. Que todos temos. Pactuar com elas, alimentá-las, incentivá-las. Tenha de aceitar que porque uma pessoa não sabe quem é todos os outros têm de a aguentar. E a expensas da sua privacidade. Negando-se esse direito básico.

Se afeta o coletivo, vamos com calma. Ainda mais quando esse coletivo são crianças e jovens em formação. A todos os níveis.

O suposto direito de um não pode sobrepor-se nem impor-se ao direito de 30, 100, 200.

Mais grave ainda é quererem taxar uma criança, cujo desenvolvimento psíquico sequer está completo, repito, com um rótulo que vai carregar para o resto da vida. Que a vai marcar de forma talvez irreversível.

Rótulo imposto por olhos de adulto.

Que tem influência total sobre o seu filho ou filha. Os pais sabem tudo. Esquecendo-se que é uma criança. Que se expressa por símbolos. Sem consciência alguma, de nada…

Não dá para avaliar ou julgar o comportamento de uma criança de 3 anos como o de um adulto de 20…

O que dá é para consultar um psicólogo a ver se com a ajuda de quem entende do assunto, e conhece as consequências, se consegue descobrir o que se passa com a criança.

E os pais estarem preparados para assumir responsabilidades, erros, fraquezas.

É isto que a maioria não está disposta.

Talvez ajudasse parar de associar a psicologia a doença mental. Isso é para a psiquiatria. A ver se se acaba com o estigma que terapia é só pra malucos.

O que é uma visão completamente retrógrada da mesma.

Como se vê, a questão do decreto não se prende com casas de banho, apenas. Apesar de esta ser válida. Porque também inclui balneários… E é diferente de casas de banho mistas, como me parece bem evidente.

É muito mais séria e grave do que isso.

Quanto a quem se sente ofendido, temos pena. Como diz e bem o Ricky Gervais, lide com as suas próprias emoções em vez de tentar proibir o mundo de falar. Em vez de querer impor tudo e mais alguma coisa aos outros. Como um pequeno DITADOR, digno de um Estado totalitário.

E pior, não vai resolver-lhe o problema.

Essa ditadura dos falsos fracos, lamento é tão ditadura quanto outra qualquer. Disfarçada de bondade, de tolerância, sei lá eu do que mais.

Amor sem limites, sem orientação, não é amor.

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